Amantes go home!


AMANTES GO HOME!
(Mario Benedetti, trad. Jeff Vasques)

Agora que comecei o dia
voltando a teu olhar
e me encontraste bem
e te encontrei mais linda.

Agora que por fim
está bastante claro
onde estás e onde estou.

Sei pela primeira vez
que terei forças
para construir contigo
uma amizade tão legal,
que do vizinho
território do amor,
esse desesperado,
começarão a nos olhar
com inveja,
e acabarão organizando
excursões
para nos perguntar
como fizemos.

Não te rendas

nao se renda

NÃO TE RENDAS
(Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009)

Não te rendas, ainda é tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar tuas sombras,
enterrar teus medos,
liberar o lastro,
retomar o vôo.
Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viajem,
perseguir teus sonhos,
destravar o tempo,
correr os escombros,
e destapar o céu.
Não te rendas, por favor não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento,
ainda há fogo em tua alma
ainda há vida em teus sonhos.
Porque a vida é tua e teu também o desejo
porque o tens desejado e porque te quero
porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não há feridas que não cure o tempo.
Abrir as portas,
tirar as trancas,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos
despregar as asas
e tentar de novo,
celebrar a vida e retomar os céus.
Não te rendas, por favor não cedas,
Ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo em tua alma,
ainda há vida em teus sonhos
Porque cada dia é um começo novo,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás sozinho, porque eu te amo.

(tradução de Jeff Vasques)

Um painosso latinoamericano

UM PAINOSSO LATINOAMERICANO
(Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009)

Pai nosso que estais nos céus
com as andorinhas e os mísseis
quero que volte antes que se esqueça
como se chega ao sul do Rio Grande
Pai nosso que estais no exílio
quase nunca te lembras dos meus
de todo modo onde quer que estejas
santificado seja teu nome
não quem santificam em teu nome
fechando um olho para não ver as unhas
sujas da miséria
em agosto de mil novecentos e sessenta
já não serve te pedir
venha a nós o teu reino
porque teu reino também está aqui embaixo
metido nos rancores e no medo
nas vacilações e na sujeira
na desilusão e na modorra
nesta ânsia de te ver apesar de tudo
quando falaste do rico
da agulha e do camelo
e votamos todos em você
por unanimidade para a Glória
também alçou sua mão o índio silencioso
que te respetaiva mas resistia
a pensar seja feita tua vontade
no entanto uma vez a cada tanto
tua vontade se mistura com a minha
a domina
a acende
a duplica
mais árduo é conhecer qual é minha vontade
quando creio de verdade no que digo crer
assim em tua onipresença como em minha solidão
asim na terra como no céu
sempre
estarei mais seguro da terra que piso
que do céu intratável que me ignora
mas quem sabe
não vou decidir
que teu poder se faça ou se desfaça
tua vontade igual se está fazendo no vento
nos Andes de neve
no pássaro que fecunda a pássara
nos chanceleres que murmuram yes sir
em cada mão que se converte em punho
claro não estou seguro se me agrada o estilo
que tua vontade escolhe para fazer-se
isso digo com irreverência e gratidão
dois emblemas que logo serão a mesma coisa
isso digo sobretudo pensando no pão nosso
de cada dia e de cada pedacinho de dia
ontem nos tomaste
nos dê hoje
ou ao menos o direito de nos darmos nosso pão
não somente o que era símbolo de Algo
mas o de miolo e casca
o pão nosso
já que nos sobra poucas esperanças e dúvidas
perdoa se podes nossas dúvidas
mas não nos perdoe a esperança
não nos perdoe nunca nossos créditos
o mais tardar amanhã
saldemos a cobrar os fajutos
tangíveis e sorridentes foragidos
aos que têm “garras para a arpa”
e um panamericano temor com que se enxugam
a última cuspida que escorre de seu rosto
pouco importa que nossos credores perdoem
assim como nós
uma vez
por erro
perdoamos a nossos devedores
todavia
nos devem como um século
de insônias e porrete
como três mil kilometros de injúrias
como vinte medalhas a Somoza
como uma só Guatemala morta
não nos deixe cair na tentação
de esquecer ou vender este passado
ou arrendar um só hectar de seu esquecimento
agora que é a hora de saber quem somos
e vão cruzar o rio
o dólar e seu amor contra-reembolso
nos arranque da alma o último mendigo
e nos livre de todo mal de consciência
amém.

(Tradução de Jeff Vasques | Mais poesias de Benedetti aqui: http://eupassarin.wordpress.com/tag/mario-benedetti/)

Amor Sádico


Amor Sádico
(Julio Herrera y Reissig, trad. Jeff Vasques)

Já não te amava, sem deixar por isso
de amar a sombra de teu amor distante.
Já não te amava, e no entanto, o beijo
da repulsa nos uniu um instante…

Acre prazer e bárbaro enlevo
crispou minha face, mudou meu semblante,
já não te amava, e me pertubei, não obstante,
como uma virgem em um bosque espesso.

E já perdida para sempre, ao ver-te
anoitecer no eterno luto,
mudo o amor, o coração inerte,

esquivo, atroz, inexorável, hirsuto,
jamais vivi como naquela morte,
nunca te amei como naquele minuto!

Amanhã


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(foto de Sebastião Salgado – família deixando mina no Amazonas)

Há um único lugar
onde ontem e hoje
se encontram
e se reconhecem
e se abraçam.

Esse lugar é amanhã.

EDUARDO GALEANO (Uruguai, 1940)

(Tradução de Jeff Vasques |
www.eupassarin.wordpress.com)

¨Deve-se atuar a poesia / acioná-la¨ (Ibero)


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A partir de amanha comeco uma serie de entrevistas e filmagens acerca de Ibero Gutierrez, poeta lutador que foi barbaramente assassinado pela ditadura no Uruguai (foi torturado e seu corpo encontrado com 13 balas e junto um bilhete do Esquadrao da Morte dizendo ¨Voce tambem pediu perdao bala por bala, morte por morte”). Tenho me emocionado muito e aprendido muito ao reler suas poesias e outros materiais sobre sua história e paixao pela vida e pela arte. Ibero viveu tao pouco, 22 anos, mas tanto e de forma tao coerente consigo e com o mundo!

