Amantes go home!


AMANTES GO HOME!
(Mario Benedetti, trad. Jeff Vasques)

Agora que comecei o dia
voltando a teu olhar
e me encontraste bem
e te encontrei mais linda.

Agora que por fim
está bastante claro
onde estás e onde estou.

Sei pela primeira vez
que terei forças
para construir contigo
uma amizade tão legal,
que do vizinho
território do amor,
esse desesperado,
começarão a nos olhar
com inveja,
e acabarão organizando
excursões
para nos perguntar
como fizemos.

Não te rendas

nao se renda

NÃO TE RENDAS
(Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009)

Não te rendas, ainda é tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar tuas sombras,
enterrar teus medos,
liberar o lastro,
retomar o vôo.
Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viajem,
perseguir teus sonhos,
destravar o tempo,
correr os escombros,
e destapar o céu.
Não te rendas, por favor não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento,
ainda há fogo em tua alma
ainda há vida em teus sonhos.
Porque a vida é tua e teu também o desejo
porque o tens desejado e porque te quero
porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não há feridas que não cure o tempo.
Abrir as portas,
tirar as trancas,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos
despregar as asas
e tentar de novo,
celebrar a vida e retomar os céus.
Não te rendas, por favor não cedas,
Ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo em tua alma,
ainda há vida em teus sonhos
Porque cada dia é um começo novo,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás sozinho, porque eu te amo.

(tradução de Jeff Vasques)

Um painosso latinoamericano

UM PAINOSSO LATINOAMERICANO
(Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009)

Pai nosso que estais nos céus
com as andorinhas e os mísseis
quero que volte antes que se esqueça
como se chega ao sul do Rio Grande
Pai nosso que estais no exílio
quase nunca te lembras dos meus
de todo modo onde quer que estejas
santificado seja teu nome
não quem santificam em teu nome
fechando um olho para não ver as unhas
sujas da miséria
em agosto de mil novecentos e sessenta
já não serve te pedir
venha a nós o teu reino
porque teu reino também está aqui embaixo
metido nos rancores e no medo
nas vacilações e na sujeira
na desilusão e na modorra
nesta ânsia de te ver apesar de tudo
quando falaste do rico
da agulha e do camelo
e votamos todos em você
por unanimidade para a Glória
também alçou sua mão o índio silencioso
que te respetaiva mas resistia
a pensar seja feita tua vontade
no entanto uma vez a cada tanto
tua vontade se mistura com a minha
a domina
a acende
a duplica
mais árduo é conhecer qual é minha vontade
quando creio de verdade no que digo crer
assim em tua onipresença como em minha solidão
asim na terra como no céu
sempre
estarei mais seguro da terra que piso
que do céu intratável que me ignora
mas quem sabe
não vou decidir
que teu poder se faça ou se desfaça
tua vontade igual se está fazendo no vento
nos Andes de neve
no pássaro que fecunda a pássara
nos chanceleres que murmuram yes sir
em cada mão que se converte em punho
claro não estou seguro se me agrada o estilo
que tua vontade escolhe para fazer-se
isso digo com irreverência e gratidão
dois emblemas que logo serão a mesma coisa
isso digo sobretudo pensando no pão nosso
de cada dia e de cada pedacinho de dia
ontem nos tomaste
nos dê hoje
ou ao menos o direito de nos darmos nosso pão
não somente o que era símbolo de Algo
mas o de miolo e casca
o pão nosso
já que nos sobra poucas esperanças e dúvidas
perdoa se podes nossas dúvidas
mas não nos perdoe a esperança
não nos perdoe nunca nossos créditos
o mais tardar amanhã
saldemos a cobrar os fajutos
tangíveis e sorridentes foragidos
aos que têm “garras para a arpa”
e um panamericano temor com que se enxugam
a última cuspida que escorre de seu rosto
pouco importa que nossos credores perdoem
assim como nós
uma vez
por erro
perdoamos a nossos devedores
todavia
nos devem como um século
de insônias e porrete
como três mil kilometros de injúrias
como vinte medalhas a Somoza
como uma só Guatemala morta
não nos deixe cair na tentação
de esquecer ou vender este passado
ou arrendar um só hectar de seu esquecimento
agora que é a hora de saber quem somos
e vão cruzar o rio
o dólar e seu amor contra-reembolso
nos arranque da alma o último mendigo
e nos livre de todo mal de consciência
amém.

(Tradução de Jeff Vasques | Mais poesias de Benedetti aqui: http://eupassarin.wordpress.com/tag/mario-benedetti/)

Amor Sádico


Amor Sádico
(Julio Herrera y Reissig, trad. Jeff Vasques)

Já não te amava, sem deixar por isso
de amar a sombra de teu amor distante.
Já não te amava, e no entanto, o beijo
da repulsa nos uniu um instante…

Acre prazer e bárbaro enlevo
crispou minha face, mudou meu semblante,
já não te amava, e me pertubei, não obstante,
como uma virgem em um bosque espesso.

