Charles, o Buk

Recauchutando tra(b)duções…
>Pássaro azul no meu coração (Bukowski)
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém te ver.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu derramei whisky em cima dele
e inalo fumaça de cigarros
e as putas e os empregados do bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí escondido,
quer me arruinar?
quer fuder o
meu trabalho?
quer arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito esperto,
e só o deixo sair à noite
às vezes
quando todos estão dormindo.
e digo, eu sei que você está aí,
por isso
não fique triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta pouco lá dentro,
não o deixo morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,

e você?

À medida que os poemas vão

a medida que os poemas vão aos milhares você
percebe que criou muito
pouco.

A morte está fumando meus charutos

você sabe: estou bêbado mais uma vez
aqui
escutando Tchaikovsky
no rádio.
Jesus, eu o escutei 47 anos
atrás
quando eu era um escritor faminto
e aqui está ele
de novo
e agora eu sou um pequeno sucesso como
escritor
e a morte está andando
pra cima e pra baixo
nesse quarto
fumando meus charutos
tomando goles do meu
vinho
enquanto Tchaik trabalha
na Pathétique,
foi uma boa caminhada
e se eu tive alguma sorte foi
porque joguei os dados
direito:
me esfaimei por minha arte, me esfaimei pra
ganhar 5 malditos minutos, 5 horas,
5 dias –
eu só queria colocar a palavra
ali;
fama, dinheiro, não importavam:
eu queria a palavra ali
e eles me queriam numa prensa hidráulica,
numa linha de montagem
eles queriam que eu fosse estoquista numa
loja de departamentos.

bem, a morte diz, enquanto anda ali,
eu vou te pegar de qualquer jeito
não importa o que você foi:
escritor, taxista, cafetão, açougueiro,
pára-quedista, eu vou pegar
você…

o.k., baby, eu respondo.

nós bebemos juntos agora
enquanto 1 da manhã desliza até 2
da manhã e
só ela sabe o
momento, mas eu apliquei um golpe
nela: tive meus
5 malditos minutos
e muito
mais.

 

Duas moscas

Duas moscas (Charles Bukowski)

As moscas são furiosos tecos de vida;
por que são tão furiosas?
parecem querer algo mais,
parece até que elas
estão furiosas
por serem moscas;
não é minha culpa;
eu sento no quarto
com elas
e elas me provocam
com sua agonia;
é como se elas fossem
nacos de alma perdidos
esquecidos em alguma parte;
eu tento ler um jornal
mas elas não vão me
deixar;
uma parece subir em semicírculos
por toda a parede,
despejando um som miserável
sobre minha cabeça;
a outra, a menor,
fica perto zoando com a minha mão,
sem dizer nada,
subindo, caindo,
chegando pertinho;
que deus põe essas
coisas perdidas sobre mim?
outros homens sofrem imposições do império,
amor trágico…
eu sofro
insetos…
eu espanto a menorzinha
que parece apenas renovar
seu impulso de me desafiar:
ela circula mais rápido,
mais perto, e chega a fazer
um som de mosca,
e a outra, abaixo,
sacando o tumulto no ar,
também, excitada,
acelera seu vôo,
mergulha de repente
num golpe ruidoso
e elas se juntam
circulando minha mão,
arranhando a base
do abajur
até que alguma coisa-homem
em mim
não aguenta mais
o sacrilégio
e eu bato
com o jornal enrolado –
errei! –
batendo,
batendo,
elas explodem em discórdia,
alguma mensagem se perdeu entre elas,
e eu pego a grandona
primeiro, e ela cai de costas
estrebuchando suas patinhas
como uma puta raivosa,
e eu mando ver de novo
com meu taco de papel
que vira uma lambuzeira
da feiúra da mosca;
a pequena circula mais alto
agora, quieta e rápida,
quase invisível;
já não se aproxima
da minha mão novamente;
ela está mansa e
inacessível; Eu deixo
ela ser, ela me deixar
ser;
o jornal, claro,
está arruinado;
alguma coisa aconteceu,
alguma coisa cagou meu
dia,
algumas vezes não é necessário
um homem
ou uma mulher,
apenas alguma coisa viva;
Me sento e olho
a menorzinha;
nós estamos juntos
trançados
– dando voltas e voltas –
no ar
e na vida;
é tarde
pra nós dois.