Amanha converso com Luis Bravo, organizador da antologia de Ibero (suas poesias soh foram publicadas postumamente) e grande pensador da cultura e da literatura latino-americana! Depois de amanha converso com Ricardo Viscardi, grande filosofo uruguaio e amigo de juventude de Ibero. No sabado, visito o Museu da Memória para ver o acervo de pinturas e fotografias de Ibero e, por fim, vou conhecer a casa onde Ibero cresceu e onde mora hoje sua irma, a querida Sara Gutierrez.

Assim vou descobrindo o que eh ser poeta e lutador nesta America e fincando minhas raizes no chao que escolho… 🙂 Abaixo, uma declaracao linda da esposa de Ibero (alguns dias depois de seu assassinato) sobre a relacao de amor dos dois… que linda forma de viver o amor!

¨“Nós nos demos conta que tínhamos que viver de urgência, porque talvez o tempo era curto. Tínhamos que viver cada momento e vivê-lo plenamente. Mas nao para nós sozinhos, senao em relacao ao mundo. Sentíamos que nosso companherismo era importante, nos queríamos. Mas nao fazia sentido se nao era em relacao com os demais, com a causa, a causa da liberacao do povo. Tinhamos perdido a individualidade, ja nao éramos eu e ele; éramos o casal e nos sentíamos integrados. E no entanto, nao podíamos realizarnos mais alem. Era o sistema que estava nos cerceando. Nos haviamos casado ha cinco meses, e nao íamos ter filhos por agora, apesar de que Ibero quería muitissimo ter um filho. Mas teria sido muito comodo dizer: bem, o mundo marcha por ali e nos por aquí, em nosso lugar, realizándo-nos. Com tudo o que desejava viver em suas coisas, Ibero nao quería ilhar-se dos outros, e assim é como tratou de fazer o que entendía que era bom para todos. Costumavamos dizer que a relacao carnal do casal era nada sem a relacao ideológica e a relacao afetiva, e vivíamos nos queréndo no meio das lutas estudantis e das tarefas políticas. O domingo (em que Ibero foi assassinado) foi assim e havía sido sempre assim, durante os últimos dois anos.” (Olga Martinez Gutierrez, esposa de Ibero Gutierrez)

Estados de ânimo


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Tradução de mais dois poemas de Benedetti… engraçado pensar que antigamente não gostava da poesia dele… e agora não paro de ler… 😉

ESTADOS DE ÂNIMO (Mário Benedetti)

As vezes me sinto
como uma águia no ar
(de uma canção de Pablo Milanés)

Umas vezes me sinto
como pobre colina
e outras como montanha
dentre cumes repetida.

Umas vezes me sinto
como um escarpado
e em outras como um céu
azul mas distante.

Às vezes se é
manancial entre rochas
e outras vezes uma árvore
com as últimas folhas.
Mas hoje me sinto apenas
como lagoa insone
com um embarcadouro
já sem embarcações
uma lagoa verde
imóvel e paciente
como suas algas
seus musgos e seus peixes,
sereno em minha confiança
confiando que em uma tarde
te aproximes e te olhes,
te olhes ao olhar-me.

ENTRE SEMPRE E JAMAIS (Mario Benedetti)

Entre sempre e jamais
o rumo o mundo oscilam
e já que amor e ódio
nos voltam categóricos
ponhamos etiquetas
de rotina e comparação

-jamais voltarei a te ver
-unidos para sempre
-não morrerão jamais
-sempre e quando me admitam
-jamais do jamais
-(e até a fé dialética
de) por sempre jamais
-etcétera etcétera

de acordo
no entanto
que alguém sempre abre um futuro
e alguém jamais se faz um abismo
meu sempre pode ser
jamais de outros tantos

sempre é um planalto
com borda com final
jamais é uma escura
caverna de impossíveis
e no entanto às vezes
nos ajuda um indício

que cada sempre leva
seu osso de jamais
que os jamais têm
arroubos de sempres

assim
incansavelmente
insubornavelmente
entre sempre e jamais
flui a vida insone
passam os grandes olhos
abertos da vida.

Assunção de ti


Tiersen para ouvir enquanto lê o poema de Benedetti que traduzi…

Assunção de ti (Mario Benedetti)

Quem acreditaria que falava
sozinho no ar, oculto,
teu olhar.
Quem acreditaria essa terrível
ocasião de nascer posta ao alcance
de minha sorte e meus olhos,
E que tu e eu iríamos, despojados
de todo bem, de todo mal, de tudo,
nos prender no mesmo silêncio,
nos inclinar sobre a mesma fonte
para nos ver e nos ver
mutuamente espiados no fundo,
tremendo desde a água,
descobrindo, pretendendo alcançar
quem eras tu detrás dessa cortina,
quem era eu detrás de mim.
E todavia não vimos nada.
Espero que alguém venha, inexorável,
sempre temo e espero,
e que acabe por nos nomear em um signo,
por nos situar em alguma estação
por nos deixar ali, como dois gritos
de assombro.
Mas nunca será. Tu não és essa,
eu não sou este, esses, os que fomos
antes de sermos nós.

Eras si mas agora
soas um pouco a mim.
Era si mas agora
venho um pouco de ti.
Não demasiado, somente um toque,
acaso um leve traço familiar,
mas que force a todos a nos abarcar
a ti e a mim quando nos pensem sós.

2
Chegamos ao crepúsculo neutro
onde o dia e a noite se fundem e se igualam.
Ninguém poderá esquecer este descanso.
Passa sobre minhas pálpebras o céu fácil
a deixar-me os olhos vazios de cidade.
Não penses agora no tempo de agulhas,
no tempo de pobres desesperos.
Agora só existe o anseio desnudo,
o sol que se desprende de suas nuvens de pranto,
teu rosto que se interna noite adentro
até somente ser voz e rumor de sorriso.

