Um galo sozinho não tece uma manhã.
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

trecho de “Tecendo a manhã” de João Cabral de Melo Neto

Este vôo só é possível porque conto com o apoio e companhia de um bando todo de passarinhes. São amig@s antig@s, nov@s, novíssim@s, que muitas vezes nem me conhecem pessoalmente, mas conhecem a trajetória e querem participar, ainda que de forma indireta, desta redescoberta da Pátria Grande. Há muitas formas de fazer parte deste bando. Uma primeira e óbvia é nos conectarmos para que saibamos um do outro, o que fazemos, quais teus interesses por aqui e assim possamos criar uma rede e eu possa te aproximar de pessoas/grupos/organizações com interesses semelhantes. Entendo a relevância deste projeto você pode fazer uma contribuição financeira pra que eu possa prosseguir fazendo videos, textos e revelando as lutas e a arte-em-luta de nuestra américa. Você pode participar colaborando com textos, relatos, fotos e qualquer outro material relacionados às temáticas do Eupassarin. Você pode colaborar financeiramente, comprar artesanias, livros, ajudar a divulgar este projeto ou meus serviços de revisão de texto. Você pode também vir me visitar, ou me acompanhar por um trecho do vôo. Você pode oferecer pouso, sugerir rotas, lugares, praças para apresentação, organizações, movimentos, contatos políticos, artísticos ou de pessoas que possam me receber. Enfim, entre em contato, alce vôo comigo!

Este será um vôo diferente, em que o ninho voa junto com o passarinho. Estarei viajando em casa, a bordo de “La Poderosa III”, também conhecida por “lindjinha”, “klownbosa”, uma Kombi Touring 1977.

“La Poderosa”, nome que homenageia a moto que Che Guevara usou para viajar pela américa, é equipada com cama-sala, mini-banheiro e mini-cozinha, o que facilita e barateia a viagem. Também conta com placa solar para maior autonomia!

A Kombi Touring é resultado de uma parceira antiga (década de 70/80) da Wolkswagen com a Kharmann Ghia. O modelo mais famoso dessa parceria é a Kombi Safari, que viria depois da Touring. Ela é um tanto rara, essa coisinha linda, foram feitas poucas como ela (umas 150) e, provavelmente, bem menos que isso rodam ainda hoje. La Poderosa, pela idade, está bem conservada, mas, claro, bebe muito e vai bem devagarzinho. Mas não tenho pressa, estou em casa!

Sempre que possível buscarei estacionar La Poderosa em quintais, garagens ou em frente a casas de conhecidos , novos amig@s, para maior proteção. Por isso, se você pode oferecer abrigo, entre em contato! Quando não for possível, ficaremos mesmo em postos e praças. A grande vantagem é que La Poderosa não é grande, tem o tamanho aproximado de uma Kombi, o que facilita o estacionamento mesmo no centro das cidades. Dentro das cidades, a idéia é se locomover ao máximo com bicicleta, poupando assim a véinha.

“Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular – foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
– muito mais sofridamente –
na primeira e profunda pessoa
do plural.”

(trecho de “Para os que virão” de Thiago de Mello)

Ensinado por Martí de que “pátria é humanidade”, venho desde 2017 avoando pelo continente na minha Kombi “La poderosa III”, redescobrindo as Américas, sonhando a Pátria Grande que já existe em germe nas lutas comuns, na solidariedade de classe, na arte popular de rua e de luta. Quero revelar, para mim e pra todo o bando que me acompanha, uma América profunda, sem fronteiras em sua rebeldia e sonhos coletivos, terra que nos emana e irmana.

