Lara de Lemos (Brasil, 1925-2010)


Lara de Lemos e Mario Quintana

Estimulado pelo querido Alípio Freire (militante, artista plástico e autor do livro de poesias “Estação Paraíso”), que conheci melhor numa mesa sobre arte engajada nos períodos de ditadura, na usp, faço este post sobre Lara de Lemos, poeta do sul, engajada nas causas políticas de sua época (escreveu junto com Paulo Cesar Pereio o Hino da Legalidade, canção entoada em todo país pedindo a posse do vice-presidente João Goulart que se encontrava suspensa pelos militares). Estabelecido o golpe militar de 64, ela e seus filhos foram presos e ela submetida a tortura. Já fora da prisão escreveu livros de poesia sobre a experiência do calabouço e da luta política, sendo o mais famoso o “Inventário do Medo”. Já encomendei uma antologia via estante virtual. Por enquanto, segue abaixo um pouco do material que o Alípio me passou.

CELAS – 1

Viajo entre túneis de sono
como un cão vadio à procura
do dono.

Viajo em barcos fastasma
onde o tempo retrocede em busca
da alma.

Viajo consultando arquivos
e a memória ilumina rostos
redivivos.

Viajo procurando portos
e me encontro no país
dos mortos.

CELA – 6

A hora dos
capuzes negros
é a hora mais negra
dos prisioneiros.

Descer às cegas
pelas cascatas
apalpando paredes
adivinhando fissuras

Pisando superfícies
escorregadias
de sangue
e urina.

Às cegas.

Eis que me retornam
vestes, sapatos,
óculos, relógios.

Bolsa povoada
de lenços, moedas,
inúteis estojos.

Despojada até aos ossos
não sei o que fazer
de meus despojos.

CONTA CORRENTE

Para Wanda Maria

CRÉDITO DÉBITO

O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco

Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:

além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina

além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.

além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.

SALDO

só o domado viver.
Mais nada.

LEGADO

Para Laury Maciel

Recuso-me a herança
deste poço vazio
deste lodo legado
em negligências.

Engulo a seco e calo.
Aposto em cada poema
— único engenho
ainda não vencido.

Proponho rubros jogos
olhos atentos
para o imaginário.

Ases de puro ouro
— naipes que guardo
para meu incêndio.

O IRMÃO

No rosto a ruga
na fala o susto
na boca a baba
no corpo o luto.

No sangue o saque
na carne o fogo
no riso a claque
na palma o nome.

No olho o cisco
nos pés a corda
na dor o quisto
na mão a vela.

Na cara o risco
no dente a falha
na casa o lixo
na morte a vala

Paulo Fonteles (Brasil, 1949-1987)


Paulo Fonteles foi militante da AP (Ação Popular) durante a ditadura. Ele e sua esposa (que estava grávida) foram presos e barbaramente torturados. Encontrar a poesia de Paulo me abalou muito… tenho pesquisado a poesia dos lutadores e dentre eles os que foram presos e assassinados pelas ditaduras da América Latina. Mas nunca havia encontrado uma poesia que descrevesse de forma tão crua e direta o processo da tortura. A maioria dos lutadores torturados não revisita esse momento, escrevendo sobre o antes, sobre a resistência durante e sobre o porvir de liberdade. Paulo Fonteles volta com determinação a sala de torturas para relatar isso que não pode ser esquecido… é como se tentasse “desesteticizar” a sua poesia, deixando o puro desconforto para o leitor, desconforto de quem vê a tortura de forma clara, sem rodeios, sem metáforas. E se usa a repetição não é estritamente como efeito literário, mas porque a tortura é toda baseada em repetição desumanizadora…

Coloco de cara as poesias, que não foram publicadas no Brasil… e depois trechos de um longo relato que o próprio Paulo concedeu à revista Resistência, em 1978, ilegal à época. Sugiro fortemente a leitura integral do relato aqui: http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/num09/art_01.php Só com essa leitura, pesada e necessária, se pode dimensionar a poesia de Paulo e entender as diversas situações que deram origem aos poemas. Paulo e sua esposa, Hecilda Veiga sobreviveram as torturas. O filho Paulo Fonteles Júnior nasceu nos porões da ditadura subvertendo a praga que os torturadores rogavama de que “não devia nascer filho dessa raça”. Ficaram oito meses na prisão antes de serem acusados a 16 de junho de 1972. Paulo Fonteles foi condenado a um ano e oito meses, Hecilda a um ano de prisão. Os juizes ignoraram as denúncias de tortura. Paulo Fonteles, solto, se engajou na luta dos posseiros na região do Araguaia tendo sido assassinado pelo grandes grileiros latifundiários da região.