3
Podes querer a alvorada
quando ames.
Podes
vir a reclamar-te como és.
Conservei intacta tua paisagem.
A deixarei em tuas mãos
quando estas cheguem, como sempre,
anunciando-te.
Podes
vir a reclamar-te como eras.
Ainda que já não sejas tu.
Ainda que minha voz te espere
só em seu azar
queimando
e teu sonho seja isso e muito mais.
Podes amar na alvorada
quando queiras.
Minha solidão aprendeu a te ostentar.
Esta noite, outra noite
tu estarás
e voltará a gemer o tempo giratório
e os lábios dirão
esta paz agora, esta paz agora.
Agora pode vir a reclamar-te,
penetrar em teus lençóis de alegre angústia,
reconhecer teu tíbio coração sem desculpas,
os quadros persuadidos,
te saber aqui.
Haverá para viver qualquer fuga
e o momento da espuma e do sol
que aqui permaneceram.
Haverá para aprender outra piedade
e o momento do sonho e do amor
que aqui permaneceram.
Esta noite, outra noite
tu estarás,
tíbia estarás ao alcance de meus olhos,
longe já da ausência que não nos pertence.
Conservei intacta tua paisagem
mas não sei até onde este intacto sem ti,
sem que tu lhe prometas horizontes de névoa,
sem que tu lhe reclames sua janela de areia.
Podes querer a alvorada quando ames.
Deves vir a reclamar-te como eras.
Ainda que já não sejas tu,
ainda que contigo tragas
dor e outros milagres.
Ainda que sejas outro rosto
de teu céu até mim.

Tudo é muito simples…

Tudo é muito simples (Idea Vilariño)

Tudo é muito simples muito
mais simples e no entanto
ainda assim há momentos
em que é demais para mim
em que não entendo
e não sei se rio de mim a gargalhadas
ou se choro de medo
ou se me deixo aqui sem pranto
sem risos
em silêncio
assumindo minha vida
meu trânsito
meu tempo.

Por que cantamos

Por que cantamos – Mario Benedetti

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.

Sou um caso perdido


Sou um Caso Perdido – Mario Benedetti

Por fim um crítico sagaz revelou
(eu já sabia que iam descobrir)
que nos meus contos sou parcial
e tangencialmente apela
que assuma a neutralidade
como qualquer intelectual que se respeite

creio que tem razão
sou parcial
disto não tem dúvida
mais ainda eu diria que um parcial irrecuperável
caso perdido enfim
já que por mais esforço que faça
nunca poderei chegar a ser neutro
em vários países deste continente
especialistas destacados
fizeram o possível e o impossível
para curar-me da parcialidade
por exemplo na biblioteca nacional do meu país
ordenaram o expurgo parcial
dos meus livros parciais
na Argentina me deram quarenta e oito horas
(e senão me matavam) para que me fosse
com minha parcialidade nos ombros
por último no peru isolaram minha parcialidade
e a mim me deportaram
de ter sido neutro
não teria necessitado
essas terapias intensivas
porém que se vai fazer
sou parcial
incuravelmente parcial
e mesmo que possa soar um pouco estranho
totalmente
parcial

já sei
isso significa que não poderia aspirar
a tantíssimas honras e reputações
e preces e dignidades
que o mundo reserva para os intelectuais
que se respeitam
quer dizer para os neutros
com um agravante
como cada vez existem menos neutros
as distinções se dividem
entre pouquíssimos

além disso e a partir
das minhas confessas limitações
devo reconhecer que a esses poucos neutros
tenho certa admiração
ou melhor lhes reservo certo assombro
já que na realidade é necessário uma têmpera de aço
para se manter neutro diante de episódios como
girón
tlatelolco
trelew
pando
la moneda

é claro que a gente
e talvez seja isto o que o crítico queria me dizer
poderia ser parcial na vida privada
e neutro nas belas-letras
digamos indignar-se contra Pinochet
durante a insônia
e escrever contos diurnos
sobre a atlântida

não é má ideia
e lógico
tem a vantagem
de que por um lado
a gente tem conflitos de consciência
e isso sempre representa
um bom nutrimento para a arte
e por outro não deixa flancos para que o fustigue
a imprensa burguesa e/ou o neutro

não é má ideia
mas
já me vejo descobrindo ou imaginando
no continente submerso
a existência de oprimidos e opressores
parciais e neutros
torturados e verdugos
ou seja a mesma confusão
cuba sim ianques não
dos continentes não submergidos

de modo que
como parece que não tenho remédio
e estou definitivamente perdido
para a frutífera neutralidade
o mais provável é que continue escrevendo
contos não neutros
e poemas e ensaios e canções e novelas não neutras
mas aviso que será assim
mesmo que não tratem de torturas e prisões
ou outros tópicos que ao que parece
tornam-se insuportáveis para os neutros

será assim mesmo que tratem de borboletas e nuvens
e duendes e peixinhos

“Estes poetas são meus”


Poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez


Traduzo este poema de Mario Benedetti em homenagem ao poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez e vários outros poetas-lutadores que assumiram a árdua tarefa de ser artista-em-luta. Dedido este poema também a poeta colombiana Angye Gaona, que vem sendo perseguida pelo governo colombiano por crimes que não cometeu. Aproveito para agradecer a irmá de Ibero, Sara Gutierrez, que me brindou com material muito bonito sobre a obra de Ibero (que era artista plástico também). Como já disse Pedro Tierra no belo poema “Há um lugar na barricada”: “Se entre os companheiros ainda / há quem pergunte a razão / dos poetas, // encontra, primeiro, teu lugar na / barricada, depois, entre os combatentes,/ aponta / o rosto enérgico de tua poesia”. O caminho dos poetas-lutadores e dos artistas-em-luta, no geral, não é fácil até porque muitas vezes são mal vistos pelos próprios companheiros de luta… mas esses são essenciais tanto pra compreensão concreta e profunda do espírito de uma época, quanto pra vislumbrar o novo…

ESTES POETAS SÃO MEUS – MARIO BENEDETTI

“Estes poetas são meus”
Carlos Drummond de Andrade

Roque leonel ibero rigoberto
ricardo paco otto-rené javier
quantas vezes e em quantas reuniões e assembléias
os terão (mal) tratado de pequeno-burgueses
terão ficado sozinhos com seu antigo costume
de raciocionar / ou a sós com o rigor científico
a sós com um impulso moral / a sós em uma
solidão não querida nem buscada
a sós com seus amores ao próximo à próxima
com a preocupação de que os segregavam
sozinhos para entender tudo e a todos

quantas vezes e em quantas esperanças ou rotas
terão andado tateando a relâmpagos
deixando repousar o tempo da poesia
eles infatigáveis rebentando-se
sabendo que não eram os pequenos burgueses
que os rudes companheiros diziam

que não eram os frouxos os livrescos
olhando-se no espelho até desentranhá-lo
como narcisos nunca / olhando-se autocríticos
jamais desalentados / tratando de encontrar
o resquício a brecha o abrigo o mérito
de ser como os outros ou algo assim