E já perdida para sempre, ao ver-te
anoitecer no eterno luto,
mudo o amor, o coração inerte,

esquivo, atroz, inexorável, hirsuto,
jamais vivi como naquela morte,
nunca te amei como naquele minuto!

Amanhã


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(foto de Sebastião Salgado – família deixando mina no Amazonas)

Há um único lugar
onde ontem e hoje
se encontram
e se reconhecem
e se abraçam.

Esse lugar é amanhã.

EDUARDO GALEANO (Uruguai, 1940)

(Tradução de Jeff Vasques |
www.eupassarin.wordpress.com)

¨Deve-se atuar a poesia / acioná-la¨ (Ibero)


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A partir de amanha comeco uma serie de entrevistas e filmagens acerca de Ibero Gutierrez, poeta lutador que foi barbaramente assassinado pela ditadura no Uruguai (foi torturado e seu corpo encontrado com 13 balas e junto um bilhete do Esquadrao da Morte dizendo ¨Voce tambem pediu perdao bala por bala, morte por morte”). Tenho me emocionado muito e aprendido muito ao reler suas poesias e outros materiais sobre sua história e paixao pela vida e pela arte. Ibero viveu tao pouco, 22 anos, mas tanto e de forma tao coerente consigo e com o mundo!

Amanha converso com Luis Bravo, organizador da antologia de Ibero (suas poesias soh foram publicadas postumamente) e grande pensador da cultura e da literatura latino-americana! Depois de amanha converso com Ricardo Viscardi, grande filosofo uruguaio e amigo de juventude de Ibero. No sabado, visito o Museu da Memória para ver o acervo de pinturas e fotografias de Ibero e, por fim, vou conhecer a casa onde Ibero cresceu e onde mora hoje sua irma, a querida Sara Gutierrez.

Assim vou descobrindo o que eh ser poeta e lutador nesta America e fincando minhas raizes no chao que escolho… 🙂 Abaixo, uma declaracao linda da esposa de Ibero (alguns dias depois de seu assassinato) sobre a relacao de amor dos dois… que linda forma de viver o amor!

¨“Nós nos demos conta que tínhamos que viver de urgência, porque talvez o tempo era curto. Tínhamos que viver cada momento e vivê-lo plenamente. Mas nao para nós sozinhos, senao em relacao ao mundo. Sentíamos que nosso companherismo era importante, nos queríamos. Mas nao fazia sentido se nao era em relacao com os demais, com a causa, a causa da liberacao do povo. Tinhamos perdido a individualidade, ja nao éramos eu e ele; éramos o casal e nos sentíamos integrados. E no entanto, nao podíamos realizarnos mais alem. Era o sistema que estava nos cerceando. Nos haviamos casado ha cinco meses, e nao íamos ter filhos por agora, apesar de que Ibero quería muitissimo ter um filho. Mas teria sido muito comodo dizer: bem, o mundo marcha por ali e nos por aquí, em nosso lugar, realizándo-nos. Com tudo o que desejava viver em suas coisas, Ibero nao quería ilhar-se dos outros, e assim é como tratou de fazer o que entendía que era bom para todos. Costumavamos dizer que a relacao carnal do casal era nada sem a relacao ideológica e a relacao afetiva, e vivíamos nos queréndo no meio das lutas estudantis e das tarefas políticas. O domingo (em que Ibero foi assassinado) foi assim e havía sido sempre assim, durante os últimos dois anos.” (Olga Martinez Gutierrez, esposa de Ibero Gutierrez)

Estados de ânimo


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Tradução de mais dois poemas de Benedetti… engraçado pensar que antigamente não gostava da poesia dele… e agora não paro de ler… 😉

ESTADOS DE ÂNIMO (Mário Benedetti)

As vezes me sinto
como uma águia no ar
(de uma canção de Pablo Milanés)

Umas vezes me sinto
como pobre colina
e outras como montanha
dentre cumes repetida.

Umas vezes me sinto
como um escarpado
e em outras como um céu
azul mas distante.

Às vezes se é
manancial entre rochas
e outras vezes uma árvore
com as últimas folhas.
Mas hoje me sinto apenas
como lagoa insone
com um embarcadouro
já sem embarcações
uma lagoa verde
imóvel e paciente
como suas algas
seus musgos e seus peixes,
sereno em minha confiança
confiando que em uma tarde
te aproximes e te olhes,
te olhes ao olhar-me.

