Peru e Javier Heraud


Javier_Heraud

Aqui no Peru pude ter acesso a antologia de Javier Heraud (impossível de conseguir no brasil), jovem poeta lutador que foi assassinado barbaramente ha alguns quilometros de onde estou (Cusco), em Puerto Maldonado. Pena minha passagem pelo peru ser tao rapida, pois gostaria de entrar em contato com familiares e amigos de Heraud… mas certamente voltarei para ca, porque realmente me apaixonei pelo povo, pela paisagem e pela cultura peruana! Abaixo traduzi um trechinho dum poema premonitório… pois Javier foi assassinado enquanto estava num barco, no meio de um rio da selva peruana… e como nesse poema, tambem tenho sede e tambem venho perguntando e me perguntando pelos caminhos… e nao ha resposta, a nao ser a que eu mesmo consiga construir comigo e com todos…

Elegia(fragmento) Javier Heraud

Tu quisestes descansar
em terra morta e no esquecimento.
Acreditavas poder viver sozinho
no mar, ou nos montes.
Logo soubestes que a vida
é solidao entre os homens
e solidao entre os vales.
Que os dias que circulavam
em teu peito só eram mostras
de dor entre teu pranto. Pobre
amigo. Nao sabias nada nem choravas nada
Eu nunca me rio
da morte.
Simplesmente
sucede que
nao tenho
medo
de
morrer
entre
pássaros e árvores
Eu nao me rio da morte.
Mas as vezes tenho sede
e peco um pouco de vida,
as vezes tenho sede e pergunto
diariamente, e como sempre
sucede que nao há respostas
senao uma gargalhada profunda
e negra. Já te disse, nunca
se deve rir da morte,
mas sim conheco seu branco
rosto, sua tétrica vestimenta.

(…)

Golpes



OS MENSAGEIROS NEGROS (Cesar Vallejo)

Há golpes na vida, tão fortes… Eu não sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se ante eles,
a ressaca de todo o sofrido
se empossara na alma… Eu não sei!

São poucos; mas são… Abrem valas obscuras
no rosto mais feroz e no dorso mais forte.
Serão, talvez, os potros de bárbaros átilas;
ou os mensageiros negros que nos manda a Morte.

São profundas quedas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno se queima.

E o homem… Pobre… pobre! Volta os olhos, como
quando por sobre o ombro nos chama uma palmada;
volta os olhos loucos, e todo o vivido
se empoça, como charco de culpa, na mirada.

Há golpes na vida, tão fortes… Eu não sei!

Nicomedes Santa Cruz (Peru)

Hoje, fui filmar uns depoimentos no acampamento Elizabeth Teixeira do MST, na região de Campinas-Limeira, prum documentário que estou fazendo. Entrevistei o Ari, liderança da região. Já o conhecia de outras “atividades” do MST, mas nunca havia realmente conversado com ele. Putz! Que pessoa fantástica… tão simples e humilde e, ao mesmo tempo, figura inteligentíssima e muito sensível… sua inteligência não é daquelas típicas que estou acostumado a encontrar na universidade, mas daquela inteligência de minério temperado na terra, de lâmina que se vai afiando, lentamente, com as pedras do caminho. Fala com uma eloquência tranquila, sempre antenado ao contexto, procurando sacar os porquês da filmagem, o público, a inserção do filme, pra assim ajustar a linguagem, o discurso… Acabada as entrevistas, começamos um bate-papo informal… diz ele ter cursado até a 8a série, o que me espantou, pois me falava de suas leituras sobre os clássicos da filosofia política (Maquiavel, Hobbes, Marx…). Logo vc percebe que não foi da escola que ele tirou sua fome de entender o mundo, mas das contradições do seu caminhar coletivo. Na ação-conjunta de transformar o mundo é que foi sentindo a necessidade concreta de saber mais. É quando conhecimento deixa de ser acúmulo de informação, eruditismo, e torna-se o ar necessário da prática.