quantas vezes e em quantos cochilos insones
terão considerado a pena ou o atalho
de apagar a poesia / de apagar-se
como poetas / apagar o modesto delírio
e juntar as palavras voláteis
e transformá-las por outras as concretas
e revolucionar as vinte e quatro horas
e por-se no esquema e abandonar os tropos
e andar ao mesmo passo / nadar o mesmo rio
e fabricar assim a infundada esperança
de serem iguais aos outros / serem
igualmente julgados e medidos

quantas vezes e em quantas lagoas e memórias
terão querido ser / luz vermelha / terra verde
e compartilhar a luta em pedacinhos
aprender sangue a sangue o alfabeto
qual se não o soubessem / desde baixo
arder na bondade elementar
sentir a fúria como um calafrio
continuar o amor sem os alertas
companheríssimos nas difíceis
joviais nas fáceis
igualmente medidos e julgados

mas um dia uma noite uma qualquercoisa
arriscaram o corpo a miséria os versos
souberam de repente que a lei era velha
que os suaves poetas ainda que se esgoelem
ainda que vençam o vento e a lua
dispõem de uma só ocasião decisiva
a fim de que os rudes queridos companheiros
admitam que nem sempre / mas às vezes /
esses da palavra esses de calma em germe
podem ser valorosos como um sonho
leais como um rio
fortes como um imã
o grave é que sua única ocasião
é morrer
uma forma talvez de desmorrer-se
defendendo uma causa pela que outros
não precisariam morrer para serem aceitos
para serem abraçados e acreditados.

quantas vezes e em quantas substancias e cegueiras
terão insistido na candura
e buscado argumentos com raiva / resistido
para apontar o inimigo / o chumbo
que vinha no ar aniquilando
matando desmintindo desabrigando ardendo
e terão desesperado a esperança
de encurralar a confiança ou de inspirá-la

e no entanto / logo / em um segundo
em uma eucaristia de tiros
na revelação das explosões
na tortura sem promessa e última
em um instante breve como um trago
sem argumentos / sem palavras / ternos
tristíssimos finalmente e desapegados
nesse instante que não tem fim
desfeitos e refeitos de coragem
explodidos de fé / mortos de pena
deixaram de aspirar quando o lampejo
quando o sabor final e o vislumbre
quando mudaram a tênue amargura
de pequeno burguês pela de mártir.

Poesias e Canções para Che


Che Guevara é, dentre todos os lutadores, o que mais inspirou obras artísticas e homenagens. Abaixo segue para download um CD só de canções para Che Guevara e abaixo uma pequena seleção de poesias para Che de Julio Cortazar, Eduardo Galeano, Nicolas Guillen e um longo e bonito poema de Ferreira Gullar descrevendo o instante da morte de Che Guevara.

Para baixar o CD “Che Vive!” clique aqui!

CHE – Julio Cortazar

Eu tive um irmão
Não nos vimos nunca
mas não importava.

Eu tive um irmão
que andava na selva
enquantto eu dormia.

O amei ao meu modo,
lhe tomei a voz
livre como a água,
caminhei às vezes
perto de sua sombra.
meu irmão desperto
enquanto eu dormia.

Meu irmão mostrando-me
por detrás da noite
a sua estrela eleita.

O NASCEDOR – Eduardo Galeano

Por que será que o Che
tem esse perigoso costume
de seguir sempre
renascendo?
Quanto mais o insultam,
o manipulam
o tradicionam, mais renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será porque o Che
dizia o que pensava,
e fazia o que dizia?
Não será por isso, que segue
sendo tão extraordinário,
num mundo em que
as palavras e os fatos
raramente se encontram?
E quando se encontram,
raramente se saúdam,
porque não se
reconhecem?

CHE GUEVARA – Nicolas Guillen

Como se a mão pura de San Martín*
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí,
E o Prata, de margens verdejantes, corresse pelo mar
Para se juntar à embocadura cheia de amor do Cauto.

Assim Guevara, gaúcho de voz forte, agiu para dedicar
Seu sangue guerrilheiro a Fidel,
E sua mão larga teve mais espírito de camaradagem
Quando nossa noite era mais negro, mais escura.

A morte recuou. De suas sombras impuras,
Do punhal, do veneno e das feras,
Só restam lembranças selvagens.

Fundida dos dois, uma única alma brilha,
Como se a mão pura de San Martín
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí.

* San Martin foi um grande general argentino que lutou pela independência de seu país, assim como Martí em Cuba.

DENTRO DA NOITE VELOZ – Ferreira Gullar

I
Na quebrada do Yuro
eram 13,30 horas
(em São Paulo
era mais tarde; em Paris anoitecera;
na Ásia o sono era seda)
Na quebrada do rio Yuro
a claridade da hora
mostrava seu fundo escuro:
as águas limpas batiam
sem passado e sem futuro.
Estalo de mato, pio
de ave, brisa nas folhas
era silêncio o barulho
a paisagem
(que se move)
está imóvel, se move
dentro de si
(igual que uma máquina de lavar
lavando sob o céu boliviano, a paisagem
com suas polias e correntes de ar)
Na quebrada do Yuro
não era hora nenhuma
só pedras e águas

II
Não era hora nenhuma
até que um tiro
explode em pássaros
e animais até que passos
vozes na água rosto nas folhas
peito ofegando a clorofila
penetra o sangue humano
e a história se move a paisagem
como um trem começa a andar
Na quebrada do Yuro eram 13,30 horas

III
Ernesto Che Guevara
teu fim está perto
não basta estar certo
para vencer a batalha
Ernesto Che Guevara
Entrega-te à prisão
não basta ter razão
pra não morrer de bala
Ernesto Che Guevara
não estejas iludido
a bala entra em teu corpo
como em qualquer bandido
Ernesto Che Guevara
por que lutas ainda?
a batalha está finda
antes que o dia acabe
Ernesto Che Guevara
é chegada a tua hora
e o povo ignora
se por ele lutavas

IV
Correm as águas do Yuro, o tiroteio agora
é mais intenso, o inimigo avança
e fecha o cerco.
Os guerrilheiros
em pequenos grupos divididos
agüentam a luta, protegem a retirada
dos companheiros feridos.
No alto,
grandes massas de nuvens se deslocam lentamente
sobrevoando países
em direção ao Pacífico, de cabeleira azul.
Uma greve em Santiago. Chove
na Jamaica. Em Buenos Aires há sol
nas alamedas arborizadas, um general maquina um golpe.
Uma família festeja bodas de prata num trem que se aproxima
de Montevidéu. À beira da estrada
muge um boi da Swift. A Bolsa
no Rio fecha em alta ou baixa.
Inti Peredo, Benigno, Urbano, Eustáquio, Ñato
castigam o avanço dos rangers .
Urbano tomba, Eustáquio
Che Guevara sustenta
o fogo, uma rajada o atinge, atira ainda, solve-se-lhe
o joelho, no espanto
os companheiros voltam
para apanhá-lo. É tarde. Fogem.
A noite veloz se fecha sobre o rosto dos mortos.