Entrevistas com Bukowski – 1

 

Bukowski e seu anti-lirismo

“Eu podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e eu ia ficar pobre. Mas eu particularmente não quero o dinheiro. Eu não sabia o que eu queria. Sim, eu sabia. Eu queria um lugar para me esconder, um lugar onde não precisasse fazer nada. O pensamento de ser algo não apenas me amedrontava, me enojava… de fazer parte das coisas, de fazer parte de piqueniques em família, do Natal, do 04 de julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães… ser um homem que nasceu para agüentar essas coisas e depois morrer? Eu prefiro ser uma máquina de lavar louça, voltar sozinho para uma sala pequena e beber até dormir. ” Bukowski em “Ham on Rye”, 1982

Jogo de apertar*

uma das coisas terríveis é
realmente
estar na cama
noite após noite
com uma mulher com quem você não
quer mais trepar*.
Elas ficam velhas, elas não parecem mais muito bem
– elas mesmo tendem a
roncar, perder
a graça.
Então, na cama, você se vira algumas vezes,
seus pés tocam os dela –
deus, que horrível! –
e a noite está lá fora
além das cortinas
selando vocês juntos
na tumba.
E de manhã você vai ao
banheiro, passa a sala, conversa,
diz coisas estranhas; ovos fritos, motores
ligando.
Mas sentado contigo, lado a lado,
você têm 2 estranhos
entupindo de tostadas a boca
queimando a cabeça soturna e as vísceras com
café.
Em 10 milhões de lugares na América
é a mesma coisa –
vidas azedas escoradas uma contra
outra
e sem lugar algum pra
ir.
Você entra no carro
e dirige pro trabalho
e há mais estranhos ali, a maioria deles
esposas e maridos de alguém,
e pralém da guilhotina do trabalho eles
flertam e brincam e beliscam, alguns tendem a
descarregar tudo numa trepada* rápida em algum lugar –
eles não podem fazer em casa –
e então
eles dirigem de volta pra casa
esperando pelo Natal ou pelo Dia do Trabalho ou
pelo domingo ou
alguma coisa.

* Buk brinca com o termo screw que pode ser, vulgarmente, transar ou, mais comumente, apertar, enroscar… O título do poema é “Screw-game”… não achei um equivalente interessante para manter o jogo…

 

É o modo como você joga o jogo

chame-a de amor
coloque-a de pé sob a luz
imperfeita
ponha-lhe um vestido
reze cante implore chore ria
apague as luzes
ligue o rádio
acrescente-lhe enfeites:
manteiga, ovos crus, jornais
de
ontem;
um cadarço novo, e então
páprica, açúcar, sal,
pimenta,
ligue para sua tia velha e
bêbada em
Calexico;
chame-a de amor,
espeta-a bem, adicione
repolho e molho de maçã,
então a esquente primeiro
no lado esquerdo,
depois no
direito,
ponha-a numa caixa
livre-se dela
deixe-a nos degraus de uma
porta
vomitando como você fará
nas
hortênsias.

Mulher dormindo

Eu sento na cama à noite e te ouço
roncando.
Eu te conheci numa estação de ônibus
e agora eu admiro suas costas
terrivelmente brancas e manchadas com
sardas de criança
à medida que a lâmpada despe o insolúvel
pesar do mundo
sobre teu sono.
Eu não posso ver teu pé
mas eu devo imaginar que eles são
os pés mais charmosos.
A quem você pertence?
Você é real?
Eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
E você não ajuda muito sendo
uma mulher. Nós somos cada um selecionados para ser
alguma coisa. A aranha, a galinha.
O elefante. É como se nós fossemos
uma pintura pindurada em alguma
parede de galeria
– e agora a pintura se vira
sobre suas costas, e sobre a curva do cotovelo
eu posso ver
uma boca, um olho um
quase nariz.
O resto de você está escondido
fora de vista
mas eu sei que você é
contemporânea, uma moderna obra
viva
talvez não imortal
mas nós temos
nos amado.
Por favor continue
roncando.

nas teias

Morte deseja mais morte

morte deseja mais morte, e sua teia está cheia:
eu me lembro da garagem de meu pai, quando criança
eu ia limpar os corpos das moscas
das janelas que elas pensavam ser saídas –
seus pegajosos, feios e vibrantes corpos
estourando-se como cachorros insandecidos contra o vidro
somente para girar e rodopiar
naquele segundo maior que o inferno e que o céu
para dentro do limite do limite,
e então a aranha de seu buraco negro
nervosa e exposta
o seu corpo crescendo inchando
pendurado ali
sem realmente saber,
e então sabendo –
alguma coisa a mandando pra baixo em seu fio,
a úmida teia,
na direção do fraco escudo de zumbidos,
a pulsação;
um último movimento desesperado
ali contra o vidro
ali vivo contra o sol,
girando em branco;
e quase como amor:
o enclausuramento,
o silencioso e primeiro sugar da aranha:
enchendo seu abdômen
sobre essa coisa que vivia;
se agachando ali sobre suas costas
forçando seu sangue certo
enquanto o mundo segue lá fora
e minha têmpora grita
e eu arremesso a vassoura contra eles:
a aranha sonsa com sua raiva-de-aranha
ainda pensando sobre sua presa
e acenando uma assombrosa perna troncha
a mosca imóvel,
um naco sujo preso na palha da vassoura;
eu sacudo a assassina desconjuntada
e ela caminha fraca e enervada
até algum canto escuro
mas eu intercepto seu lento esforço
arrastando-se como algum herói fudido,
e a palha esmaga suas pernas
agora arqueadas
sobre sua cabeça
e olhando
olhando o inimigo
e de alguma forma ainda valente,
morrendo sem aparente dor
simplesmente se arrastando para trás
pedaço por pedaço
deixando nada ali
até que finalmente seu saco visceral vermelho
espirra
seus segredos,
e eu corro como criança
com a raiva de Deus logo atrás de mim,
de volta aos simples raios de sol,
imaginando
à medida que o