Um certo Ernesto, ao organizar suas notas da viagem, escreveu: “A pessoa que está agora reorganizando e polindo estas mesmas notas, eu, não sou mais, pelo menos não sou o mesmo que era antes. Esse vagar sem rumo pelos caminhos de nossa Maiúscula América me transformou mais do que eu me dei conta.”. Busco esse “vagar” que me revele como hispano-americano, como filho dessa Pátria Grande. Muito mais que o desejo de conhecer paisagens novas, o que me move é o contato com a realidade de nossa américa em movimento e, assim, possa me fincar em raízes coletivas profundas, afiando minha arte e me forjando cada vez mais na “primeira e profunda pessoa do plural”.

Este vôo começou no Brasil e percorrerá os países de “nuestra américa” até o México, sem rota fixa. O objetivo é compreender melhor a história de luta de cada povo, suas contradições atuais, seus movimentos políticos, sua arte popular e em luta. Nesse vôo, busco estabelecer pontes, conectar revoadas de artistas, de lutadores, de artistas-lutadores. Todas essas descobertas serão compartilhadas pelo site em forma de textos, poesias, fotos e vídeos.

Me sustentam nesse vôo as asas das artes (poesia e palhaçaria) e da formação política. Com essas atividades espero me manter, além de realizar trabalhos pontuais de revisão de texto, que já realizo há algum tempo.

Conto também com a colaboração de todes aqueles que queiram incentivar e participar de alguma forma desse vôo, mesmo à distância: seja contribuindo voluntariamente com o projeto, comprando artesanias por este site, ou contratando meu trabalho de revisão de texto (sou formado em Letras e trabalho com isso há muito tempo). Se você se identifica com esse vôo, entre em contato, faça parte do bando, ofereça um pouso, sugira uma rota, um movimento, um encontro.

O nome “Eupassarinho” nasce dos famosos versos de Quintana (“Todos estes que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão. / Eu passarinho!”) que condensam, pra mim, a importância de não só negar a realidade de exploração e opressão que nos “atravancam os caminhos” latinoamericanos e mundiais, mas, simultaneamente, afirmar uma nova sociabilidade, sem fronteiras, radicalmente comum e livre.

“Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios”

(trecho de “O apanhador de desperdícios” de Manoel de Barros)

Sou poeta, palhaço e passarin. Um inútil aos olhos de nosso mundo, desses que “apanha desperdícios”. Mas ou mesmo um desútil, que é um inútil que incomoda, que avoa semeando vento pra colher tempestades.

Não aceito a utilidade destas migalhas ciscadas que chamamos “vida”, em que liberdade é dinheiro ou utopia. Apesar da estabelecida ordem, sigo crendo na vida antes da morte. Por isso, desejo construir – com os que voam no mesmo rumo – um novo mundo, em que cada um receba o que precisa, segundo suas necessidades, e que oferte segundo suas possibilidades: onde seremos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres, como sonhou Rosa Luxemburgo. Já possuímos tecnologia e conhecimento suficientes para isso, basta reorganizarmos a sociedade pralém do capitalismo, socializando as formas de produção da vida (fábricas, terras, recursos naturais, tecnologia). Sim, não é tarefa fácil, mas juntos, em revoada, é possível… é necessário!

Eu “dou respeito às coisas desimportantes”, ditas desimportantes, como a arte que nos engaja na vida, seja ela social, política, ou não. Mas carrego uma fascinação especial pela arte comprometida com o povo, com a poesia de luta latino-americana, que pesquiso e traduzo. Magrólhos, meu palhacin, nasceu desse meu “atraso de nascença”, dessa minha inadequação à vida-mercadoria, sempre me identificando com os fodidos, os “seres desimportantes”, inocentes, bobos, “perdedores”, os que não, não, não… que nesses, nossa humanidade segue viva. Sou também educador popular formado pelo Núcleo de Educação Popular 13 de Maio, que possui 40 anos de experiência na educação política da classe trabalhadora. Portanto, além da arte-passarinheira em forma de espetáculos, livros, zines, semeio formação política em cursos e oficinas.

Formado em Letras, também sobrevivo de revisão de textos (toda aquela chatura de formatação ABNT, ortografia, estrutura, coesão, faço tudo!). Portanto, não hesite em pedir meus serviços e ajude a comprar alpiste pra este passarin!