V
Não está morto, só ferido
Num helicóptero iangue
é levado para Higuera
onde a morte o espera
Não morrerá das feridas
ganhas no combate
mas de mão assassina
que o abate
Não morrerá das feridas
ganhas a céu aberto
mas de um golpe escondido
ao nascer do dia
Assim o levam pra morte
(sujo de terra e de sangue)
subjugado no bojo
de um helicóptero ianque
É seu último vôo
sobre a América Latina
sob o fulgir das estrelas
que nada sabem dos homens
que nada sabem do sonho,
da esperança, da alegria,
da luta surda do homem
pela flor da cada dia
É seu último vôo
sobre a choupana de homens
que não sabem o que se passa
naquela noite de outubro
quem passa sobre seu teto
dentro daquele barulho
quem é levado pra morte
naquela noite noturna

VI
A noite é mais veloz nos trópicos
(com seus na vertigem das folhas na explosão
monturos) das águas sujas
surdas
nos pantanais
é mais veloz sob a pele da treva, na
conspiração de azuis
e vermelhos pulsando
como vaginas frutas bocas
vegetais (confundidos com sonhos)
ou um ramo florido feito um relâmpago
parado sobre uma cisterna d´água
no escuro
É mais funda
a noite no sono
do homem na sua carne
de coca e de fome
e dentro do pote uma caneca
de lata velha de ervilha
da Armour Company
A noite é mais veloz nos trópicos
com seus monturos
e cassinos de jogos
entre as pernas das putas
o assalto a mão armada
aberta em sangue a vida.
É mais veloz (e mais demorada)
nos cárceres
a noite latino-americana
entre interrogatórios
e torturas (lá fora as violetas)
e mais violenta (a noite)
na cona da ditadura
Sob a pele da treva, os frutos
crescem
conspira o açúcar
(de boca para baixo) debaixo
das pedras, debaixo
da palavra escrita no muro
ABAIX
e inacabada Ó Tlalhuicole
as vozes soterradas da platina
Das plumas que ondularam já não resta
mais que a lembrança
no vento
Mas é o dia (com seus monturos)
pulsando dentro do chão
como um pulso
apesar da South American Gold and Platinum
é a língua do dia
no azinhavre
Golpeábamos en tanto los muros de adobe
y era nuestra herencia una red de agujeros
é a língua do homem
sob a noite
no leprosário de San Pablo
nas ruínas de Tiahuanaco
nas galerias de chumbo e silicose
da Cerro de Pasço Corporation
Hemos comido grama salitrosa
piedras de adobe lagartijas ratones
tierra en polvo y gusanos
até que
(de dentro dos monturos) irrumpa
com seu bastão turquesa

VII
Súbito viemos ao mundo
E nos chamamos Ernesto
Súbito viemos ao mundo
e estamos
na América Latina
Mas a vida onde está
nos perguntamos
Nas tavernas?
nas eternas tardes tardas?
nas favelas
onde a história fede a merda?
no cinema?
na fêmea caverna de sonhos
e de urina?
ou na ingrata
faina do poema?
(a vida
que se esvai
no estuário do Prata)
Serei cantor
serei poeta?
Responde o cobre (da Anaconda Copper):
Serás assaltante
E proxeneta
Policial jagunço alcagueta
Serei pederasta e homicida?
serei o viciado?
Responde o ferro (da Bethlehem Steel):
Serás ministro de Estado
e suicida
Serei dentista
talvez quem sabe oftalmologista?
Otorrinolaringologista?
Responde a bauxita (da Kaiser Aluminium):
serás médico aborteiro
que dá mais dinheiro
Serei um merda
quero ser um merda
Quero de fato viver.
Mas onde está essa imunda
vida – mesmo que imunda?
No hospício?
num santo
ofício?
no orifício da bunda?
Devo mudar o mundo,
a República? A vida
terei de plantá-la
como um estandarte
em praça pública?

VIII
A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo o tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão

Poesia Trunca


Estou aqui com um sorriso bobo no rosto, abraçado a dois livros fantásticos que chegaram hoje, encomendas que fiz pela estante virtual. Um deles é o “Camarim de Prisioneiro”, 2o e último livro do fantástico poeta-guerrilheiro brasileiro Alex Polari. O livro é da 1a edição de 1980 e veio com dedicatória irreverente, marca do autor: “Pra Daniel e pra Cida com um abraço sem imaginação para dedicatórias” =)

E o segundo livro, motivo deste post, é o “Poesia Trunca” uma coletânea de poetas revolucionários da América Latina organizada por Mario Benedetti. Há algum tempo estava atrás desse livro, porque quero ainda este ano publicar uma antologia semelhante a partir de traduções de poetas-lutadores que venho fazendo há algum tempo… portanto, ter acesso a seleção do Benedetti seria muito importante! E finalmente encontrei o livro disponível na Estante Virtual, um único exemplar! Comprei no ato! E pra minha alegria desmedida, o livro veio com dedicatória do próprio punho do Benedetti para o Ignácio de Loyola Brandão!!!! =)

A coletânea é de 77 e foi impresso pela Casa das Américas, importante organização cultural cubana que vem até hoje promovendo a unidade da cultura latinoamericana. Ou seja, o livro veio de cuba, passou pela mão de Benedetti que o deu para Ignácio de Loyola que por algum motivo se desfez dele e agora está em boas mãos! =)

Eis a lista de poetas revolucionários ou revolucionários poetas presentes na coletânea: Che Guevara, Juan Oscar Alvarado, Otto René Castillo, Edwin Castro, Roque Dalton, Mónica Ertl, Argimiro Gabaldón, Raúl Gómez García, Agustín Gómez, Ibero Gutiérrez, Javier Heraud, Victor Jara, Rony Lescouflair, Rigoberto López Pérez, Carlos Marighella, Ricardo Morales, Roberto Obregón,. Frank País, Néstor Paz Zamora, Leonel Rugama, Aldo Sá Brito, Luiz Saíz, Sergio Saíz, Jorge Salerno, Edgardo Tello, Francisco Urondo, Rita Valdivia, Jacques Viau.

