Pablo Sanchéz Pulido


Olha que legal! O Pablo Sánchez Pulido, querido amigo músico espanhol musicou dois poemas do meu último livrinho de poesias… segue a gravação demo, abaixo… adorei!!!! Eu que achava minhas micro-poesias pouco propícias à música… 😉 Pra quem quiser conhecer mais do lindo trabalho Pablo, ouçam aqui o seu disco de lançamento, “Planeta Pertinho”: http://www.myspace.com/planeta_pertinho/music

A lua
lá fora
tão cheia
de si…

Cá dentro
eu já
nem sei
se…

————-
Vulto

Volto à vala comum dos corpos.
Volto à palavra que me valha.

Volto à fala como um dos outros.
Volto à palavra que me falha.

Volto aos vivos.
Volto aos mortos.

Volto ao
nada
comum dia
pós o
outro.

A mulher (A vida se esvai, companheira)


Volto de um estudo de 3 dias em são paulo sobre as questões de gênero, sobre a luta das mulheres por afirmarem sua humanidade.. volto pensando em todas as mulheres de minha vida e na alegria de poder chamá-las de companheiras… para elas dedico uma das músicas mais fortes que já ouvi sobre sua condição: “La Mujer (se va la vida, compañera)”, na voz de Amparo Uchôa, fantástica cantora mexicana! A letra segue abaixo numa tra(b)dução livre que fiz.

A MULHER

León Chávez Teixeiro

Abriu os olhos,
pôs um vestido,
e foi devagar pra cozinha.
Estava escuro e sem fazer ruído,
acendeu a estufa e a rotina.
Sentiu o silêncio como um aperto,
tudo começava no café da manhã.

Dobrou a coluna,
soltou um suspiro,
sentiu ridícula a esperança;
ao mais pequeno se lhe ardeu a pança,
rompeu o silêncio,
soltou um choro.
Serviu o esposo,
vestiu os meninos,
trocou as fraldas,
serviu os pães.

Levou seus filhos pra escola;
pensou no cardápio do dia.
Mediu o dinheiro,
comprou verduras.
Contou as cinzas de sua economia.
Esperou na fila por suas tortillas,
carregou Francisco,
olhou a rua.
Por toda parte havia mulheres,
todas compravam e se moviam;
seguiam ilhadas com seus deveres,
lhe recordavam todas à formigas.
Sentiu de repente que eram amigas,
sentiu que todas eram amigas.

Voltou a sua casa, casa alugada,
viu mais amigas desde a entrada.
Deu a Francisco o que brincar,
varreu o chão,
arrumou as camas.
Se viu no espelho,
olhando o branco dos cabelos,
juntou as coisas
pra cozinhar;
cortou as batatas,
as pôs no fogo
e na manteiga as fez chiar.
Agora o cru se transformava,
estava pronto para se almoçar.
A casa inteira com outro aspecto,
de novo ajeitada pra se usar.

Pôs a mesa,
serviu as crianças,
trocous as fraldas,
cortou os pães,
limpou de novo mesa e cozinha,
deu a Mercedes o remédio;
pediu seu turno nos tanques da lavanderia:
bateu vestidos e calças,
olhou ao sol a roupa estendida,
como se ontem já não o fizera.
A mesma esfregação todos os dias,
caminhando de novo o mesmo trecho,
sentiu a vida como prisão,
lhe escapava tudo que havia feito.
Se ia a vida, se ia pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.

Trocou palavras com suas vizinhas;
houve sorrisos em formação.
Toda a raça em seu beco,
se arrumando enquanto andavam.
Sempre mulheres, cumprindo oficios
que se entretecem sem ter fim.
Serem costureiras, serem cozinheiras,
camareiras e passadeiras;
serem enfermeiras e lavadeiras,
também garçonetes e educadoras.
Muito diligentes faxineiras,
às famílias deixam prontas,
rumo à escola ou para o trabalho
para que possam checar as listas.

Se dava conta de suas vontades
e do cinema sabia nada.
Para eles a vida sempre séria
se afogando na miséria.
Se vai a vida, se esvai pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Foi direto para seu ninho,
sempre pensando passou a roupa.
O que era rasgado deixou cerzido,
tinha um momento para descansar.
Abriu a porta e entrou o marido
também moído de trabalhar.
Pôs a mesa,
serviu a sopa,
para queixar-se não abriu a boca.
Riram juntos e papearam.
Falaram dos filhos e de dinheiro,
das vizinhas, de alguma dor,
dos caminhões e do patrão.
Lavou a louça,
tirou o lixo,
dormiu os meninos,
trocou as fraldas.
Como ar que entra pela fresta,
os dois brincaram com sua ternura.
E então deu a volta na fechadura;
dormiram cedo todos seus males.
Se vai a vida, se esvai pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Se vai, se esvai, companheira,
como o sebo, no tanque, pelo ralo.

La mujer

Abrió los ojos. Se echó un vestido.
Se fue despacio pa’ la cocina.
Estaba oscuro. Sin hacer ruido,
prendió la estufa, y a la rutina.
Sintió el silencio como un apuro.
Todo empezaba en el desayuno.

Dobló su espalda, gozó un suspiro,
sintió ridícula la esperanza;
al más pequeño le ardió la panza,
rompió el silencio, soltó un llorido.

Sirvió a su esposo, vistió a los niños,
cambió pañales, sirvió los panes.
Llevó a sus hijos para la escuela;
pensó en la dieta que se comían.
Midió el dinero, compró verduras,
palpó lo gris de su economía.
Formó en la cola de las tortillas,
cargó a Francisco, miró la calle.
Por todas partes había mujeres,
todas compraban y se movían;
cumplían aisladas con sus deberes,
que recordaban a las hormigas.
Sintió de pronto que eran amigas,
sintió que todas eran amigas.

Volvió a su casa, casa rentada,
vio más amigas desde la entrada.
Le dio a Francisco con qué jugar,
barrió los pisos, tendió las camas.
Se vio al espejo, miró las canas,
juntó las cosas de cocinar;
cortó las papas, las puso al fuego
y a la manteca la hizo chillar.
Ahora lo crudo se ha transformado,
estaba listo para comer.
La casa entera tiene otro ver,
de nuevo listo pa’ ser usado.