ENTRE SEMPRE E JAMAIS (Mario Benedetti)

Entre sempre e jamais
o rumo o mundo oscilam
e já que amor e ódio
nos voltam categóricos
ponhamos etiquetas
de rotina e comparação

-jamais voltarei a te ver
-unidos para sempre
-não morrerão jamais
-sempre e quando me admitam
-jamais do jamais
-(e até a fé dialética
de) por sempre jamais
-etcétera etcétera

de acordo
no entanto
que alguém sempre abre um futuro
e alguém jamais se faz um abismo
meu sempre pode ser
jamais de outros tantos

sempre é um planalto
com borda com final
jamais é uma escura
caverna de impossíveis
e no entanto às vezes
nos ajuda um indício

que cada sempre leva
seu osso de jamais
que os jamais têm
arroubos de sempres

assim
incansavelmente
insubornavelmente
entre sempre e jamais
flui a vida insone
passam os grandes olhos
abertos da vida.

Assunção de ti


Tiersen para ouvir enquanto lê o poema de Benedetti que traduzi…

Assunção de ti (Mario Benedetti)

Quem acreditaria que falava
sozinho no ar, oculto,
teu olhar.
Quem acreditaria essa terrível
ocasião de nascer posta ao alcance
de minha sorte e meus olhos,
E que tu e eu iríamos, despojados
de todo bem, de todo mal, de tudo,
nos prender no mesmo silêncio,
nos inclinar sobre a mesma fonte
para nos ver e nos ver
mutuamente espiados no fundo,
tremendo desde a água,
descobrindo, pretendendo alcançar
quem eras tu detrás dessa cortina,
quem era eu detrás de mim.
E todavia não vimos nada.
Espero que alguém venha, inexorável,
sempre temo e espero,
e que acabe por nos nomear em um signo,
por nos situar em alguma estação
por nos deixar ali, como dois gritos
de assombro.
Mas nunca será. Tu não és essa,
eu não sou este, esses, os que fomos
antes de sermos nós.

Eras si mas agora
soas um pouco a mim.
Era si mas agora
venho um pouco de ti.
Não demasiado, somente um toque,
acaso um leve traço familiar,
mas que force a todos a nos abarcar
a ti e a mim quando nos pensem sós.

2
Chegamos ao crepúsculo neutro
onde o dia e a noite se fundem e se igualam.
Ninguém poderá esquecer este descanso.
Passa sobre minhas pálpebras o céu fácil
a deixar-me os olhos vazios de cidade.
Não penses agora no tempo de agulhas,
no tempo de pobres desesperos.
Agora só existe o anseio desnudo,
o sol que se desprende de suas nuvens de pranto,
teu rosto que se interna noite adentro
até somente ser voz e rumor de sorriso.

3
Podes querer a alvorada
quando ames.
Podes
vir a reclamar-te como és.
Conservei intacta tua paisagem.
A deixarei em tuas mãos
quando estas cheguem, como sempre,
anunciando-te.
Podes
vir a reclamar-te como eras.
Ainda que já não sejas tu.
Ainda que minha voz te espere
só em seu azar
queimando
e teu sonho seja isso e muito mais.
Podes amar na alvorada
quando queiras.
Minha solidão aprendeu a te ostentar.
Esta noite, outra noite
tu estarás
e voltará a gemer o tempo giratório
e os lábios dirão
esta paz agora, esta paz agora.
Agora pode vir a reclamar-te,
penetrar em teus lençóis de alegre angústia,
reconhecer teu tíbio coração sem desculpas,
os quadros persuadidos,
te saber aqui.
Haverá para viver qualquer fuga
e o momento da espuma e do sol
que aqui permaneceram.
Haverá para aprender outra piedade
e o momento do sonho e do amor
que aqui permaneceram.
Esta noite, outra noite
tu estarás,
tíbia estarás ao alcance de meus olhos,
longe já da ausência que não nos pertence.
Conservei intacta tua paisagem
mas não sei até onde este intacto sem ti,
sem que tu lhe prometas horizontes de névoa,
sem que tu lhe reclames sua janela de areia.
Podes querer a alvorada quando ames.
Deves vir a reclamar-te como eras.
Ainda que já não sejas tu,
ainda que contigo tragas
dor e outros milagres.
Ainda que sejas outro rosto
de teu céu até mim.

Tudo é muito simples…

Tudo é muito simples (Idea Vilariño)

Tudo é muito simples muito
mais simples e no entanto
ainda assim há momentos
em que é demais para mim
em que não entendo
e não sei se rio de mim a gargalhadas
ou se choro de medo
ou se me deixo aqui sem pranto
sem risos
em silêncio
assumindo minha vida
meu trânsito
meu tempo.

Por que cantamos

Por que cantamos – Mario Benedetti

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.