Eu não conheço diversos desses poetas, o que me dá um ânimo fantástico de mergulhar na leitura! Certamente, se Benedetti tivesse conhecido à época a poesia de Alex Polari (das melhores que já li de todos os poetas-lutadores que venho conhecendo) teria certamente o incluído nessa coletânea.

Segue abaixo a tradução de alguns trechos da interessante apresentação do livro feita pelo próprio Benedetti. Também descobri que Benedetti gravou um DVD em que lê diversas poesias desse livro. Para quem quiser baixá-lo, basta clicar aqui.

PRÓLOGO – POESIA TRUNCA – MARIO BENEDETTI

Esta é uma antologia muito particular, já que inclui vinte e oito poetas latinoamericanos que deram suas vidas pela causa revolucionaria. A maioria deles morreu em plena juventude (alguns saíam apenas da adolescência), e aqueles poucos que já eram homens maduros, estiveram tão consubstanciados com o espírito libertário e com os afãs de justiça da juventude, que a decisão de incluí-los neste volume não só não contradiz, senão afirma a intenção de homenagem ao XI Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes que ocorrerá em Havana em 1978.

Alguns destes poetas revolucionários morreram em combate ou cumprindo uma missão insurrecional; outros, na prisão ou na tortura; houve aqueles que desapareceram em alguma emboscada e nunca mais se soube deles; outros, cujos cadáveres apareceram crivados ou mutilados por esqudrões da morte ou comandos paramilitares; alguns foram assassinados quando estavam desarmados ou ainda quando dormiam. Todos eram militantes revolucionários e, portanto, haviam assumido seu compromisso, aceitando o risco de morrer pela causa e pela pátria que defendiam. Quiçá uns foram revolucionários que, além de tudo, escreviam versos, enquanto outros eram poetas que, além de tudo, lutavam pela revolução. Aqui, no entanto, estão todos juntos, porque quando se entrega a vida, as outras matizes e prioridades se diluem nesse grande holocausto.

O volume inclui poetas da Argentina, Bolívia, Brasil, Cuba, Chile, El Salvador, Guatemala, Haiti, Nicarágua, Perú, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. (…)

Cada vez fica mais claro que se o escritor abandona sua atitude contemplativa para jogar-se por seu povo, ou seja, se sente-se efetivamente parte do mesmo, também correrá os riscos que o povo corre em todas suas lutas. Os países latinoamericanos em que foram tomadas as mais duras medidas contra a cultura, são precisamente aqueles onde essa mesma cultura, por seu desenvolvimento progressivo, por seu labor persuasivo, por sua dimensão massiva, foi adquirindo uma função de esclarecimento ideológico e de mobilização política contra a estrutura capitalista.

Mariano Rodríguez, José M. Rodríguez (Pirole), Haydée Santamaría (fundadora da Casa das Américas), Mario Benedetti. [foto de Pedro Meyer ©]

Enquanto a cultura é um luxo, um elemento decorativa – ainda que às vezes rebelde – da burguesia, é tolerada por diversos tipos de repressão, tantos os de tipo nacional como os de assessoria estrangeira. Inclusive cai bem que os salões burgueses acolham escritores e artistas conhecidos, seja para exibí-los como personagens insólitos, e outras vezes como simples púcaros ou floreadores. Mas quando a cultura começa a chegar paulatinamente a cada vez mais setores do povo, a sensibilizar a opinião pública, a desmascarar hipocrisias, a assinalar responsáveis, a mobilizar rebeldias, ou seja, quando a cultura adquire uma vigência massiva e esclarecedora, então as forças regressivas arremetem contra ela com a mesma ferocidade que contra qualquer outro setor que se alce contra a oligarquia e contra o poder colonial.

O imperialismo sabe melhor que ninguém (as vezes melhor que o próprio artista) que se bem a arte por si só não derruba tiranias nem muda as estruturas, tem sido, não obstante, através da história um elemento nada desprezível em sua capacidade de converter em imagens, em cor, em pensamento certeiro, certos princípios regentes dos povos. Quando as mais obscuras forças da reação chegam a esse convencimento em determinado momento de uma transformação possível, então não vacilam em pagar um evidente preço político en sua arremetida contra os criadores e as formas de arte.

(…)

Ainda que limitado a um só gênero (a poesia), este volume é também uma mostra dessa busca (busca de nossa própria expressão), e um testemunho acerca do fervor com que esses poetas a levaram a cabo. No entanto, convém esclarecer que a política não é o único tema que estes poetas revolucionários alegeram. Algo que certa vez expressei com respeito a poesia de Ibero Gutierrez (totalmente inédita no momento em que é massacrado pela Esquadrão da Morte, em Montevideu), poderia ser estendido aos demais poetas: “Só uma parte (e não a maior) de seus poemas, são políticos. O resto são poemas de amor, alguns deles estupendos, ou observações líricas ante certas perplexidades próprias ou alheias, ou metáforicos diálogos com seu complicado ambiente […] Essa bondade, essa preocupação pelo próximo, essa esperança incólume, que estão presentes nos poemas, são uma comovedora mostra da riqueza interior de um revolucionário. Nós mesmos às vezes perdemos de vista esse nível humano, que não por humano deixa de ser político senão que é mais político que nunca.”

(…)

Por todo o exposto, esta não é uma antologia tradicional. A chamamos de Poesia Truncada (“Poesia Trunca”, pode-se também traduzir por Poesia Mutilada, Interrompida…) porque todos esses poetas revolucionários e revolucionários poetas estavam em plena produção, uns gerando poesia, outros gerando revolução, e outros mais, ambas as coisas de uma vez. É truncada, ainda, porque todos eles eram suficientemente jovens, ou juvenilmente maduros, como para que possamos considerá-los poetas em pleno desenvolvimento. A morte interrompe, parte essa evolução, mas não a rompe. A vida do poeta pode ser despedaçada, mas a obra, truncada mas intacta, fica, e ao final se converte em sua vida. E até pode seguir crescendo, sempre e quando novos jovens se acerquem dessa poesia interrompida, a envolvam com sua própria juventude, a continuem com sua própria vida em revolução. Oxalá que esta antologia facilite essa continuidade.