Depois de ler as poesias e o relato de Paulo, as palavras de de Pedro Tierra (outro poeta torturado pela ditadura no Brasil) fazem mais e mais sentido: “(…) E a palavra não se renda / à tortura. // E quando eu disser: pedra, / não se entenda pão. // Quando eu disser: noite, / se encontre nela todo poder de treva. // Quando eu disser: eis o inimigo, / mate-o antes do amanhecer.”

Obs.: Mantenho as letras maiúsculas porque acredito que assim foram escritas. Infelizmente não consigo reproduzir o rico uso espacial que Paulo faz com os versos… (o wordpress dificulta isso). Em geral, os trechos repetidos são dispostos de forma diferente no espaço.

A VIAGEM

O AVIÃO
LEVANTA VÔO.

ALGEMAS NÃO PRENDEM O PULSO DA MULHER
QUE DESCANSA O BRAÇO LIVRE NO VENTRE CRESCIDO.

O RÁDIO
TRANSMITE A MENSAGEM:
ALÔ ALÔ BOTAFOGO
ALÔ ALÔ BOTAFOGO
A MERCADORIA
A MERCADORIA
A MERCADORIA
JÁ CHEGOU
A MERCADORIA
JÁ CHEGOU.

AFOGAMENTO

CORPO ESTIRADO
CABEÇA REPUXADA PARA TRÁS.

TUBOS DE BORRACHA
INFILTRAM-LHE NA BOCA
NAS NARINAS.

ÁGUA.
O PEITO SUFOCA
O CORPO ESTERTORA
O PRESO ESPERNEIA.

AGONIA.

QUANDO A MORTE SE APROXIMA
APENAS UM FÔLEGO.

APENAS UM FÔLEGO
QUE O PRESO NÃO PODE MORRER ANTES DE
FALAR.

ATAQUE DE PEÕES

GANHO UMA CARTEIRA DE CIGARROS,
VAZIA.
UM BELO PRESENTE.

COM UM FÓSFORO RISCADO
DESENHO UM TABULEIRO DE XADRÊS
E CUIDADOSAMENTE RECORTO 32 FIGURAS.

DESENVOLVO BOAS TRAMAS
E SONHO COM ATAQUES DE PEÕES.

CHOQUE

UM MAGNETO
UM DÍNAMO
DOIS FIOS.

ELETRICIDADE
NA LÍNGUA
NO PÊNIS
NO ÂNUS
NA CABEÇA.

ALUCINADO
O CORPO TREPIDA
NO PAU DE ARARA
ESCARRANDO SANGUE.

O SARGENTO,
AQUELE QUE GIRA O DÍNAMO
RI.

DISCURSO DO MÉTODO

OS MÉTODOS DA GESTAPO

GESTAPO
GESTAPO
GESTAPO

ESTÃO ULTRAPASSADOS,
ULTRAPASSADOS.

– ESTAMOS PESQUISANDO
PESQUISANDO
PESQUISANDO

A SANTA INQUISIÇÃO
A SANTA INQUISIÇÃO

– ESTAMOS PESQUISANDO A SANTA
INQUISIÇÃO.

LUZ

LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

AZUL
FORTE LUZ.

LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

A CABEÇA NÃO PODE BAIXAR
AS PÁLPEBRAS NÃO PODEM CERRAR.

LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

AZUL
FORTE LUZ.

LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

DO NADA,
SURGINDO DO NADA
UM SOCO

ME CALA.

SURGINDO DO NADA
UM SOCO

ME CALA.

SEGUNDA ANUNCIAÇÃO

TEU FILHO
TEU FILHO
TEU FILHO
NÃO NASCERÁ.