Buk

Três tra(b)duções que fiz do Bukowski. O primeiro poema traz esse seu “lirismo” duro, de lágrimas secas; o segundo parte de seu sarcasmo pela vida dita normal de cada um; o último mostra todo seu desprezo pela literatura e, em especial, pela sua (vejam, esse desprezo é também construído, seu lugar comum tipico).

Um sorriso para relembrar

Nós tínhamos peixes dourados e eles davam voltas e voltas
no aquário sobre a mesa perto da cortina pesada
que cobria a janela panorâmica e
minha mãe, sempre sorrindo, querendo que a gente
ficasse feliz, me dizia: “Alegria, Henry!”
e ela estava certa: é melhor ser feliz se você
pode.
Mas meu pai continuava batendo nela e em mim várias vezes na semana enquanto
se enfurecia em seus 1m e 80, porque não conseguia
entender o que estava atacando ele por dentro.

Minha mãe, pobre peixe,
querendo ser feliz, apanhando duas ou três vezes por
semana, me dizendo para ser feliz: “Henry, sorria!
Por que você nunca sorri?”

E então ela sorria, para me mostrar como, e era o
o sorriso mais triste que eu já vi.

Um dia os dourados morreram, todos os cinco,
eles boiaram na água, assim de lado, seus
olhos abertos ainda,
e quando meu pai chegou em casa ele os jogou pro gato
ali no chão da cozinha e nós assistíamos enquanto minha mãe
sorria.

E a lua e as estrelas e o mundo

Longas caminhadas à noite –
isso é o que é bom pra alma:
espiando pelas janelas
as esposas cansadas
tentando afastar
seus maridos pirados de cerveja.

Eu gosto de seus livros

Na fila de apostas outro
dia
um homem atrás de mim perguntou,
“Você é Henry
Chinaski?”

“Uh hum”, eu respondi.

“Eu gosto de seus livros”, ele
mandou.

“Obrigado”, eu respondi.

“Quem você prefere nesta
corrida?”, ele perguntou.

“Uh hum”, eu respondi.

“Eu gosto do cavalo 4”, ele
me disse.

Eu fiz minha aposta e voltei
pro meu lugar…

Na próxima corrida eu estou esperando
na fila e aqui está o mesmo homem
atrás de mim
de novo.
Tem pelo menos umas 50 filas
mas
ele tinha que achar a minha
de novo.

“Eu acho que esta corrida favorece
os fundistas”, ele disse para as costas
do meu pescoço. “A pista parece
pesada.”

“Escute”, eu disse, sem olhar
ao redor, “é dar sorte ao azar
falar sobre cavalos na
pista…”

“Que tipo de regra é essa?”
ele perguntou. “Deus não faz
regras…”

Eu me virei e olhei pra ele:
“talvez não, mas eu
faço.”

Depois da próxima corrida
eu fui pra fila, e dei uma espiada
atrás:
ele não estava.

Perdi outro leitor.

Eu perco 2 ou 3 por
semana.

Beleza.

Vamos deixar que voltem pro
Kafka.

Nunca mais corvos e Poe

(Cantando feijão: poemas que foram excluídos da seleção final de meu livrinho, como pedras ou cascas secas.)


Embalado pelo tom macabro dos meus últimos dois posts aproveito pra ressuscitar aqui mais um poema de estilo similar que foi deixado de fora do meu livrinho de poesias. É um poema que fiz numa época em que estava fortemente influenciado pelas leituras decadentistas de Edgar Allan Poe (à esquerda na foto) e Baudelaire (à direita). (Aliás, me lembrei que o poemeto “Cena”, dois posts atrás, certamente é influência do poema “Uma Carniça” de Baudelaire, do “Flores do Mal”, pai de toda a linhagem posterior de poetas malditos… hoje, o mundo é tão mais terrível e tétrico do que na época de Baudelaire que tá difícil até de ser poeta, quanto mais “maldito”). Bom, voltando, o meu poema “Nunca mais?” é uma singela homenagem à poética de Poe, onde utilizo elementos do seu poema mais famoso “O Corvo”, mas, principalmente, sob influência direta de seu texto “Filosofia da Composição“, onde explica, passo por passo, como montou seu poema “O Corvo” de forma totalmente racional, planejada: pensou que efeito queria causar no público; qual tamanho do poema pra isso; que tipo de sonoridade usar; métrica; que imagens suscitar; etc