Ibero Gutiérrez (Uruguai, 1949-1972)


Ibero era artista autodidata (poeta, pintor e fotógrafo) e militante da Frente Ampla (partido de esquerda que se forjou durante a ditadura uruguaia). Ganhou um prêmio internacional aos 18 anos o que permitiu que ele conhecesse Cuba, Madrid e Paris, onde teve contato com as movimentações de Maio de 68. Ibero representou o espírito libertário de 68 no Uruguai. Foi preso várias vezes por causa de sua militância estudantil e em 1972, com 21 anos, foi sequestrado, torturado e assassinado por um “esquadrão da morte” (Comando Caça Tupamaros, algo como o Comando de Caça aos Comunistas no Brasil… inclusive, algum tempo antes de seu assassinato, o delegado Fleury – um dos mais terríveis torturadores brasileiros – havia passado pelo Uruguai para dar “aulas” de repressão e tortura).

Mario Benedetti foi quem primero difundiu seus poemas e dizia: “um dos poetas melhor dotados de uma geracão que se formou entre dois fogos: a rebeldia e a repressão”. (Abaixo é possível ouvir Benedetti declamando o poema “Ouço Bob Dylan e ela”.)

E algumas palavras da companheira de Ibero que nos ajudam a entender o espírito de sua vida: “Nos queríamos, sabíamos que nossa relação era importante, mas que não tinha sentido, que perdia todo sentido se não se estendia aos demais, se não existia na relação a causa da libertação de nosso povo. Assim vivíamos nos querendo, entre a militância e as lutas estudantis e as tarefas políticas. Ibero era um homem, um militante, um lutador. Não queria se ilhar, ficar só dentro de suas coisas, separar-se dos demais, do que compreendia que era bom para os outros. E essa foi, sempre, sua luta”.

Abaixo algumas traduções que fiz da poesia de Ibero.

NA ESTAÇÃO D’ORLEANS

Na Estação d`Orleans podemos ler uma revista pornográfica ou mastigar
um “chewing gum” porque Deus está presente em cada um dos
papéis imprestáveis ou vice-versa.
Não há razões lógicas para não lustrarmos os sapatos em uma máquina
automática mas no céu as estrelas seguirão cintilando a milhões
de anos luz de distância.
Essa segurança pode ser angustiante mas podemos tomar uma aspirina.

Paris, 20/2/69


Auto-retrato de Ibero Gutierrez

OUÇO BOB DYLAN E ELA

na voz de Mario Benedetti:

ouço Bob Dylan e ela
a uma distância de um respiro
dorme um minúsculo sonho
suspira a sesta
ao entrar em outro tempo

escrevo:
a paz virá
com a libertação

então ela
não dorme e se desperta
para sonhar melhor

Pintura de Ibero Gutiérrez

DEITADOS NAS MURADAS DA RAMBLA

Deitados nas muradas da rambla
debaixo da noite fria e do ruído das folhas
recebendo as estrelas de abismo para cima
o mundo perceptivo se transforma
e parecemos dois hippies os dois ali estirados

creio que conheço teu cabelo curto e fino
creio que conheço teu perfume na roupa
creio que conheço tua cara de pomba
creio que conheço tua boca pequena
creio que conheço tua pequena risada

através do olhar
contra as luzes do luxo consumido
fazemos um contraste de corpos naturais
manchados de pintura vermelha
vagamos às coisas fazendo companhia
fazendo
um mar obscuro para sermos selvagens
trasgredimos as normas automaticamente
para inaugurar a grande viagem
para poder voar com poças nas mãos
com um pouco de barro da terra do mundo
e chegar a olhar com todos os sentidos
para poder imaginar todas as coisas
e transformar uma vez mais nosso campo perceptivo
com o amor de a dois e das estrelas.

Pintura de Ibero Gutiérrez

SE PODE SABER COM QUE TERNURA

se pode saber com que ternura
meus olhos são de um pedaço da noite
encontrando os companheiros velhos com todo o tempo aquele
que sem meus olhos
talvez
é todo simultâneo de liberdade
correr o dique vazio na música
ter a roupa fedendo tabacos infinitos

meus olhos queimaram letra
que apenas foram

talvez
nem existiram a rua estreita
a liberdade
quase não sei se isto existe
eu sei (o sabemos os companheiros velhos)

quase pendendo da fumaça
que não se comunica
como um telefone de espera e de
fuga

roçando o corpo de nafta
tragando-me as mãos cruas
arrancando-me os olhos
cortando-me as pernas e os braços
com toda a ternura de meus olhos que estalam
por não poder falar as coisas
e ter assim que ser poesia.

Pintura de Ibero Gutiérrez

ESTÁS CAÍDO

(A Salerno)*

Estás caído
Baixo de uns eucaliptos
Com as palmas das mãos
abertas
olhando para cima.
Estás estendido na relva
e um pouco de sombra
se acompanha
con um pouco de sol
ao meio, amornando a cara;
A tarde calorosa de outubro
Se põe de pé e te descobre.
Um pouco mais além
-talvez não alcances ver-
um tronco retorcido, grosso
sugere um céu
com o subir frondoso
e o canto das aves.

Estás pois, ali dormido
Com as vintequatro primaveras
e a boca semiaberta
e o traje escuro
o cabelo confundido com o pasto;
Estás, sim
ali
e o eucalipto, como o mundo
numa muda expectativa
e o olhar incerto
compartilhando o sol e a sombra
de um vasto cenário
povoado de escolas e silêncios
(os silêncios das tardes calorosas
de outubro entre as granjas
e o incessante dizer das cigarras
mais o ar inundado de luz
e caminhos de terra, sem final
sempre percorridos, sem pressa).

* Jorge Salerno: poeta e lutador uruguaio assassinado em 8 de outubro de 1969.

