A lua com gatilho – Raúl González Tuñón


Abaixo a tradução que fiz do poema-manifesto do poeta-lutador argentino Raúl González Tuñón. Mais uma reflexão sobre o papel da poesia nos dias de bárbarie em que vivemos.

A LUA COM GATILHO

É preciso que nos entendamos.
Eu falo de algo certo e de algo possível.
Certo é que todos comam
e vivam dignamente
e é possível saber algum dia
muitas coisas que hoje ignoramos.
Então, é necessário que isto mude.

O carpinteiro fez esta mesa
verdadeiramente perfeita
onde se inclina a menina dourada
e o pai celeste resmunga.
Um ebanista, um pedreiro,
um ferreiro, um sapateiro,
também sabem o seu.

O mineiro desce à mina,
ao fundo da estrela morta.
O campesino semeia e ceifa
a estrela já ressuscitada.
Tudo seria maravilhoso
se cada qual vivesse dignamente.

Um poema não é uma mesa,
nem um pão,
nem um muro,
nem uma cadeira,
nem uma bota.

Com uma mesa,
com um pão,
com um muro,
com uma cadeira,
com uma bota,
não se pode mudar o mundo.

Com uma carabina,
com um livro,
isso é possível.

Compreendes por que
o poeta e o soldado
podem ser uma mesma coisa?

Marchei atrás dos operários lúcidos
e não me arrependo.
Eles sabem o que querem
e eu quero o que eles querem:
a liberdade, bem entendida.

O poeta é sempre poeta
mas é bom que ao fim compreenda
de uma maneira alegre e terrível
quão melhor seria para todos
que isto mudasse.

Eu os segui
e eles me seguiram.
Aí está a coisa!

Quando se tiver que lançar a pólvora
o homem lançará a pólvora.
Quando se tiver que lançar o livro
o homem lançará o livro.
Da união da pólvora e do livro
pode brotar a rosa mais pura.

Digo ao pequeno padre
e ao ateu de botequim
e ao ensaísta,
ao neutro,
ao solene,
e ao frívolo,
ao tabelião e à corista,
ao bom coveiro,
ao silencioso vizinho de um terceiro,
a minha amiga que toca o acordeon:
-Olhai a mosca sufocada
embaixo da redoma de vidro.

Não quero ser a mosca sufocada.
Tampouco tenho nada a ver com o macaco.
Não quero ser abelha.
Não quero ser unicamente cigarra.
Tampouco tenho nada a ver com o macaco.
Eu sou um homem ou quero ser um verdadeiro homem
e não quero ser, jamais,
uma mosca sufocada debaixo da redoma de vidro.

Nem colméia, nem formigueiro,
não compares os homens
a nada mais que não seja homem.

Dá ao homem tudo o que necessite.
Os pesos para pesar,
as medidas para medir,
o pão ganhado altivamente,
a flor do ar,
a dor autêntica,
a alegria sem uma mancha.

Tenho direito ao vinho,
ao azeite, ao museu,
à Enciclopédia Britânica,
a um lugar no ônibus,
a um parque abandonado,
a um cais,
a uma açucena,
a sair,
a ficar,
a dançar sobre a pele
do Último Homem Antigo,
com meu esqueleto novo,
coberto com pele nova
de homem reluzente.

Não posso cruzar os braços
e interrogar agora o vazio.
Me rodeiam a indignidade
e o desprezo;
me ameaçam o cárcere e a fome.
Não me deixarei subornar!

Não. Não se pode ser livre interamente
nem estritamente digno agora
quando o chacal está à porta
esperando
que nossa carne caia, apodrecida.

Subirei ao céu,
lhe colocarei gatilho à lua
e desde cima fuzilarei o mundo,
suavemente,
para que este mude de uma vez.

“Perfume para os dedos”


Começo 2012 com um lindo poema pra retomar as postagens aqui no Passarin, depois de um período de grandes correrias no fim de 2011 com o fechamento do mestrado e do 2o livrin de poesia, o “Nada comum dia após o outros”… Aliás, o sarau de lançamento do meu livrinho, junto com os lançamentos dos 2os livros do Paulo Vieira (“Frotas em Caixotes”) e do Cássio Corrêa (“O dia que você virou praça”) foi muito bonito. Contou até com participação musical internacional do querido Pablo Sánchez com seu “Planeta Pertinho”, canja do amigo poeta, cantor e compositor Diogo Avelino e do brother Flávio Peixoto.

O poema abaixo é dum companheiro de lutas e educador popular, cantadô, violeiro e minêro… acredito que ele prefira que não o identifique, pois usa sempre um pseudônimo… portanto, respeito sua vontade… Bora lá, 2012!

PERFUME PARA OS DEDOS

de Oruam Ipacs

Lá no futuro,
profundo horizonte róseo
da aurora dos trabalhadores
viveremos, eu e você.

Lá, no tempo dos homens,
de homens fazendo coisas,
não esse avesso absurdo
de aço, plástico e carne.

Onde o trabalho sem segredos
não espalha a miséria
e a total incompreensão.
Apenas trabalho e gozo do seu fruto.

Lá, um dia acordarei descansado
de um sono que nunca tive.
E tomado por uma animação,
desconhecida da que tenho agora,

irei a associação livre
dos trabalhadores livres das perfumarias,
onde decidem, pelos bons olfatos,
qual a melhor fragrância para cada ocasião.

E enquanto amasso pétalas
para extrair seu potente sumo,
pedirei uma recomendação:
“Qual a melhor fragrância para os dedos de um tocador apaixonado?”