TEU FILHO
FILHO DESSA RAÇA
FILHO DESSA RAÇA
NÃO DEVE NASCER.

NÃO DEVE NASCER
NÃO DEVE NASCER.

FILHO DESSA RAÇA
NÃO DEVE NASCER.

TEU FILHO
FILHO DESSA RAÇA
FILHO DESSA RAÇA
NÃO DEVE NASCER
NÃO DEVE NASCER.

DE UM TEMPO QUE ESTÁ POR VIR

Precisão de uma noticia
Ou de um gole de cachaça.
Mas a noticia não vem
E a cachaça queima a garganta.
Hibernar não posso
Que a ciência não chegou a tanto.

Preciso de uma boa noticia,
Que fale dos cabelos da mulher
Vindo para se enroscar na minha cama
E apagar a solidão.

Chega de prisões!
Cantos de tortura e alimento de abutres!
Não precisamos de heróis chorando
E morrendo nos calabouços!

Preciso de uma boa noticia
De um tempo que esta por vir,
De uma noite de luta, estrelada,
Derramando-se sobre um mundo de paz.

A matinta-pereira já se foi.
A curupira nunca mais atacou ninguém.
Todas as assombrações foram enterradas.
Homens, mulheres e crianças já podem entrar no mato
Sem medo.

PEQUENO POEMA PARA MINHA MÃE

A noite cai no Araguaia e penso em ti, minha mãe.
Minhas botas estão sujas pelos dias com meus companheiros,
mas meu coração está limpo
e sereno
e minhas lembranças estão em combate.
Escrevo-te como filho parido no cárcere e em Xambioá,
pequena mãe,
ainda escutamos os sussurros da vida futura.
Bem quisera beijar-te o rosto luminoso,
e dizer-te, como quem entoa rouxinóis,
que vencemos os matadores de crianças,
os pusilânimes da tortura e da morte anunciada,
os algozes das masmorras do Planalto,
os pústulas do obscurantismo e da infelicidade geral de nosso povo.
E vencemos, querida mãe,
o ministro do Garrastazu, que como lobo rodeava-me,
com sangue nas mãos e as presas afiadas
e este dizia: “Filho desta raça não deve nascer”.
Mas nascemos, filhos do povo, às centenas
aos milhares
aos milhões.
E como vão meus irmãos?
E Ronaldo periquito, gerado na prisão
e o roqueiro guerrilheiro João?
A noite cai e penso em ti, minha mãe.
Minhas botas estão sujas pelos dias com meus companheiros,
mas meu coração está limpo e sereno
e nutro grandes esperanças.
Sou todo combate.

TRECHOS DO RELATO DE PAULO FONTELES

Relato na íntegra aqui.

(…)

Fui levado diretamente para o Pelotão de Investigações Criminais, PIC, da Polícia do Exército de Brasília. No caminho já fui levando socos, tapas, telefones56, coronhadas, sendo ainda informado que a minha mulher Hecilda, grávida de cinco meses, também já estava presa.
O PIC é o inferno. Nele, conheci logo a “salinha” sala de estar dos sargentos, onde eram promovidas as torturas a todos que eram presos no PIC. Sem que me fizessem uma só pergunta, “só para arrepiar”, na gíria dos torturadores, experimentei na carne toda a selvageria do aparelho de repressão montado desde 1964. Inicialmente um brutal espancamento, murros, telefones, tapas, chutes no estômago, cacetadas nos joelhos e nos cotovelos, pisões nos rins. Depois, apesar de meu esforço para resistir, tiraram-me as roupas, deixando-me completamente nu, amarraram-me no pau-de-arara, e passaram a me aplicar choques elétricos, com descargas de 140 volts, na cabeça, nos órgãos genitais, na língua.
Depois de muito tempo é que começaram as perguntas. Como eu não lhes respondia, a “sessão” durou até alta madrugada, quando, já bastante machucado, fui arrastado e atirado dentro de uma cela. Entre outros, participaram dessa primeira sessão o delegado Deusdeth, da PF, o sargento Ribeiro, o sargento Vasconcelos, o sargento Arthur, cabo Torrezan, cabo Jamiro, soldado Ismael, soldado Almir, todos esses do Exército.