Um livro vermelho para Lênin



O poeta e guerrilheiro de El Salvador, Roque Dalton, e sua família

Roque Dalton é o poeta da américa-latina que mais admiro, tanto por sua disposição militante para a luta, quanto pela sua poesia de vanguarda. Já venho traduzindo poesias dele há algum tempo. Parte dela pode ser vista aqui. Tempos atrás, ganhei de uma querida amiga o livro “Un libro rojo para Lênin”, em que Dalton elabora uma de suas mais ousadas obras, uma colagem de poesias suas e fragmentos de outros pensadores. Esse livro é fruto de seu longo estudo sobre o pensamento do líder da revolução russa, Lênin. Infelizmente, o pensamento leniniano, após a falência da experiência russa, foi enormemente distorcido. Muitos ainda associam a Lênin violência, autoritarismo, irracionalismo. Desprezam que Lênin foi justamente o filósofo-lutador marxista que mais brilhantemente se debruçou sobre o processo de consciência, sobre o processo necessário de organização, sobre a democracia operária. Roque Dalton busca com seu “livro vermelho”, ao mesmo tempo, prestar homenagem a esse grande pensador, mas também desafiá-lo, buscando compreender como o pensamento de Lênin poderia se adaptar a realidade latina (que na época passava pelas guerrilhas). Dalton monta seu discurso, ao longo do livro, recortando trechos de outros discursos e os iluminando a partir de seu olhar. Por isso, uma colagem. Dalton consegue, ao mesmo tempo, elaborar uma obra de arte e elaborar um livro filosófico, reflexivo, de teses. Homenageia e desafia Lênin como Lênin, certamente, gostaria.

Estou decidido a traduzir esse livro para o português. Abaixo alguns poemas. Antes, um dos últimos poemas de Mario Benedetti (grande poeta uruguaio que faleceu em 2009), um inédito divulgado recentemente pelo jornal La Vanguardia. Interessante notar como em um de seus últimos poemas Benedetti menciona Dalton, um dos poetas que mais admirava.

“LIVROS”, POEMA INÉDITO DE MARIO BENEDETTI

Quero ficar no meio dos livros
vibrar com Roque Dalton com Vallejo e Quiroga
ser uma de suas páginas a mais inesquecível
e dali julgar o pobre mundo
não pretendo que ninguém me encaderne
quero pensar rusticamente
com as pupilas verdes da memória franca
no breviário da noite instável
meu abecedario dos sentimentos
sabe pousar em meus queridos nomes
me sento cômodo entre tantas folhas
com advérbios que são revelações
sílabas que me pedem um socorro
adjetivos que parecem joguetes
quero ficar no meio dos livros
neles aprendi a dar meus passos
a conviver com manhas* e sopros vitais
a compreender o que criaram outros
e a ser por fim este pouco que sou.”

* pode ser também: manhãs

ELEMENTOS (Roque Dalton)

A organização de vanguarda
nível de experiência e organização das massas
a análise de conjunto e dos detalhes
a conjuntura de auge
a audácia as armas a serenidade a tenacidade
a intransigência na estratégia
a flexibilidade na tática
a clareza nos princípios
a clandestinidade operativa
a localização do momento preciso
os motores do amor e do ódio
métodos meios e preparação adequados
técnica ciência e arte
o conhecimento de toda a experiência anterior
mais e mais audácia
ofensiva constante
a concentração na direção principal
queimar as pontes e ao mesmo tempo
não jogar todo o jogo em uma só carta
máxima segurança só depois de aceitar
as últimas conseqüências
alianças uniões apoios neutralizações
planejamento global da confrontação
marco mundial
nível moral de nossas forças
mais audácia
autocrítica constante
e mais audácia

AS FORMOSAS CAIXINHAS (Roque Dalton)

Não nos negamos a nos auto-batizarmos
como marxistas-leninistas-maotsetunguistas-hochiminhistas-
kimilsunguistas-fidelistas-guevaristas.

Apenas
pensamos em dar os primeiros passos.

Porém
que orgulho interior!,
que imensa alegria,
se amanhã,
algum dia,
aqueles que não tenham medo das palavras
nos qualificarem assim!

RETRATO (A) (Roque Dalton)

“Como você, como eu, foi semelhante a todos.
Somente, talvez, bem perto dos olhos,
o traço do pensar lhe enrugava a pele
mais que em nós
e eram talvez mais firmes
e zombeteiros seus lábios.”

Maiakovsky, em V.I. Lenin.

RETRATO (D) (Roque Dalton)

(A idade de Lênin no aniversário de seu centenário)

Quando morreu tinha
54 anos de idade física.
E (unanimemente aceito como computável)
1924 anos de idade (sabedoria) mental.

Hoje (ainda que no mausoléu não aparente)
tem 100 anos de idade física.

E 1970 da outra.

AS ASPIRAÇÕES (MÍNIMAS E URGENTES) DE UM LENINISTA LATINOAMERICANO (Roque Dalton)

Aspiramos
(mas com nossa ação
não com nossos narizes)
à criação de um partido revolucionário de combate
que dirija as mais amplas massas do povo
como vanguarda da classe operária
real ou em potência
(as palavras “real ou em potência” se referem aqui
à classe operária não à vanguarda)
a uma estratégia tatificada
e a uma tática filha de uma estratégica
aspiramos
a honrosa inimizade dos oportunistas
a esvaziar as armas da crítica
e a carregá-las outra vez para disparar de novo
a exercer
a crítica das armas *
(depois de conseguir
construir
engraxar
manejar até a perfeição
e saber quando e contra quem usar
essas armas)
aspiramos dar três passos adiante **
para cada passo atrás
aspiramos nos curar de nossas doenças infantis ***
mas sem envelhecer
aspiramos a saúde juvenil perene
não a normal senilidade
e aspiramos
acima de todas as coisas
(por agora
mas também desde agora)
ao poder político em nossa nação
ao poder político
ao poder
ao poder

* Referência a famosa frase de Marx: “As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens.” (Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel)
** Referência ao famoso artigo de Lênin “Um passo adiante, dois passos atrás”.
*** Referência ao famoso texto de Lênin “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”

RECORDA (Roque Dalton)

(tese)

Tu
que pensas que aos homens
se deve jugá-los pelo que fazem
e não pelo que dizem
pensa bem
porém
recorda
que há alguns homens
que o que fazem
é dizer QUE FAZER*.

* Um dos livros mais célebres de Lênin, onde elabora, de forma inicial, sua teoria de organização, sua teoria do partido revolucionário, chama-se: “Que fazer?”