Foi com o Ari, hoje, que tive uma das conversas mais interessantes e agradáveis da minha vida sobre poesia… no meio da conversa, começou a declamar poemas de Castro Alves (um trecho do Navio Negreiro, em especial, que falava de como a luta contra mostros embrutece, me emocionou, pois há pouco conversávamos com uma acampada que nos dizia como o povo do acampamento andava mais isolado, tava perdendo a unidade do início). Pra minha mais apaixonante surpresa declamou, também, poemas do Augusto dos Anjos, um poeta difícil e não tão lembrado e pouco compreendido pelo qual sou fascinado! De quebra, conversando sobre a poesia de luta, me apresentou alguns poetas que desconhecia, dentre eles Nicomedes Santa Cruz, poeta peruano. Ah, que delícia! Seguem, abaixo, tra(b)duções de alguns poemas do peruano e uma entrevista que Nicomedes, que também foi jornalista, fez a Victor Jara.

Fiquei de levar, depois, pro Ari uma coletânea das tra(b)duções que tenho feito de poetas lutadores da América Latina… conversando com ele, ficou mais concreta a relevância de se ter um livro assim, pra militância, que apresente os poetas revolucionários de nossa Pátria Grande, o que me deu mais ânimo para acelerar minhas tra(b)duções!

Nicomedes Santa Cruz (Peru)

Nicomedes Santa Cruz Gamarra (1925-1992) foi poeta, cantor, pesquisador da cultura popular e jornalista, além de apresentador de rádio e televisão. É o representante máximo da negritude no Peru por ser o primeiro poeta a tratar do tema do negro ressaltando a importâncio do afro-peruano no desenvolvimento histórico do país. Interessante notar que ele cumpre um papel no Peru muito similar ao que cumpriu o artista negro Solano Trindade no Brasil: ambos trabalhando com a poesia negra, valorizando as raízes africanas, desenvolvendo trabalhos de teatro-dança resgatando e divulgando a cultura negra.

Nicomedes entrevista Victor Jara

A transcrição dessa entrevista pode ser encontrada em espanhol aqui! Dois meses depois dessa entrevista, Victor seria assassinado no golpe que derrubou o governo de Allende no Chile. Destaque para o trecho em que Victor e Nicomedes falam da necessidade de uma música que supere a canção de mobilização (panfletária), que permita que o trabalhador descubra a si mesmo em sua relação com seu companheiros de classe. O vídeo mostra um conjunto de fotos de Nicomedes e Jara bem legal.

Ritmos Negros do Peru (Nicomedes Santa Cruz)

Ritmos da escravatura
Contra amarguras e penas.
Ao compasso das correntes
Ritmos negros do Peru.

Da África chegou minha avó
vestida com “caracoles”/pixains**,
a trouxeram os espanhóis
em uma caravela.
A marcaram com candeia,
a carimba** foi sua cruz.
E na América do Sul
ao golpe de suas dores
deram os negros tambores
ritmos da escravatura

Por uma moeda só
a revenderam em Lima
e na Fazenda “La Molina”
serviu à gente espanhola.
Com outros negros de Angola
ganharam por sua labuta
pernilongos para suas veias
para dormir duro solo
e nadinha de consolo
contra amarguras e penas…

Na plantação de cana
nasceu o triste refúgio,
na venda de rum
o negro cantou a “zaña”**.
O facão e a foice
curtiram suas mãos morenas;
e os índios com suas quenas
e o negro com tamborete
cantaram sua triste sorte
ao compasso das correntes.

Morreram os negros velhos
mas entre a cana seca
se escuta seu “zambacueca”**
e o “panalivio”** ao longe.
E se escutam os festejos
que cantaram em sua juventude.
De Cañete a Tombuctú,
De Chancay a Mozambique
levam seus claros repiques
ritmos negros do Peru.