Puso la mesa, sirvió a los niños,
cambió pañales, cortó los panes,
limpió de nuevo mesa y cocina,
le dio a Mercedes la medicina.
Pidió su turno en los lavaderos:
talló vestidos y pantalones.
Miró la ropa tendida al sol,
como si ayer no se hubiera hecho.
La misma friega todos los días,
se caminaba de nuevo el trecho.
Sintió la vida como prisión,
se le escapaba todo lo hecho.

Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.

Cruzó palabras con sus vecinas;
hubo sonrisas en formación.
Toda la raza en su cantón,
se las arregla con el trajín.
Siempre mujeres, cumpliendo oficios
que se entretejen sin tener fin.
Ser costureras, ser cocineras,
recamareras y planchadoras;
ser enfermeras y lavanderas,
también meseras y educadoras.
Muy diligentes afanadoras,
a sus familias las dejan listas,
rumbo a la escuela o hacia el trabajo
para que puedan checar las listas.
Se daba cuenta de sus afanes
y de los fines sabía un carajo.
Para ellos siempre la vida es seria,
pero se ahogaban en la miseria.

Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.

Se fue derecho para su nido,
siempre pensando planchó la ropa.
Todo lo roto dejó zurcido:
tenía un momento pa’ descansar.
Se abrió la puerta y entró el marido,
también molido de trabajar.
Puso la mesa, sirvió la sopa,
para quejarse no abrió la boca.
Se rieron juntos y platicaron.
Se habló de niños y de dinero,
de la vecinas, de algún dolor,
de los camiones y del patrón.
Lavó los trastos, tiró basura,
durmió a los niños, cambió pañales.
Como aire que entra por la ranura,
los dos jugaron con su ternura.
Le dio la vuelta a la cerradura,
durmió de pronto todos sus males.

Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.

Abrió los ojos. Se echó un vestido.
Se fue despacio pa’ la cocina.
Estaba oscuro. Sin hacer ruido,
prendió la estufa, y a la rutina.

Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.
Se va la vida, se va al agujero
como la mugre en el lavadero.

Poesias e Canções para Che


Che Guevara é, dentre todos os lutadores, o que mais inspirou obras artísticas e homenagens. Abaixo segue para download um CD só de canções para Che Guevara e abaixo uma pequena seleção de poesias para Che de Julio Cortazar, Eduardo Galeano, Nicolas Guillen e um longo e bonito poema de Ferreira Gullar descrevendo o instante da morte de Che Guevara.

Para baixar o CD “Che Vive!” clique aqui!

CHE – Julio Cortazar

Eu tive um irmão
Não nos vimos nunca
mas não importava.

Eu tive um irmão
que andava na selva
enquantto eu dormia.

O amei ao meu modo,
lhe tomei a voz
livre como a água,
caminhei às vezes
perto de sua sombra.
meu irmão desperto
enquanto eu dormia.

Meu irmão mostrando-me
por detrás da noite
a sua estrela eleita.

O NASCEDOR – Eduardo Galeano

Por que será que o Che
tem esse perigoso costume
de seguir sempre
renascendo?
Quanto mais o insultam,
o manipulam
o tradicionam, mais renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será porque o Che
dizia o que pensava,
e fazia o que dizia?
Não será por isso, que segue
sendo tão extraordinário,
num mundo em que
as palavras e os fatos
raramente se encontram?
E quando se encontram,
raramente se saúdam,
porque não se
reconhecem?

CHE GUEVARA – Nicolas Guillen

Como se a mão pura de San Martín*
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí,
E o Prata, de margens verdejantes, corresse pelo mar
Para se juntar à embocadura cheia de amor do Cauto.

Assim Guevara, gaúcho de voz forte, agiu para dedicar
Seu sangue guerrilheiro a Fidel,
E sua mão larga teve mais espírito de camaradagem
Quando nossa noite era mais negro, mais escura.

A morte recuou. De suas sombras impuras,
Do punhal, do veneno e das feras,
Só restam lembranças selvagens.

Fundida dos dois, uma única alma brilha,
Como se a mão pura de San Martín
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí.

* San Martin foi um grande general argentino que lutou pela independência de seu país, assim como Martí em Cuba.

DENTRO DA NOITE VELOZ – Ferreira Gullar

I
Na quebrada do Yuro
eram 13,30 horas
(em São Paulo
era mais tarde; em Paris anoitecera;
na Ásia o sono era seda)
Na quebrada do rio Yuro
a claridade da hora
mostrava seu fundo escuro:
as águas limpas batiam
sem passado e sem futuro.
Estalo de mato, pio
de ave, brisa nas folhas
era silêncio o barulho
a paisagem
(que se move)
está imóvel, se move
dentro de si
(igual que uma máquina de lavar
lavando sob o céu boliviano, a paisagem
com suas polias e correntes de ar)
Na quebrada do Yuro
não era hora nenhuma
só pedras e águas

II
Não era hora nenhuma
até que um tiro
explode em pássaros
e animais até que passos
vozes na água rosto nas folhas
peito ofegando a clorofila
penetra o sangue humano
e a história se move a paisagem
como um trem começa a andar
Na quebrada do Yuro eram 13,30 horas

III
Ernesto Che Guevara
teu fim está perto
não basta estar certo
para vencer a batalha
Ernesto Che Guevara
Entrega-te à prisão
não basta ter razão
pra não morrer de bala
Ernesto Che Guevara
não estejas iludido
a bala entra em teu corpo
como em qualquer bandido
Ernesto Che Guevara
por que lutas ainda?
a batalha está finda
antes que o dia acabe
Ernesto Che Guevara
é chegada a tua hora
e o povo ignora
se por ele lutavas

IV
Correm as águas do Yuro, o tiroteio agora
é mais intenso, o inimigo avança
e fecha o cerco.
Os guerrilheiros
em pequenos grupos divididos
agüentam a luta, protegem a retirada
dos companheiros feridos.
No alto,
grandes massas de nuvens se deslocam lentamente
sobrevoando países
em direção ao Pacífico, de cabeleira azul.
Uma greve em Santiago. Chove
na Jamaica. Em Buenos Aires há sol
nas alamedas arborizadas, um general maquina um golpe.
Uma família festeja bodas de prata num trem que se aproxima
de Montevidéu. À beira da estrada
muge um boi da Swift. A Bolsa
no Rio fecha em alta ou baixa.
Inti Peredo, Benigno, Urbano, Eustáquio, Ñato
castigam o avanço dos rangers .
Urbano tomba, Eustáquio
Che Guevara sustenta
o fogo, uma rajada o atinge, atira ainda, solve-se-lhe
o joelho, no espanto
os companheiros voltam
para apanhá-lo. É tarde. Fogem.
A noite veloz se fecha sobre o rosto dos mortos.