Nesse dia, como tantos outros por lá,
passarei na associação livre dos violeiros-poetas
e me inscreverei para a noite de serenatas,
nesse mesmo dia. Como tantos outros por lá,

te aguardarei a tarde toda ensaiando,
cunhando versos, emprestando melodias,
ganhando outras. Tão belas
quanto o cheiro no frasco secreto.

Quando você chegar sem as olheiras que lá nunca teve
vai sorrir ao me ver de viola na mão.
E o perfume dos dedos exalados na canção
chegarão a ti como um encanto.

“Estás apaixonado de novo?”
Dirá, enquanto me beija o pescoço.
E riremos um riso que nunca rimos
O riso inocente dos encantamentos
Que lá não enganam. Nem se quisessem.

Guillén

Tudo muito corrido. tanta coisa. tanto… sigo só traduzindo e aproveitando algum material antigo. Tra(b)duções do poeta aclamado pelos cubanos como seu artista maior, ficando atrás, em popularidade, apenas de José Martí. Ao final, um vídeo com o grupo Quilapayún – que espero ainda este ano assistir no Chile! – cantando o poema “Muralla” de Guillén.

PROBLEMAS DO SUBDESENVOLVIMENTO

Monsieur Dupont te chama de burro,
porque ingoras qual era o neto
preferido de Victor Hugo.

Herr Müller começou a gritar,
porque não sabes o dia
(exato) em que morreu Bismark.

Teu amigo, Mr. Smith,
inglês ou yanqui, eu não sei,
se revolta quando escreves shell.
(Parece que poupas um éle,
e, pior, que pronuncias chel.)

Olha só,
quando sacar qualé,
mande dizerem cacarajícara
e onde está o Aconcágua,
e quem era Sucre,
e em que lugar deste planeta
morreu Martí.

E, por favor:
que te falem sempre em espanhol.

UM POEMA DE AMOR

Não sei. O ignoro.
Desconheço todo o tempo que andei
sem encontrá-la novamente.
Talvez um século? Acaso.
Acaso um pouco menos: noventa e nove anos.
Ou um mês? Poderia ser. De qualquer forma
um tempo enorme, enorme, enorme.

Ao fim, como uma rosa súbita,
repentina campânula tremendo,
a notícia.
Saber de repente
que iria a ver outra vez, que a teria
próxima, tangível, real, como nos sonhos.
Que explosão contida!
Que trovão surdo
circulando por minhas veias,
fervilhando de cima
à baixo meu sangue, em
uma noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
de nos cumprimentarmos, de maneira
que ninguém compreendera
que esta é nossa própria maneira?
Um roçar apenas, um contato elétrico,
mão ques se apertam conspirando, um olhar,
um palpitar do coração
gritando, uivando com silenciosa voz.

Depois
(Já sabia desde os quinze anos)
esse esvoaçar das palavras presas,
palavras de olhos baixos,
penintenciais,
entre testemunhas inimigas,
todavia
um amor de “te amo”
de “tu”, de “bem queria,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, pense melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo em primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
no turbilhão de amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
seguí-la com os olhos,
e já sem olhos seguir vendo distante,
além das distâncias, e ainda seguí-la
mais longe ainda,
feita de noite,
de mordedura, beijo, insônia,
veneno, êxtase, convulsão,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa substância conhecida
com que amassamos uma estrela.

A FOME

Esta é a fome. Um animal
todo canino e olho.
Ninguém o engana ou distrai.
Não se farta em uma mesa.
Não se contenta
com um almoço ou uma ceia.
Anuncia sempre sangue.
Ruge como leão, aperta como jibóia,
pensa como pessoa.

O exemplar que aqui se oferece
foi caçado na Índia (subúrbios de Bombaim),
mas existe em estado mais ou menos selvagem
em outras muitas partes.

Não se aproxime.

BURGUESES

Não me dão pena os burgueses vencidos.
E quando penso que vão me dar pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.

Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem chapéus nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias.

Não passe, por favor. Isto é um clube.
A relação está cheia.
Não há vaga no hotel.
O senhor saiu.

Precisa-se de meninas.
Fraude nas eleições.
Grande baile para cegos.

Saiu o Prêmio Maior em Santa Clara.
Bingo para órfãos.
O cavalheiro está em Paris.
A senhora marquesa não recebe.
Enfim, e

que tudo recordo e como tudo recordo,
que porra me pede você pra fazer?
E, além do mais, pergunte-lhes.
Estou seguro que também
recordarão.

Quilapayun interpreta “La muralla” de Guillén

LA MURALLA – NICOLÁS GUILLÉN

Para hacer esta muralla,
tráiganme todas las manos:
los negros sus manos negras,
los blancos sus manos [blancas.
Ay,
una muralla que vaya
desde la playa hasta el monte,
desde el monte hasta la playa,
allá sobre el horizonte.
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– Una rosa y un clavel …
– ¡Abre la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– El sable del coronel …
– ¡Cierra la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– La paloma y el laurel …
– ¡Abre la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
El alacrán y el ciempiés …
– ¡Cierra la muralla!
Al corazón del amigo,
abre la muralla;
al veneno y al puñal,
cierra la muralla;
al mirto y la yerbabuena,
abre la muralla;
al diente de la serpiente,
cierra la muralla;
al ruiseñor en la flor,
abre la muralla …
Alcemos una muralla
juntando todas las manos;
los negros, sus manos negras,
los blancos, sus blancas manos.
Una muralla que vaya
desde la playa hasta el monte,
desde el monte hasta la playa,
allá sobre el horizonte …