** “caracoles”: pelo que pesquisei poderia ser tanto o babado de alguma vestimenta como o pelo encaracolado, que traduzi como pixaim.
** “carimba”
: os negros eram marcados com um ferro chamado de “carimba”; “carimba!” também é uma interjeição de desgosto.
**”zaña”: O canto dos negros escravos do povoado de Zaña da província de Chiclayo cantavam nos galpões em que viviam depois da colheita agrícola para descansar e dormir. Seu canto foi proibido por senhores patrões por sua mensagem anticlerical e contestatória da escravidão, no século XVII.
**”zambacueca”: estilo musical e bailado de pares soltos, em que se representa o assédio amoroso de uma mulher por parte do homem. Faz alusão ao assédio similar entre galos e galinhas. Deriva da mestiçagem da música e dança trazidos por ciganos, escravos e negros de angola entre os séculos 16 e 17.
**”panlivio”: é o nome que se dá a uma canção-lamento criada pelos escravos da Costa peruana no século XVII para expressar os maus-tratos que sofriam.


Escute:

Amércia Latina (Nicomedes Santa Cruz)

Meu Camarada
Meu sócio**
Meu irmão

Parceiro
Camará**
Companheiro

Minhas pernas
Meu filhinho
Campesino…

Aqui estão meus vizinhos.
Aqui estão meus irmãos.

As mesmas caras latinoamericanas
de qualquer ponto da América Latina:

Índiobranquinegros
Branquinegríndios
e Negríndiobrancos

Louros beiçudos
Índios barbudos
e negros alisados

Todos se queixam:
-Ah, se em meu país
não houvesse tanta política…!
-Ah, se em meu país
não houvesse gente paleolítica…!
-Ah, se em meu país
não houvesse militarismo,
nem oligarquía
nem chauvinismo
nem burocracia
nem hipocrisia
nem clerezia
nem antropofagia…
-Ah, se em meu país…!

Alguém pergunta de onde sou
(Eu não respondo o seguinte):

Nasci perto de Cuzco
admiro a Puebla
me inspira o rum das Antilhas
canto com voz argentina
creio em Santa Rosa de Lima
e nos Orixás da Bahia
Eu não colori meu Continente
nem pintei de verde o Brasil
amarelo Peru
vermelha Bolívia

Eu não tracei linhas territoriais
separando irmão de irmão.

Pouso a testa sobre Río Grande
me afirmo pétreo sobre o Cabo de Hornos
afundo meu braço esquerdo no Pacífico
e submerjo meu direito no Atlântico.

Pelas costas do oriente e ocidente
duzentas milhas entro à cada Oceano
submerjo mão e mão
e assim me aferro à nosso Continente
em um abraço Latinoamericano.

**”socio” talvez pudesse ser melhor traduzido como “parceiro”, mas como ele utiliza “aparcerado” logo abaixo, optei por um outro sentido possível de “socio” que é “sócio” mesmo…
**a palavra original é “camarado” pra qual não existe tradução… é “camarada” aplicada ao homem…

A noite

Nessas doze horas em que somos as costas do mundo
naquele diário eclipse
eclipse de povos
eclipse de montes e desertos/”páramos”
eclipse de humanos
eclipse de mar
o negro tinge à Terra metade da cara
por mais que se ponha luz artificial

negrura de sombra
sombra de negrura
que ninguém assombra
e a tudo perdura

escura a Espanha
e claro o Japão
escura Caracas
e claro Cantão
e sempre girando à Leste
aqui enegrece
lá está celeste

essa sombra imensa
essa sombra eterna
que teve começo no começo do começo
rotativo eclipse
eclipse total
pede aos humanos um solene rito
que é horizontal

e cada doze horas que chega me alegro
porque meio mundo está negro
e nele não cabe distinção racial.