V
Não está morto, só ferido
Num helicóptero iangue
é levado para Higuera
onde a morte o espera
Não morrerá das feridas
ganhas no combate
mas de mão assassina
que o abate
Não morrerá das feridas
ganhas a céu aberto
mas de um golpe escondido
ao nascer do dia
Assim o levam pra morte
(sujo de terra e de sangue)
subjugado no bojo
de um helicóptero ianque
É seu último vôo
sobre a América Latina
sob o fulgir das estrelas
que nada sabem dos homens
que nada sabem do sonho,
da esperança, da alegria,
da luta surda do homem
pela flor da cada dia
É seu último vôo
sobre a choupana de homens
que não sabem o que se passa
naquela noite de outubro
quem passa sobre seu teto
dentro daquele barulho
quem é levado pra morte
naquela noite noturna

VI
A noite é mais veloz nos trópicos
(com seus na vertigem das folhas na explosão
monturos) das águas sujas
surdas
nos pantanais
é mais veloz sob a pele da treva, na
conspiração de azuis
e vermelhos pulsando
como vaginas frutas bocas
vegetais (confundidos com sonhos)
ou um ramo florido feito um relâmpago
parado sobre uma cisterna d´água
no escuro
É mais funda
a noite no sono
do homem na sua carne
de coca e de fome
e dentro do pote uma caneca
de lata velha de ervilha
da Armour Company
A noite é mais veloz nos trópicos
com seus monturos
e cassinos de jogos
entre as pernas das putas
o assalto a mão armada
aberta em sangue a vida.
É mais veloz (e mais demorada)
nos cárceres
a noite latino-americana
entre interrogatórios
e torturas (lá fora as violetas)
e mais violenta (a noite)
na cona da ditadura
Sob a pele da treva, os frutos
crescem
conspira o açúcar
(de boca para baixo) debaixo
das pedras, debaixo
da palavra escrita no muro
ABAIX
e inacabada Ó Tlalhuicole
as vozes soterradas da platina
Das plumas que ondularam já não resta
mais que a lembrança
no vento
Mas é o dia (com seus monturos)
pulsando dentro do chão
como um pulso
apesar da South American Gold and Platinum
é a língua do dia
no azinhavre
Golpeábamos en tanto los muros de adobe
y era nuestra herencia una red de agujeros
é a língua do homem
sob a noite
no leprosário de San Pablo
nas ruínas de Tiahuanaco
nas galerias de chumbo e silicose
da Cerro de Pasço Corporation
Hemos comido grama salitrosa
piedras de adobe lagartijas ratones
tierra en polvo y gusanos
até que
(de dentro dos monturos) irrumpa
com seu bastão turquesa

VII
Súbito viemos ao mundo
E nos chamamos Ernesto
Súbito viemos ao mundo
e estamos
na América Latina
Mas a vida onde está
nos perguntamos
Nas tavernas?
nas eternas tardes tardas?
nas favelas
onde a história fede a merda?
no cinema?
na fêmea caverna de sonhos
e de urina?
ou na ingrata
faina do poema?
(a vida
que se esvai
no estuário do Prata)
Serei cantor
serei poeta?
Responde o cobre (da Anaconda Copper):
Serás assaltante
E proxeneta
Policial jagunço alcagueta
Serei pederasta e homicida?
serei o viciado?
Responde o ferro (da Bethlehem Steel):
Serás ministro de Estado
e suicida
Serei dentista
talvez quem sabe oftalmologista?
Otorrinolaringologista?
Responde a bauxita (da Kaiser Aluminium):
serás médico aborteiro
que dá mais dinheiro
Serei um merda
quero ser um merda
Quero de fato viver.
Mas onde está essa imunda
vida – mesmo que imunda?
No hospício?
num santo
ofício?
no orifício da bunda?
Devo mudar o mundo,
a República? A vida
terei de plantá-la
como um estandarte
em praça pública?

VIII
A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo o tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão

A Nova Canção Latinoamericana


Essa é a capa do CD que acabei de montar com 23 canções revolucionárias da América Latina para arrecadar fundos para o Centro de Formação dos Movimentos Sociais. Esse CD abrange expoentes de 16 países de “Nuestra América” que constituíram na década de 60, 70 o movimento da Canção Nova (fruto dos levantes populares que se espalharam por toda a América). A Canção Nova foi marcada por uma reabsorção da cultura popular, tematizando a vida e a luta dos trabalhadores com forte caráter social e político, muitas vezes diretamente associados aos movimentos e partidos revolucionários. Abaixo coloco a lista de músicas com alguns links pra suas versões no youtube. Quem se interessar, o CD sai de R$6 a R$10 (inclui encarte com letra das canções).

1. “El pueblo unido jamás será vencido”: Quilapayún-Chile
2. “Canción del poder”: tiempo nuevo-peru
3. “que força é essa?”: dércio marques-brasil (sérgio godinho)
4. “andes lo que andes”: luis rico-bolívia (amaury pérez)
5. “A desalambrar”: daniel viglietti-uruguai
6. “la chuchi”: maneco galeano-paraguai
7. “mula revolucionária”: pablus gallinazo-colômbia
8. “no passarán”: carlos mejía godóy-nicarágua
9. “símon bolívar”: inti-illimani-chile (Rubén Lena)
10. “el miliciano”: yolocamba i ta-el salvador
11. “seremos el pueblo nuevo”: pueblo nuevo-equador
12. “en la última trinchera”: andrés jiménez-porto rico
13. “porque los pobres no tienen”: soledad bravo-venezuela (v. parra)
14. “arreuni”: doroty marques-brasil (chico maranhão)
15. “gracias a la vida”: violeta parra-chile
16. “hasta siempre”: carlos puebla-cuba
17. “la era está pariendo un corazón”: silvio rodríguez-cuba
18. “los hermanos”: atahualpa yupanqui-argentina
19. “manifiesto”: victor jara-chile
20. “mujer”: amparo ochoa-méxico
21. “pobre del cantor”: pablo milanés-cuba
22. “se está secando el pozo”: ali primera-venezuela
23. “Canción con todos”: mercedes sosa-argentina

Guerra Civil Espanhola, Neruda, “Ay, Carmela!”