Bem, tentei seguir o método do Poe ao fazer o poema “Nunca mais?”, e, claro, ficou bizarro, uma construção toda barroca, travada… Percebi que, ou eu não dava pra coisa, ou esse método todo racional de construção de Poe era furada (ou, ambos, sim, ambos). Tempos depois confirmei, em debates com estudiosos do Poe, que é mesmo pura lorota que o Edigárde tenha seguido seu planejamento na construção desse famoso poema. O “Filosofia da Composição” é uma criação, assim como o poema “O Corvo”, e que tenta, a posteriori, transmitir uma imagem de pura engenharia poética. Poe queria quebrar a idéia clássica da necessidade de inspiração para se fazer poesia, mesmo que isso custasse exagerar a racionalidade de seu processo de criação. A tentativa de convencer o leitor sobre sua engenharia é boa e vale a leitura desse texto que é um dos fundadores da modernidade na literatura (o texto não é longo!): Filosofia da Composição.

Bom, pra entender melhor meu poema seria interessante conhecer o poema “O Corvo”. Felizmente, há traduções fantásticas para o português de nada menos do que: Fernando Pessoa, Machado de Assis, Haroldo de Campos, Paulo Leminski!!! Pra mim, a melhor tradução é do Pessoa (apesar dele não inserir o nome de “Lenore”, personagem importante da história, em sua tradução). A tradução feita pelo Leminski, atualizando a linguagem para nosso tempo, é saborosíssima! O Machado erra completamente a mão, e só achei uma estrofe da tradução do Haroldo (não entendi se ele traduziu inteiro ou só uma estrofe mesmo). Coloco abaixo os links para cada uma dessas traduções (menos do Haroldo), dando o gostinho da primeira estrofe de cada uma. Ah, e, de brinde, vai o episódio do Simpsons em que representam o poema “O Corvo” – em versos! – com as devidas subversões satíricas. (Ah, claro, no final de tudo, se ainda tiver paciência, tem meu poema construído de forma totalmente racional, sem o uso de musas inspiradoras, como queria o mestre Poe.)

“O Corvo” – tradução de Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

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“O Corvo” – tradução de Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

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“O Corvo” – tradução de Haroldo de Campos

E o corvo, sem revôo, pára e pousa, pára e pousa
No pálido busto de Palas, justo sobre meus umbrais;
E seus olhos têm o fogo de um demônio que repousa,
E o lampião no soalho faz, torvo, a sombra onde ele jaz;
E minha alma dos refolhos dessa sombra onde ele jaz
Ergue o vôo – nunca mais!

“O Corvo” – tradução de Paulo Leminski – ERRATA: Essa tradução é falsamente atribuída a Leminski (descubri depois de publicar o post). A autoria correta é: Antônio Thadeu Wojciechowski, Roberto Prado, Marcos Prado e Edilson Del Grassi. publicado na revista Raposa em 1985 e republicado em Os catalépticos, Lagarto Editores, Curitiba, 1991.

Num dia desses,
no exato momento do último instante
eu, bêbado como sempre,
num sonho de escriba extravagante
delirava às vezes demais

Daquele gélido julho
não vou esquecer jamais.
Eu, matando saudades da morta
sugava do litro e de um livro
que já não idolatro mais.

Dois toques na porta.
Eu, com um copo a mais
tive a nítida impressão.
“Um estúpido corvo bate à minha porta.
Só pode ser isso, nada mais”.

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“O Corvo” – versão dos Simpsons

Nunca mais? (à poética de Poe)

de Jefferson Vasques

Uma rede balança na varanda…
e uma pá escava.

Uma rede balança na varanda…
e uma pá escava, esquece.

A pá que já cava a minha cova
por um instante pára
suspensa:

Graves batidas à grande porta
ecoando incertas entre dois mundos (murros)
o gótico timbre da memória
no derradeiro umbral mediúnico.

A pá que já cava a minha cova
por um instante pára
suspensa:

Sufocados sons arranham a vida
tampa de madeira, papel e tinta
roem-raspam-riscam-arranham até
parada a respiração cardíaca.

A pá que já cava a minha cova
por um instante pára
suspensa:

Ah, Lembrança! Essa vaga senhora…
É, sim, preciso enterrar todos vivos,
mas é preciso enterrá-los mortos.
Esquecimento! Às vagas, Lenora…

Uma rede balança na varanda…
e uma pá escava.

Uma rede balança na varanda
e uma pá escrava, escreve.

Volta a cavar a vala em valsa
o velório cântico das reticências…
num canto o busto de Atenas chora,
n’outro, ri de um corvo um esqueleto.