Manuel Scorza (Peru)

Por indicação da Laís (obrigado!), fui apresentado ao escritor peruano Manuel Scorza. Como ainda estou me aproximando de sua literatura, fica aqui um resuminho rápido de quem foi e abaixo a tra(b)dução que fiz de dois poemas. Confesso que sua poesia ainda não me pegou (continuo lendo!), mas pelo que percebi o seu forte é mesmo a prosa. Esses dois poemas lembram muito a temática do poema “Aos que vão nascer” do Brecht… (aliás, em algum momento preciso falar desse monstro revolucionário, que escreveu muito mais que poemas-político-didáticos, como, por exemplo, poesia erótica!)

Manuel Scorza (1928-1983)

Scorza nasceu no Peru, em 9 de setembro de 1928. Foi romancista e poeta comprometido com as lutas sociais peruanas. Sua militância política lhe valeu vários exílios e muitas prisões. Seu primeiro livro foi uma coletânea de poesias: Las imprecaciones (1955). No auge de sua carreira, adotou o que ele mesmo chamou de “inconsciente coletivo índio” e passou a desempenhar um papel relevante no quadro político-social de seu país. Sob o título geral de “La guerra silenciosa”, contou, em cinco volumes, a história das insurreições camponesas que agitaram o Peru de 1955 a 1962: Redoble por rancas (1970), Historia de garabobo, el invisible (1972), El jinete insomne (1977), Cantar de Agapito Robles (1977) e La tumba del relampago. A grande novidade desses romances é que misturava a denúncia ao realismo mágico, portanto não se prendendo apenas à história, mas absorvendo mitos incas com pitadas de sua própria fantasia. Parece saboroso! Faleceu em 1983, num desastre aéreo nas proximidades de Madri.

Epístola aos poetas que virão

Talvez amanhã os poetas perguntem
por que não celebramos a graciosidade das garotas;
Quiçá amanhã os poetas perguntem
por que nossos poemas
eram largas avenidas por onde vinha a cólera ardente.

Eu respondo: por todas as partes se ouvia pranto,
por todas as partes nos cercava um muro de ondas negras.
Seria a poesia
um solitário filete de orvalho?

Tinha que ser um relâmpago perpétuo.

Eu vos digo:
enquanto alguém padeça,
a rosa não poderá ser bela;
Enquanto alguém olhe o pão com inveja,
o trigo não poderá dormir;
Enquanto os mendigos chorem de frio na noite,
meu coração não sorrirá.

Mate a tristeza, poeta.
Matemos a tristeza com um pau.
Há coisas mais altas
que chorar o amor de tardes perdidas:
o rumor de um povo que desperta,
isso é mais belo que o orvalho.
O metal resplandescente de sua cólera,
isso é mais belo que a lua.
Um homem verdadeiramente livre,
Isso é mais belo que o diamante.

Porque o homem despertou,
e o fogo fugiu de sua prisão de cinzas
para queimar o mundo onde esteve a tristeza.

Sou o desterrado

América,
a mim também você deve ouvir.
Eu sou o estudante
que tem um só traje e muitas condenações.
Eu sou o desterrado
que não encontra a porta nas pensões.
Te digo que nas ruas
e nos terraços e nas cozinhas,
e ao fim de cada dia em meu peito
algo está morrendo.

Escuta-me:
Eu sou o desterrado,
eu vaguei pelas ruas
até que os cães
lamberam meu amor desesperados.
Lembre de mim!
Há dias que não tenho vontade
de me olhar,
dias em que até os pássaros
apodrecem à metade do vôo.

Amor, amor!
Tu dormiste
em quartos imundos;
Tu não sabes o que é viver
com uma mulher que costura sua roupa chorando!

Ai, durante séculos os poetas calaram
e o silêncio só se escutava.
Um sussurro de abelhas que soavam,
até que já não pudemos mais,
e a dor começou a manchar tudo:
a manhã,
o amor,
o papel onde cantávamos.
Um dia a dor
começou a gotejar desde baixo,
davam os muros gritos pungentes,
uma mão amarguíssima inverteu meu peito.
Agora venho a ti gemendo,
aqui está minha voz encarceirada debaixo desta fronte, demolido.

De “Las imprecaciones” 1955