Esta foto, acima e abaixo, é de um antepassado assassinado durante a Guerra Civil Espanhola [não sei de que lado lutava, mas é muito provável que do lado dos franquistas 🙁 ]. Todos meus avós fogem da Espanha nesse período e vêm pro Brasil. Se instalaram no único “bairro espanhol” do Brasil, que fica em Sorocaba, na região do “Além Ponte”, bairro “Vila Hortência”. Todas as ruas desse bairro fazem referência à Espanha. Nasci na rua Sevilha e brincava nas vizinhas ruas Madrid e Catalunha. Na minha infância, era comum ouvir pelas ruas expressões e comentários em espanhol… os palavrões e repreensões, invariavelmente, saíam em espanhol! Teimosos, turrões, mãos-de-vaca, pobres, os espanhóis ali, como meus avós, começaram trabalhando na terra (eram conhecidos como “ceboleiros” pelas enormes plantações de cebola, cultura que trouxeram da Espanha), e aos poucos foram se metendo a fazer de tudo.

Bom, essa introdução toda é porque, de uns tempos pra cá, tenho buscado resgatar minhas raízes… nessa busca, achei um ótimo livro “Os Espanhóis”, de Sérgio Coelho de Oliveira, que conta a história do bairro em que cresci… fala das famílias, da cultura que trouxeram dalém mar… um livro muito bonito e forte, pra mim… descobri, inclusive, surpreso, que desse bairro surgiram núcleos de resistência anarco-sindicalistas que tiveram importante influência e foram inclusive perseguidos durante a ditadura!

Meu interesse tem passado, obviamente, pela poesia espanhola. Recentemente, ganhei de uma amiga querida algumas antologias sobre a poesia espanhola, basca, catalã… é nítido como a poesia recente da Espanha é fortemente marcada pela Guerra Civil. Ainda estou me aproximando dessa poesia e selecionando algo pra por aqui no Passarin. Por agora, vai uma poesia de Neruda sobre a Guerra Civil (vai um vídeo também em que o poeta chileno, antes de declamar seu poema, fala como a Guerra Civil foi um marco de virada na sua vida e poesia, donde surge o livro “Espanha no Coração”… a declamação é encantatória!). Neruda era diplomata e morava em Madrid, na famosa Casa das Flores de que trata o poema abaixo, quando explodem os bombardeios que também darão origem à “Guernica” de Picasso (a Casa das Flores pode ser visitada e possui uma arquitetura ímpar, veja aqui).

A Guerra Civil, apesar de toda a tragédia – que me fez estar aqui, agora – também foi um momento de forte organização dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo, com a participação ativa de brigadas e milícias internacionais. (Aqui um documentário interessante sobre a Guerra). No final do post, depois do poema de Neruda, vai uma das canções preferidas pelos milicianos, a “Ay, Carmela” onde se canta, de forma alegre, a resistência e o amor. Essa canção jocosa, insinua que é por Carmela que os milicianos resistem… se lutam com toda a energia é porque querem voltar para os braços de Carmela! 🙂 Essa música também é conhecida por “El Paso del Ebro” e “Viva la XV Brigada” e foi ganhando diferentes letras ao longo do tempo e em diferentes lugares. Abaixo, coloco a versão de Miguel Naharro, grande violonista espanhol, e outra, mais próxima do original (nesse vídeo, há imagens muito legais de cartazes da época chamando para a luta revolucionária).

PABLO NERUDA DECLAMANDO “EXPLICO ALGUMAS COISAS”

EXPLICO ALGUMAS COISAS – PABLO NERUDA

Perguntam-me: onde estão os lírios?
E a metafísica coberta de papoulas?
E a chuva que muitas vezes golpeava
suas palavras enchendo-as
de frestas e pássaros?

Vou lhes contar tudo o que me passa.

Eu vivia num bairro
de Madrid, com campanários,
com relógios, com árvores.
Dali se via
o rosto seco de Castela
como um oceano de couro.
Minha casa era chamada
a casa das flores, porque por todas as partes
brotavam gerânios: era uma bela casa
com cachorros e crianças.

Raul, lembra? **
Lembra, Rafael? **
Frederico, lembra? **
Debaixo da terra,
lembram da minha casa com balcões
onde a luz de junho afogava flores em suas bocas?
Irmão, irmão!

Tudo
era burburinho de vozes, o sal das mercadorias
aglomeração de pão palpitante,
mercados de meu bairro de Arguelles com sua estátua
como um tinteiro pálido entre as merluzas:
o azeite chegava em colheres,
uma profunda palpitação
de pés e mãos enchia as ruas,
metros, litros, essência
aguda da vida,
pescados amontoados,
contextura dos tetos com sol frio no qual
a flecha se fatiga,
delirante marfim fino das batatas,
tomates se espalhando até o mar.

E numa manhã tudo estava ardendo,
e numa manhã fogueiras
saiam da terra
devorando seres,
e desde então fogo,
pólvora desde então,
e desde então sangue.
Bandidos com aviões e mouros,
bandidos com anéis e duquesas,
bandidos com padres de preto abençoando-os
vinham pelos céus a matar crianças,
e pelas ruas o sangue de crianças
corria simplesmente, como sangue de crianças.

Chacais que os chacais rechaçariam,
pedras que o cardo seco morderia e cuspiria,
víboras que as próprias víboras odiariam!

Frente a vocês vi o sangue
de Espanha levantar-se
para afogá-los em uma só onda
de orgulho e de punhais!

Generais
traidores:
olhem minha casa morta,
olhem a Espanha dilacerada:
porém de cada casa morta sai metal ardendo,
em vez de flores,
porém de cada ferida da Espanha
desperta a Espanha,
porém de cada criança morta levanta-se um fuzil com olhos,
porém de cada crime nascem balas
que acharão um dia o vosso coração.

E me perguntam: por que os seus poemas
não falam dos sonhos, das folhas,
e dos grandes vulcões de seu país natal?

Venham ver o sangue pelas ruas,
venham ver
o sangue pelas ruas,
venham ver o sangue
pelas ruas!

** Neruda, provavelmente, está se referindo aos poetas Rafael Alberti,
Federico Garcia Lorca e Raúl Silva Castro. Lorca foi assassinado por nacionalistas durante a guerra. Segundo um juiz, ele era “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”.