(…)

Cedo, um destacado elemento da tortura do PIC, o cabo Martins, foi me buscar na cela, Colocou-me um negro capuz e levou-me para a “salinha”. Durante quase três dias seguidos, quase sem interrupções, fui submetido às mais diversas formas de violências físicas que se possa conceber. Nu, pendurado pelos pulsos e tornozelos no pau-de-arara (uma barra de ferro, sobre dois cavaletes, onde o preso fica dependurado, assim como se fosse um porco que vai ao mercado), recebendo espancamentos generalizados, choques elétricos, afogamentos.

No pau-de-arara, o preso ainda tem força na primeira hora para sustentar o peso do corpo, Com o tempo, todavia, o corpo vai sendo puxado para baixo e começa uma doloríssima distensão dos braços e das pernas. Parece que os ossos vão se partir, todos.

O choque elétrico é particularmente terrível na cabeça. Na bolsa escrotal, é como se ela estivesse sendo esmagada dentro de uma prensa. O choque elétrico, além de ser, em si, terrível, provoca uma contração alucinada dos dentes, que me cortava toda a língua. A cada descarga uma golfada de sangue tingia o capuz. Para aumentar os efeitos das descargas, obrigavam-me a comer sal. Minha boca ficou toda queimada. O afogamento era feito com a infiltração de água na minha boca e nas narinas através de mangueiras de borracha. Eu sufocava e estertorava. Tudo isso no pau-de-arara. Nesses dias revelou-se particularmente perverso o sargento Ribeiro. Ele ria e cantava. No sábado de manhã eu já estava completamente exangue. Quase não mais sentia dor. Apenas uma vontade de descansar.
Então, na primeira oportunidade que tive, ao me descerem do pau-de-arara, girei o corpo e dei com a testa no chão. Desmaiado e sangrando fui então levado para a cela, onde pude finalmente descansar. Devido a esses três dias eu ficaria com o braço direito e a perna esquerda paralisados durante quase três meses.

(…)

Durante cinco dias fui novamente submetido a um infernal processo de tortura. Dentro do próprio Ministério do Exército. Desta vez não mais para o pau-de-arara, o afogamento, o choque elétrico, que estes não haviam dado resultado. O que eles pretendiam era minar nossa coragem, nossa disposição de resistir, nossa dignidade. Tudo fizeram: insultavam-nos de pai e mãe desnaturados, que estávamos matando a criança que Hecilda trazia no ventre. Que eu devia pensar na minha mulher, no que ela estava passando. Mostravam-nos telegramas de Belém (falsos, é claro), segundo os quais o pai de Hecilda estava morto e o meu enfartado, à morte por saberem de nossas prisões. E durante cinco dias não houve um único momento de descanso. Não deixavam que nós dormíssemos, através de interrogatórios contínuos. Um atrás do outro, em revezamento de hora em hora, mais de uma centena de torturadores nos inquiriam. Obrigavam-me a ficar horas e horas me arrastando em círculos numa pequena sala, quando não obrigado a fazer movimentos com a cabeça de um lado para o outro. Qualquer momento de paralização era respondido com socos e espancamentos. Através de um vidro, mostravam-me a Hecilda apanhando no rosto e nas pernas, grávida de cinco meses61. Nos últimos dois dias os interrogatórios eram feitos com um grande holofote de luz azul, muito intensa, que me cegava. Desmaiei várias vezes, mas sempre que isso acontecia eles me levantavam com amoníaco. Finalmente, na sexta-feira, caí e não me levantei mais. Disseram-me depois que fui levado para uma enfermaria e medicado. Voltei a mim no domingo de tarde dentro de uma cela do PIC.

O impasse estava criado. Eles já tinham esgotado os meios de tortura que era possível nos inflingir em Brasília. E continuávamos afirmando que éramos estudantes que repudiávamos qualquer acusação de terroristas, que não iríamos comprometer ninguém.

Durante uma semana a situação ficou inalterada. Faziam-nos as mais terríveis ameaças, desde a volta pura e simples para a tortura até o puro e simples fuzilamento. Numa ocasião nos foi mostrada uma notícia de nossas mortes, que seria levada aos jornais. Pela sua redação éramos dois terroristas atropelados ao tentarmos fugir de um ponto de encontro. Todavia, uma ameaça era mais constante, a de que seríamos levados para o Rio de Janeiro, onde um verdadeiro Centro Científico de Torturas havia sido montado.

