Cantar de amigo – Geir Campos


Chegou finalmente o livro “Cantar de amigo ao outro homem da mulher amada” de Geir Campos. Acho que o úncio grande poeta – que eu saiba – que tem um livro de poesia sobre a temática do amor livre! O livro é de 82 e veio com dedicatória do autor! ^^ Vou postando alguns poemas aqui! Este é o poema de abertura:

ABERTURA
(Geir Campos)

A ninguém se condena por ter mais
de um amigo ou amiga, e até se diz
que amizades adubam a raiz
do sucesso nas rodas sociais.

Já se a mesma pessoa tiver mais
de um amado ou amada, o que se diz
é que deve extirpar o mal pela raiz
esse cancro das rodas sociais.

Mas amor e amizade não serão
dois nomes de uma única emoção?
Se amizade é tão só um amor sem sexo,

que amigos e amigas enfim serão
os que, abrindo o estatuto da emoção,
dão também foro de amizade ao sexo?

Geir Campos (Brasil, 1924-1999)


Geir Campos foi piloto da marinha, professor de ginásio e universitário, radialista, jornalista, editor, contista, poeta e tradutor (traduziu Rilke, Brecht, Kafka, Herman Hesse, Walt Whitman, Shakespeare e Sófocles). Foi chamado de “habilíssimo artista” por Manuel Bandeira. Foi um dos organizadores, com Moacyr Félix, dos Cadernos do povo brasileiro, Violão de rua, editados em 1962 pelo CPC da UNE e Civilização Brasileira. O poeta esteve sempre engajado nas lutas de seu tempo.

Em 1951, Geir Campos criou, em Niterói, com o poeta Thiago de Melo, as Edições Hipocampo. A iniciativa se insere num dos momentos mais significativos da história das artes gráficas do país. As Edições Hipocampo foram um empreendimento nascido do amor à poesia e às artes gráficas. Os livros eram compostos tipograficamente e diagramados pelos próprios editores, numa gráfica de fundo de quintal.

Confesso que muito do que li do Geir não me atraiu, apesar de observar o esmero da técnica de sua composição. Mas o que me fisgou foram um conjunto de poesias chamadas “Cantigas para Acordar Mulher” (do livro de mesmo nome) que achei fantásticas tanto como composição como pelo tema corajoso. Infelizmente só achei 3 dessas Cantigas, mas já estou encomendando o livro. Geir era um militante cultural e tinha uma visão muito avançada dos relacionamentos afetivos… alguns poemas dele dão a entender que ele não só participava de relacionamentos a três, como defendia o amor livre. O último poema “resíduo” retrata secamente o arrefecimento da vontade de luta do militante… um poema de alerta para o momento que vivemos de apatia geral. Abaixo uma seleção do que achei mais interessante.

8a CANTIGA DE ACORDAR MULHER

Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida…
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?

9a. CANTIGA DE ACORDAR MULHER

Um dia te acharás
sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando,
os filhos dormindo em calma…
O espelho te acenará,
te lembrará coisas da mocidade,
coisas da meninice,
te mostrará vindas algumas rugas;
contemplarás o espelho,
o quarto, a casa;
perguntarás por ti mesma,
pelo teu próprio destino
— e o espelho fará silêncio:
será o sinal de estares acordando.

4a CANTIGA DE ACORDAR MULHER

Bom é sorrires, olhar
em mim: não vês
o inimigo, o rival
jamais.
Na caça, não serás
a presa; não serás,
no jogo, a prenda.
Partilharemos, sem meias
medidas,
a espera, o arroubo, o gesto,
o salto, o pouso e o sono
e o gosto desse rir
dentro e fora do tempo
sempre que nova mente
acordares

PRECISÃO

Eu queria ser claro de tal forma
que ao dizer ROSA,
todos soubessem
o que haviam de pensar…
mas queria mais:
ser claro de tal forma
que ao dizer JÁ
todos soubessem
o que haveriam de fazer…

RESÍDUO

Tanta cal, tanta cinza, tanto incenso
e o vôo impraticável e o pesado
projeto de cruzar o rio a nado
e o caminhar feito um esforço imenso.

Raro sujeito mostra-se propenso
a alar as rédeas do seu próprio fado:
objeto, o mais geral aceita alheado
toda a cal, toda a cinza, todo o incenso.

Contra a revolta, a palha da rotina;
há aquele gesto ou grito que termina
trocando uma bandeira por um lenço,

e então seguir é ir carregando a estrada
nos ombros – e com ela carregada
vai a cal, vai a cinza, vai o incenso.