“AY, CARMELA!” versão Miguel Ángel Gómez Naharro

“AY, CARMELA” VERSÃO CLÁSSICA

El Ejécito del Ebro
Rumba la rumba la rumba la
Una noche el río pasó
Ay Carmela! Ay Carmela!
Pero nada pueden bombas
Rumba la rumba la rumba la
Donde sobra corazón
Ay Carmela! Ay Carmela!
Contraataques muy rabiosos
Rumba la rumba la rumba la
deberemos resisitr
Ay Carmela! Ay Carmela!
Pero igual que combatimos
Rumba la rumba la rumba la
Prometemos resistir
Ay Carmela! Ay Carmela!

Atahualpa Yupanqui (Argentina) I



Em língua quechua: Ata: vem; Ku: de longe; Alpa: terra; Yupanqui: que vai contar. Logo, “Aquele que vem de longe para contar algo”… e vinha de longe mesmo! Atahualpa Yupanqui era o pseudônimo que Héctor Roberto Chavero se deu em sua adolescência quando andava diariamente 15 quilômetros para ter aulas com seu mestre de violão. Era também uma homenagem aos dois últimpos imperadores incas: Atahualpa e Tupac Yupanc.

Atahualpa nasceu no Campo de la Cruz, Partido de Pergamino, uma pequena localidade da região norte da Província de Buenos Aires. A data de seu nascimento está registrada no dia 31 de janeiro de 1908; filho de uma típica família do interior argentino: seu pai é crioulo e sua mãe vasco-espanhola. É dessa vida própria dos pampas que Atahualpa vai retirar toda sua musicalidade e poesia inicial:

“Os dias de minha infância transcorriam de assombro em assombro, de revelação em revelação. Nasci em um meio rural e cresci frente a um horizonte de balidos e relinchos. Era um mundo de sons doces e bárbaros a uma só vez. (…) Galopam-me no sangue trezentos anos de América, desde que Don Diego Abad Martin Chavero chegou para abater quebrachos e afarrobeiras e fazer portas e colunas para igrejas e capelas. Pelo lado materno venho de Regino Haram, de Guipuzcoa.”. (“El canto del viento”, Atahualpa)

É difícil dimensionar a profundidade da influência de Atahualpa na música e cultura latino-americana deste século. Profundamente conectado à vida campesina dos pampas argentinos mas também influenciado pelas tribos e comunidades pobres de diversos países por onde peregrinou, Yupanqui funcionou, assim como Zeca Afonso em Portugal e Dércio Marques no Brasil, como um coletor e intérprete das canções emanadas do povo latino, as retornando ao mesmo povo para que fossem irmanadas agora como símbolo de unidade de todos filhos da Grande Pátria.

“Eu viajei durante anos pelas serranias de minha pátria. Vivi longos anos nas profundas quebradas, nos morros, nas terras sedentas, onde o salitral ostenta seus ilusórios mares e seus falsos diamantes. Passei temporadas entre índios, entre kollas, mestiços e paisanos. Dormi em palhoças, onde a miséria sufoca todas as paisagens. Passei noites nos cumes, nos vales abandonados. (…) A luz que ilumina o coração do artista é uma lâmpada milagrosa que o povo usa para encontrar a beleza no caminho, a solidão, o medo, o amor e a morte.”. (“El canto del viento”, Atahualpa)

Don Ata, como se tornou conhecido, é um artista essencial para entender o cancioneiro latino-americano dos anos 30 em diante, especialmente a Canção Nova (surgida nos anos 60-70, com Victor Jara, Violeta Parra, Mercedes Sosa, Quilapayun, IntiIllimani, etc) em que a cultura popular deixa de ser vista por um viés esteticizante, folclorista, para funcionar como chão cultural do qual se levanta uma voz compromissada com a realidade social da maioria e com a luta por sua transformação. Engajou-se no Partido Comunista Argentino (1945) por alguns anos o que lhe rendeu perseguições, a censura de suas músicas (toda música de Atahualpa foi proibida de ser cantada na Argentina), diversas prisões (veja terrível relato abaixo das torturas que sofreu) e exílio (conheceu e se tornou amigo de Edith Piaf durante o exílio). Em 52 resolveu se afastar do partido, mas não das questões políticas. Toma essa decisão para poder se dedicar integralmente a música e a poesia, onde se encontrava sua missão maior, cantar junto ao povo.

“Em tempos de Perón estive vários anos sem poder trabalhar na Argentina… Me acusavam de tudo, até do crime da semana que vem. Desde essa esquecível época tenho o indicador da mão direita quebrado. Uma vez colocaram sobre minha mão uma máquina de escrever e logo se sentavam em cima, outros saltavan. Buscavan desfazer-me a mão mas não se perceberam de um detalhe: me ferraram a mão direita e eu, para tocar a guitarra, sou canhoto. Todavia hoje, a vários anos desse feito, há tons como o Si menor que me custa fáze-los. Os posso executar porque uso a técnica, a manha; mas realmente me custam.” (“El canto del viento”, Atahualpa)

Eu sou apaixonado pelas composições de Don Ata, a singeleza, por vezes enganadora, donde se esconde sua arguta acidez, corroendo a ordem capitalista (a poeisa de Atahualpa me lembra da poesia de José Marti, como em Versos Sencillos). Certamente, será necessário mais de 1 post pra dar conta desse mestre. Abaixo segue 2 canções clássicas e uma pouco conhecida: 1. “Duerme, negrito”, que ficou tão conhecida através de diversos outros intérpretes, menos na voz de seu intérprete original: nesse vídeo, antes de cantar a canção que se tornou símbolo de identificação dos povos da américa, Atahualpa explica onde a coletou, entre mães trabalhadoras na divisa com a Venezuela! 2. “Los Hermanos”, que foi imortalizada na voz de Mercedes Sosa e, por mais batida que seja, tem uma poesia forte que merece ser revista na voz de seu criador. 3. “Preguntitas a Dios”, dura e ácida canção que parte dos problemas do povo mas não se deixa dominar por sua origem e questiona o próprio povo (Atahualpa lança mão de um recurso muito interessante: se protege do confronto direto com a opinião popular colocando as indagações na voz de uma criança que questiona os adultos).

Ah, Aqui você pode baixar diversos discos de Atahualpa!!!

“DUERME NEGRITO”

Duerme, duerme, negrito, / que tu mamá está en el campo, / negrito…

Te va a traer / codornices para ti. / Te va a traer / rica fruta para ti.
Te va a traer / carne de cerdo para ti. / Te va a traer / muchas cosas para ti
Y si el negro no se duerme, / viene el diablo blanco / y ¡zas! Le come la patita,
¡chacapumba!