(…)

Na Barão de Mesquita, o DOI-CODI dispensou-me as duas primeiras fases. Tiraram-me as roupas, vestiram-me um pequeno macacão-bermuda e atiraram-me na chamada Câmara do Vietnan. Era um cubículo de mais ou menos 2,00 x 1,0 metros, formado por paredes de um material semelhante ao eucatex, totalmente escuro, dentro do qual não se vê nem a palma da mão. Este cubículo está dentro de um outro maior, de cimento. Lá dentro intercalam-se silêncio total com sons eletrônicos altíssimos, como os de uma sirene fracionada, utilizadas pelas rádios-patrulhas. De instante a instante silêncio e sons, sons e silêncio. Conversando com psicólogos mais tarde, soube que era a utilização de dois estímulos contrários para desordenar mentalmente o indivíduo.

Dentro dessa câmara perde-se completamente a noção do tempo. Em poucas horas não se sabe mais há quanto tempo se está ali dentro.

Não há ponto de referência. Ao mesmo tempo não se pode dormir. Para evitar a escuta dos sons tentei vedar meus ouvidos com um pedaço do macacão. Mas eles estavam fora me vigiando e me tiraram o macacão. Assim nu, sem comer, sem beber, sem poder dormir, ou mesmo fazer qualquer necessidade fisiológica, sob o risco de ser obrigado a engolir qualquer coisa que expelisse, sentindo-me dentro do meu próprio esquife, após três dias (conferi as datas depois), comecei a ter acessos de delírio. Foi a pior experiência que tive. Saber-me ficando louco. Ouvia minha mulher me chamando, meu pai, minha mãe, meus irmãos, na longínqua Belém. De repente caía em mim e percebia que estava tendo delírios. Que ninguém poderia me chamar, porque eu estava enterrado vivo.

Quando entrara na câmara tive um pensamento, que registro textualmente, passados quase sete anos: se me trouxeram de Brasília para o Rio para me colocar aqui dentro, isso eu vou tirar de letra. Na verdade, três dias depois perdi completamente o controle.

(…)

Então mais uma vez a tortura desabou, e desta vez tão furiosamente que terminaria pela tentativa dele me assassinar. Ameaça de estupro da Hecilda, que havia em fevereiro dado a luz ao nosso filho. Choque elétrico, pau-de-arara, afogamento etc… No auge da sua histeria, esse torturador, que se gabava de não ter escrúpulos, avançou para mim, dizendo que ia me matar. Eu estava de joelhos no chão, com as mão amarradas ao calcanhar. Ele pegou um cassetete, desses de choque de rua, com mais de um metro, e deu-me com ele, com toda a sua força, com as duas mãos, na cabeça, endereçando a pancada à base do crânio. Minha sorte foi que no exato momento da pancada levantei a cabeça, sendo atingido logo acima da testa, o que “apenas” ocasionou a fratura do osso, sem as conseqüências da morte. Depois esse mesmo torturador foi me acusar de tê-lo feito perder a paciência.

Fui julgado e condenado, numa verdadeira farsa, a um ano e oito meses de prisão. A Hecilda foi condenada a um ano. Por mais que eles pretendessem, não conseguiram acusar-nos de terroristas. As ações que teriam configurado meus delitos foram meia dúzia de reuniões vinculadas à Ação Popular Marxista Leninista do Brasil, uma panfletagem dentro da UnB contra o governo, uma pichação em Brasília contra a pena de morte e a tentativa de reorganizar a União Nacional dos Estudantes na Universidade de Brasília.

Vimos cumprir o resto da pena em Belém, onde ficamos inicialmente na Cadeia Pública de São José. Posteriormente, com a Hecilda já em liberdade, fui transferido para o Batalhão de Guardas da Polícia militar da Gaspar Viana, onde cumpri minha pena até o último dia. Durante três a quatro anos fui perseguido por pesadelos noturnos. Mas, como diz o verso de Paulo César Pinheiro: Eles me prendem vivo, eu escapo morto.