Desde 2016, abri asas e fiz meu “quintal maior que o mundo”, me lançando num longo vôo em busca da Pátria Grande em “nuestra américa”, em busca de nosso chão e horizontes comuns, nossa luta por liberdade radical. E, desde então, vivo como um “buscavidas”, saltimbanco avoando de galho em galho, compartilhando o que posso e aprendendo muito. Aqui, no Eupassarin, você encontra um tanto dessas estórias das lutas que fervem pela américa, sua arte e conhecimento de luta.

Este vôo pela Pátria Grande é sustentado por algumas asas, que permitem seguir rumo ao horizonte traçado. Através dessas asas que alimento e semeio meu vôo.

Poesia,
perdoa-me por haver te ajudado a compreender
que não estás feita só de palavras.

(Arte Poética, de Roque Dalton)

Parte desta viagem nasce da vontade de conhecer melhor a poesia de luta latino-americana, que pesquiso e traduzo há alguns anos (você pode acessar parte dessa pesquisa em Poesias de Luta ou comprando o livro “Poesia de Luta da América Latina”). Ao longo desta viagem, espero seguir os rastros desses artistas-poetas-lutadores que, em geral, foram perseguidos, assassinados nas ditaduras e, infelizmente, esquecidos, apesar da riqueza de suas obras. Além disso, também semearei minha poesia, vendendo zines, livros, oficinas. Você pode ver alguns de meus trabalhos em Poesia>Meus livros ou então ler textos mais recentes no BLOG>Poesia.

“Os palhaços nascem metade artistas, metade “buscavidas” (a odisséia do artista de rua). Somente é preciso ter muita coragem e atitude, convicção ou inconsciência para bancar o ridículo (de não ser bom) e uma grande necessidade – com sonho incluso – de fazer rir; entreter”.

(Mestre Palhaço Chacovachi)

Outra grande motivação desta viagem é mergulhar na milenar arte de rua com meu palhaço Magrólhos, meu grande companheiro de viagem, que me ensina a pura rebeldia e o encontro. Eu e Magrólhos vamos rodar por praças, centros culturais, com o “Circo da Miséria”, o maior desespetáculo da Terra, que aborda a vida da população em situação de rua através da linguagem do palhaço vagabundo! O livro “Manual e Guia do Palhaço de Rua” do mestre argentino Chacovachi tem sido fundamental nesse processo de levar o palhaço de volta às ruas, por isso mesmo o traduzi para o português, para que mais artistas de rua se formem. Além de me apresentar, também quero seguir os rastros dos artistas “callejeros”, passarins como eu que, cruzando cidades e países, conectam o imaginário de trabalhadores e trabalhadoras. Quero aprender com eles, entrevistá-los, registrá-los em sua luta e resistência artística.

“Instrui-vos porque teremos necessidade de toda vossa inteligência.
Agitai-vos porque teremos necessidade de todo vosso entusiasmo.
Organizai-vos porque teremos necessidade de toda vossa força”.

Antônio Gramsci

Além da palhaçaria e poesia, há um elemento não menos importante, que norteia todo este vôo: a luta e a formação política. Além de cursos e oficinas nas áreas de palhaçaria e literatura, um objetivo deste vôo é semear formação política através de cursos do Núcleo de Educação Popular 13 de maio, do qual sou monitor. O NEP é uma iniciativa singular na América, com uma experiência acumulada de 40 anos de formação da classe trabalhadora como diversos cursos: “Como funciona a sociedade I e II”, “Processo de Consciência”, “Comunicação e Expressão”, “O método”, “Questão de Gênero”, “Análise de Conjuntura”… cursos e oficinas que espero fazer chegar aos mais diversos movimentos e organizações. Além disso, espero conhecer as diferentes organizações de luta, podendo registrar e divulgar suas lutas e visões.