Duerme, duerme, negrito, / que tu mamá está en el campo, / negrito…
Trabajando, / trabajando duramente, / trabajando sí.
Trabajando y no le pagan, / trabajando sí.
Trabajando y va tosiendo, / trabajando, sí.
Trabajando y va de luto, / trabajando sí.
Para el negrito chiquitito, / trabajando, sí.
Duramente, sí. / Va tosiendo, sí.
Va de luto, sí. / Duramente, sí

Duerme, duerme, negrito, / que tu mama está en el campo, / negrito…

“LOS HERMANOS”

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar. / En el valle, la montaña, / en la pampa y en el mar.

Cada cual con sus trabajos, / con sus sueños, cada cual. / Con la esperanza adelante, / con los recuerdos detrás.

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar. / Gente de mano caliente / por eso de la amistad,
Con uno lloro, pa llorarlo, / con un rezo pa rezar. / Con un horizonte abierto / que siempre está más allá.
Y esa fuerza pa buscarlo / con tesón y voluntad.

Cuando parece más cerca / es cuando se aleja más. / Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar.

Y así seguimos andando / curtidos de soledad. / Nos perdemos por el mundo, / nos volvemos a encontrar.

Y así nos reconocemos / por el lejano mirar, / por la copla que mordemos, / semilla de inmensidad.

Y así, seguimos andando / curtidos de soledad. / Y en nosotros nuestros muertos / pa que nadie quede atrás.

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar, / y una novia muy hermosa / que se llama ¡Libertad!

“PREGUNTITAS A DIOS”

Un día yo pregunté: / ¿Abuelo, dónde esta Dios? / Mi abuelo se puso triste, / y nada me respondió.

Mi abuelo murió en los campos, / sin rezo ni confesión. / Y lo enterraron los indios / flauta de caña y tambor.

Al tiempo yo pregunté: / ¿Padre, qué sabes de Dios? / Mi padre se puso serio / y nada me respondió.

Mi padre murió en la mina / sin doctor ni protección. / ¡Color de sangre minera / tiene el oro del patrón!

Mi hermano vive en los montes / y no conoce una flor. / Sudor, malaria y serpientes, / es la vida del leñador.

Y que naide le pregunte / si sabe dénde esta Dios: / Por su casa no ha pasado / tan importante señor.

Yo canto por los caminos, / y cuando estoy en prisión, / oigo las voces del pueblo / que canta mejor que yo.

Si hat una cosa en la tierra / más importante que Dios / es que naide escupa sangre / pa’ que otro viva mejor.

¿Qué Dios vela por los pobres? / Tal vez sí, y tal vez no. / Lo seguro es que Él almuerza / en la mesa del patrón.

Zeca Afonso (1929-1987)



Algumas coisas estão tão coladas em mim que até me esqueço de divulgá-las, de espalhá-las… esses pequenos tesouros que temos sorte de tropeçar. Nem me lembro como conheci Zeca Afonso, acho que foi através de João Arruda, violeiro dos melhores aqui de Barão… Já vinha de antes, de sei lá que lugares do coração, essa paixão por Portugal (e Espanha). Conhecer o fado de Zeca foi abrir outras tantas portas e janelas de minha curiosidade sobre essa terra e povo (que se entrelaçam tão intimamente com nossa história e cultura.)

Oriundo do fado de Coimbra, Zeca Afonso foi uma figura central do movimento de renovação da música portuguesa na década de 1960. De caráter político ativo, Zeca ficou associado na memória portuguesa à Revolução dos Cravos, pois uma de suas composições, “Grândola, Vila Morena”, foi utilizada como senha pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para começar a revolução em 25 de Abril de 1974.

Mas seu envolvimento político já vem de antes: professor em Moçambique, foi preso várias vezes por desenvolver intensa atividade anticolonialista. Em 1963, as canções políticas “Os Vampiros” e “Menino do Bairro Negro”, que integravam o disco Baladas de Coimbra, seriam proibidos pela Censura. “Os Vampiros” viria a tornar-se um dos símbolos de resistência antifascista da época. Entre 1967 e 1970, mantém contato com a LUAR (Liga Unitária de Ação Revolucionária) e o Partico Comunista Português (PCP) o que lhe custará várias detenções pela PIDE (polícia política de Portugal).

Em 1983, quando Zeca Afonso já se encontrava doente, foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade, que o cantor recusou solenemente.

Abaixo seguem algumas coisinhas que selecionei: 1. “Grândola, Vila Morena” com sua letra. 2. Um vídeo com Zeca falando sobre o que achava de sua música ter sido a senha da Revolução dos Cravos. 3. Depois uma canção de protesto de Zeca sobre o “Alípio de Freitas”, padre português que veio para o Brasil e se tornou militante revolucionário durante a ditadura militar, participando da AP (Ação Popular). Essa canção dialoga diretamente com a situação do Brasil da época, era uma canção de protesto, uma canção de alerta internacional sobre o que ocorria no Brasil. Alípio só soube dessa canção em 79, quando ela já tinha rodado o mundo. Alípio acredita que essa canção foi, em grande parte, responsável por sua libertação do cárcere. (Alípio acompanhou seu amigo Zeca Afonso até os ultimos dias no hospital.) 4. E por fim, “Cantigas do Maio”, cantiga que fala das idas e vindas dos amores, seus sofrimentos e alegrias, baseada em quadras populares portuguesas. Essa canção marca outra faceta muito importante de Zeca Afonso: o resgate/recriação da cultura popular portuguesa, algo como faz o Dércio Marques no Brasil. 5. E por fim, mesmo, um poema de Zeca… o Zeca poeta ficou um tanto apagado diante do Zeca cantor. Poema lindo, de final forte.

1. “GRÂNDOLA, VILA MORENA”

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

2. ZECA AFONSO FALA SOBRE “GRÂNDOLA”

3. “ALÍPIO DE FREITAS”

4. “CANTIGAS DO MAIO”

5. DOS MUITOS FILHOS GRADOS

Dos muitos filhos grados
que tiveste
nem um se lembra
da velha casa térrea
onde concebeste sem pecado
e estragaste os teus dias
entre a corda da roupa
a cozinha e o homem
Amanhã sem aviso
apanhas um eléctrico*
mudas de roupa
acompanhas
o trajecto dos astros
De repente
é o arco-íris em volta
o guarda-freio** a volúpia
a rua o beiral
duma grande família

Não voltes

* eléctrico: bonde
** guarda-freio: funcionário dos bondes

Bella Ciao


………………………………………………………………………………..Partisans na Itália em 1945…………………………………………………………

Durante o curso de formação de monitores do 13 de maio, em que fiquei vários dias, cantávamos esta música quase todo dia: “Bella Ciao”!
Começávamos cantando lentinha, como no primeiro vídeo abaixo e depois íamos acelerando até onde podíamos, todos batendo palmas e pés no convento! (segundo vídeo no fim do post!). Essa música era cantada pelos partisans, tropas irregulares que se formavam a partir de homens e mulheres que resistiam contra tropas invasoras… uma música daqueles e daquelas que enfrentaram a morte, a luta pela liberdade de peito aberto, com a certeza alegre de que sempre continuamos no outro… dá pra imaginar a energia que essa música nos dava ao longo do curso! 🙂

Bella Ciao é uma música de origem controversa (pelo que pesquisei parece de origem irlandesa, propagada por ciganos) e que ganhou diferentes letras em diversas partes do mundo. Tornou-se mundialmente famosa com a letra dada pelos combatentes italianos (os partegianos, partisans) que resistiam contra os fascistas. Quem quiser saber mais sobre a origem da música pode olhar aqui.

Bella Ciao

Una mattina mi son svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato,
e ho trovato l’invasor.

O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.

E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.

E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna,
sotto l’ombra di un bel fior.

E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che passeranno,
Mi diranno «Che bel fior!»

«È questo il fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«È questo il fiore del partigiano,
morto per la libertà!»

Adeus, Bela!

Esta manhã, acordei
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
Esta manhã, acordei
E encontrei o invasor

oh guerrilheiro (ou resistente), me leve embora
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
oh guerrilheiro, me leve embora
Pois sinto que vou morrer

E se morro como guerrilheiro
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
E se morro como guerrilheiro
Você deve me enterrar

Enterrar lá em cima, na montanha
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
Enterrar lá em cima na montanha
Embaixo da sombra de uma bela flor

E as pessoas que passarão
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
E as pessoas que passarão
E dirão: que bela flor

É esta a flor do guerrilheiro
Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, Bela! Adeus, adeus!
É esta a flor do guerrilheiro
Morto pela liberdade

Guillén

Tudo muito corrido. tanta coisa. tanto… sigo só traduzindo e aproveitando algum material antigo. Tra(b)duções do poeta aclamado pelos cubanos como seu artista maior, ficando atrás, em popularidade, apenas de José Martí. Ao final, um vídeo com o grupo Quilapayún – que espero ainda este ano assistir no Chile! – cantando o poema “Muralla” de Guillén.

PROBLEMAS DO SUBDESENVOLVIMENTO

Monsieur Dupont te chama de burro,
porque ingoras qual era o neto
preferido de Victor Hugo.

Herr Müller começou a gritar,
porque não sabes o dia
(exato) em que morreu Bismark.

Teu amigo, Mr. Smith,
inglês ou yanqui, eu não sei,
se revolta quando escreves shell.
(Parece que poupas um éle,
e, pior, que pronuncias chel.)

Olha só,
quando sacar qualé,
mande dizerem cacarajícara
e onde está o Aconcágua,
e quem era Sucre,
e em que lugar deste planeta
morreu Martí.

E, por favor:
que te falem sempre em espanhol.

UM POEMA DE AMOR

Não sei. O ignoro.
Desconheço todo o tempo que andei
sem encontrá-la novamente.
Talvez um século? Acaso.
Acaso um pouco menos: noventa e nove anos.
Ou um mês? Poderia ser. De qualquer forma
um tempo enorme, enorme, enorme.

Ao fim, como uma rosa súbita,
repentina campânula tremendo,
a notícia.
Saber de repente
que iria a ver outra vez, que a teria
próxima, tangível, real, como nos sonhos.
Que explosão contida!
Que trovão surdo
circulando por minhas veias,
fervilhando de cima
à baixo meu sangue, em
uma noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
de nos cumprimentarmos, de maneira
que ninguém compreendera
que esta é nossa própria maneira?
Um roçar apenas, um contato elétrico,
mão ques se apertam conspirando, um olhar,
um palpitar do coração
gritando, uivando com silenciosa voz.

Depois
(Já sabia desde os quinze anos)
esse esvoaçar das palavras presas,
palavras de olhos baixos,
penintenciais,
entre testemunhas inimigas,
todavia
um amor de “te amo”
de “tu”, de “bem queria,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, pense melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo em primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
no turbilhão de amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
seguí-la com os olhos,
e já sem olhos seguir vendo distante,
além das distâncias, e ainda seguí-la
mais longe ainda,
feita de noite,
de mordedura, beijo, insônia,
veneno, êxtase, convulsão,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa substância conhecida
com que amassamos uma estrela.

A FOME

Esta é a fome. Um animal
todo canino e olho.
Ninguém o engana ou distrai.
Não se farta em uma mesa.
Não se contenta
com um almoço ou uma ceia.
Anuncia sempre sangue.
Ruge como leão, aperta como jibóia,
pensa como pessoa.

O exemplar que aqui se oferece
foi caçado na Índia (subúrbios de Bombaim),
mas existe em estado mais ou menos selvagem
em outras muitas partes.

Não se aproxime.

BURGUESES

Não me dão pena os burgueses vencidos.
E quando penso que vão me dar pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.

Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem chapéus nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias.

Não passe, por favor. Isto é um clube.
A relação está cheia.
Não há vaga no hotel.
O senhor saiu.

Precisa-se de meninas.
Fraude nas eleições.
Grande baile para cegos.

Saiu o Prêmio Maior em Santa Clara.
Bingo para órfãos.
O cavalheiro está em Paris.
A senhora marquesa não recebe.
Enfim, e

que tudo recordo e como tudo recordo,
que porra me pede você pra fazer?
E, além do mais, pergunte-lhes.
Estou seguro que também
recordarão.

Quilapayun interpreta “La muralla” de Guillén

LA MURALLA – NICOLÁS GUILLÉN

Para hacer esta muralla,
tráiganme todas las manos:
los negros sus manos negras,
los blancos sus manos [blancas.
Ay,
una muralla que vaya
desde la playa hasta el monte,
desde el monte hasta la playa,
allá sobre el horizonte.
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– Una rosa y un clavel …
– ¡Abre la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– El sable del coronel …
– ¡Cierra la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– La paloma y el laurel …
– ¡Abre la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
El alacrán y el ciempiés …
– ¡Cierra la muralla!
Al corazón del amigo,
abre la muralla;
al veneno y al puñal,
cierra la muralla;
al mirto y la yerbabuena,
abre la muralla;
al diente de la serpiente,
cierra la muralla;
al ruiseñor en la flor,
abre la muralla …
Alcemos una muralla
juntando todas las manos;
los negros, sus manos negras,
los blancos, sus blancas manos.
Una muralla que vaya
desde la playa hasta el monte,
desde el monte hasta la playa,
allá sobre el horizonte …

Leonard Cohen II

Puta merda! Teve um show em Londres, ano passado, com o velhinho (e charmosíssimo) Cohen alucinando como nunca no palco. Show de consagração, maravilhoso! Abaixo coloco apenas 1 música desse show e sua tradução, mas vale a pena olhar o show todo no youtube. Há relatos na web que esse foi um dos melhores shows do Cohen, com público chorando descompassadamente, sendo que “Hallellujah” teria sido o ponto alto da noite. Por isso escolhi essa música e também porque é a que melhor expressa a mistura dramática que Cohen faz entre a busca pelo amor e a busca pelo sagrado (ambos, aparentemente, sempre impossíveis de se alcançar, ou inexistentes). É como se Cohen estivesse sempre ajoelhado diante de suas mulheres como um judeu ajoelhado diante de seu Jeovah raivoso ou indiferente. Sugiro uma leitura atenta do texto, percebendo todas as referências ao texto bíblico, a situação amorosa do eu-lírico, o erotismo mesclado a veneração espiritual… uma das melhores composições de Cohen!

Pra entender melhor essa música é preciso sacar um pouco da história de David… aqui vai um minúsculo resumo pra se situar: David&lt aparece, inicialmente, na narrativa bíblica como tocador de harpa. Mandava muito bem o garoto, compondo músicas e poesias em louvor à deus (David compôs os salmos… lembre que o termo Aleluia aparece lá e significa “Louvem a Jah (abreviatura de Jahve)”).Tocava tão belamente que fazia as ovelhas adormecerem (era pastor), acalmava o rei de Israel, Saul, e até exorcisava os demônios dos possuídos. E você deve lembrar, também, que foi esse mesmo David que derrotou Golias e assim pôde se casar com a filha do rei e, depois, se tornar o rei de Israel. Certa noite o rei David, que tinha fama de “catador” (há boatos biblícos de que por ele teriam passado mais de 400 mulheres – olha aí o paralelo de novo com o Cohen e sua música!), se encantou por Betsabá (uma das mulheres mais gostosas do velho testamento). Ele tava em cima do telhado e a viu se banhando em seu quintal do jeito que o diabo… ah, vc sabe, né… (há uma discussão entre os devotos (dicussão a-la-Capitu) se Betsabá não teria se banhado ali de propósito para atiçar o desejo do rei David… mas, só deus mesmo sabe dos movimentos do coração de uma mulher, ou nem ele…). Como David era rei e podia tudo, forçou-a a se entregar e a conheceu no mais puro sentido bíblico. Bet engravidou, claro. Só que tinha um probleminha: ela era casada! Pra esconder a cagada David mexe uns pauzinhos e manda o marido de Bet, que era soldado, pra batalha mais sangrenta de toda a guerra de unificação de Israel. E pronto, o cara morre ali. Todos esses pecados foram desmascarados pelo profeta Natã, enviado direto do senhor. David se arrepende (demonstra arrependimento sincero) e passa a amar mais ainda a deus e sua justiça (mesmo tendo essa justiça ceifado a vida de seu filho, resultado do adultério com Betsabá).



“Hallellujah”

Now I’ve heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don’t really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Well maybe there’s a god above
But for me all I’ve ever learned from love
Is how to shoot someone who outdrew you
And it’s not a cry that you hear tonight
It’s not some pilgrim who claims to see the light
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Baby, I’ve been here before
I know this room and I’ve walked this floor
You see, I used to live alone before I knew you
I’ve seen your flag on the marble arch
But love is not a kind of victory march
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Well there was a time when you let me know
What’s really going on below
But now you never even show it to me do you
But remember when I moved in you
And the holy dove was moving too
And every breath we drew was hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

I’ve done my best, i know it wasn’t much
I couldn’t feel, so I learned to touch
I’ve told the truth, I didn’t come (here to London) just to fool you
And even though
It all went wrong
I’ll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Tradução – Aleluia

Agora eu soube que havia um acorde secreto
Que David tocava e agradava ao Senhor
Mas você realmente não liga para música, não é?
É assim:
A quarta, a quinta
A menor cai,  A maior sobe (além da conotação músical, pode ser traduzido como: uma ‘pequena queda’ e ‘uma grande restauração (erguida)’, como David que cai e depois restaura sua aliança com deus)
O rei perplexo compondo Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Sua fé era forte mas você precisou de provas
Você a viu tomando banho do telhado
A beleza dela e a luz do luar te arruinaram
Ela amarrou você
numa cadeira de cozinha
Ela destruiu seu trono e ela cortou seu cabelo (Sansão, cujos cabelos lhe davam poder, também cai em troca de uma paixão… mais um personagem que cai por uma mulher)
E de seus lábios ela extraiu a Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Bem, talvez exista um Deus lá em cima
Mas tudo que sempre aprendi do amor
Foi como atirar em alguém que te “desarmou” (ou traiu, ou alguém que sacou a arma primeiro… não há uma tradução direta para “outdrew”)
E não é um choro que você ouve esta noite
Não é um peregrino que clama pra ver a luz
É um frio e é um despedaçado Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Baby, eu já estive aqui antes
Eu conheço este quarto e andei neste chão
Eu costumava viver sozinho antes de te conhecer
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
Mas o amor não é uma Marcha da Vitória  (lembre que David unifica Israel pela guerra, em nome do senhor!)
É um frio e despedaçado Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Bem, houve um tempo em que você me deixava saber
O que realmente se pasava aí abaixo (por baixo, dentro)
Mas agora você nunca nem mesmo me mostra, não é?
Mas se lembre de quando eu me movia em você (me instalei em você)
E a pomba sagrada (espírito santo)  também se movia em você
E cada respiração exalada era Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Eu fiz o meu melhor, não foi muito
Eu não podia sentir, então aprendi a tocar
Eu disse a verdade, eu não vim te enganar
E mesmo assim
Deu tudo errado
Eu vou ficar diante do Senhor da Música
Sem nada na minha língua a não ser Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia