Balada do soldado e do policial


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Diante da violência da polícia nos atos mundiais e também aqui, no Brasil, na luta pela redução do preço da passagem do ônibus, vale lembrar deste poema de Guillén, musicado por Adolfo Celdrán:

BALADA DO POLICIAL E DO SOLDADO

(Nicolás Guillén, Cuba, 1902-1989)

Soldado de traje amarelo,
policial de azul cáqui;
mão cega, surdo brilho:
pau e fuzil.

Sobre as ruas desnudas,
fosca noite sem astros
envolve duas sombras rudes
de olhos ferozes.

O fuzil, aço mal,
grita, se a luz lhe dá;
sobre as pedras, o pau
grunhe: tra, tra!

(O soldado foi torneiro;
o policial, sapateiro.)

Ah, soldado, meu soldado,
como podes escapar?
Os torneiros que te buscam
pronto te vão a encontrar!
Policial,
onde fostes parar?
Os sapateiros perguntam
por teu feroz avental!

Passos na rua escura
onde a dupla está.
Grita o fuzil com voz dura:
– Alto! Quem vem lá?
– Vai um torneiro,
que anda atrás de seu companheiro;
venho porque quero te falar…
-Não é torneiro, que é soldado
grita o fuzil sem compaixão,
e depois cospe irado:
– Vá p’atrás!

Passos na rua escura
onde a dupla está.
Grita o pau com voz dura:
– Alto! Quem vem lá?
– Sapateiro,
aqui está teu companheiro;
venho, porque quero te falar…
Mas o pau grita feroz:
– Tome! Tome! Tome e tome!
Avise se quiser mais;
tombe por aí e não incomode.
– Vá p’atrás!

Silêncio. Mas depois
da noite desce um canto
como uma lua de fel:
“Torneiros, muito cuidado,
que agora é soldado o torneiro;
soldado de corpo inteiro
e vão vendados os olhos.
Sapateiro, policial,
veja que já se faz dia
e estás de uniforme novo!”

(Tadução de Jeff Vasques)

Poesias e Canções para Che


Che Guevara é, dentre todos os lutadores, o que mais inspirou obras artísticas e homenagens. Abaixo segue para download um CD só de canções para Che Guevara e abaixo uma pequena seleção de poesias para Che de Julio Cortazar, Eduardo Galeano, Nicolas Guillen e um longo e bonito poema de Ferreira Gullar descrevendo o instante da morte de Che Guevara.

Para baixar o CD “Che Vive!” clique aqui!

CHE – Julio Cortazar

Eu tive um irmão
Não nos vimos nunca
mas não importava.

Eu tive um irmão
que andava na selva
enquantto eu dormia.

O amei ao meu modo,
lhe tomei a voz
livre como a água,
caminhei às vezes
perto de sua sombra.
meu irmão desperto
enquanto eu dormia.

Meu irmão mostrando-me
por detrás da noite
a sua estrela eleita.

O NASCEDOR – Eduardo Galeano

Por que será que o Che
tem esse perigoso costume
de seguir sempre
renascendo?
Quanto mais o insultam,
o manipulam
o tradicionam, mais renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será porque o Che
dizia o que pensava,
e fazia o que dizia?
Não será por isso, que segue
sendo tão extraordinário,
num mundo em que
as palavras e os fatos
raramente se encontram?
E quando se encontram,
raramente se saúdam,
porque não se
reconhecem?

CHE GUEVARA – Nicolas Guillen

Como se a mão pura de San Martín*
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí,
E o Prata, de margens verdejantes, corresse pelo mar
Para se juntar à embocadura cheia de amor do Cauto.

Assim Guevara, gaúcho de voz forte, agiu para dedicar
Seu sangue guerrilheiro a Fidel,
E sua mão larga teve mais espírito de camaradagem
Quando nossa noite era mais negro, mais escura.

A morte recuou. De suas sombras impuras,
Do punhal, do veneno e das feras,
Só restam lembranças selvagens.

Fundida dos dois, uma única alma brilha,
Como se a mão pura de San Martín
Tivesse se estendido para seu irmão, Martí.

* San Martin foi um grande general argentino que lutou pela independência de seu país, assim como Martí em Cuba.

DENTRO DA NOITE VELOZ – Ferreira Gullar

I
Na quebrada do Yuro
eram 13,30 horas
(em São Paulo
era mais tarde; em Paris anoitecera;
na Ásia o sono era seda)
Na quebrada do rio Yuro
a claridade da hora
mostrava seu fundo escuro:
as águas limpas batiam
sem passado e sem futuro.
Estalo de mato, pio
de ave, brisa nas folhas
era silêncio o barulho
a paisagem
(que se move)
está imóvel, se move
dentro de si
(igual que uma máquina de lavar
lavando sob o céu boliviano, a paisagem
com suas polias e correntes de ar)
Na quebrada do Yuro
não era hora nenhuma
só pedras e águas

II
Não era hora nenhuma
até que um tiro
explode em pássaros
e animais até que passos
vozes na água rosto nas folhas
peito ofegando a clorofila
penetra o sangue humano
e a história se move a paisagem
como um trem começa a andar
Na quebrada do Yuro eram 13,30 horas

III
Ernesto Che Guevara
teu fim está perto
não basta estar certo
para vencer a batalha
Ernesto Che Guevara
Entrega-te à prisão
não basta ter razão
pra não morrer de bala
Ernesto Che Guevara
não estejas iludido
a bala entra em teu corpo
como em qualquer bandido
Ernesto Che Guevara
por que lutas ainda?
a batalha está finda
antes que o dia acabe
Ernesto Che Guevara
é chegada a tua hora
e o povo ignora
se por ele lutavas

IV
Correm as águas do Yuro, o tiroteio agora
é mais intenso, o inimigo avança
e fecha o cerco.
Os guerrilheiros
em pequenos grupos divididos
agüentam a luta, protegem a retirada
dos companheiros feridos.
No alto,
grandes massas de nuvens se deslocam lentamente
sobrevoando países
em direção ao Pacífico, de cabeleira azul.
Uma greve em Santiago. Chove
na Jamaica. Em Buenos Aires há sol
nas alamedas arborizadas, um general maquina um golpe.
Uma família festeja bodas de prata num trem que se aproxima
de Montevidéu. À beira da estrada
muge um boi da Swift. A Bolsa
no Rio fecha em alta ou baixa.
Inti Peredo, Benigno, Urbano, Eustáquio, Ñato
castigam o avanço dos rangers .
Urbano tomba, Eustáquio
Che Guevara sustenta
o fogo, uma rajada o atinge, atira ainda, solve-se-lhe
o joelho, no espanto
os companheiros voltam
para apanhá-lo. É tarde. Fogem.
A noite veloz se fecha sobre o rosto dos mortos.

V
Não está morto, só ferido
Num helicóptero iangue
é levado para Higuera
onde a morte o espera
Não morrerá das feridas
ganhas no combate
mas de mão assassina
que o abate
Não morrerá das feridas
ganhas a céu aberto
mas de um golpe escondido
ao nascer do dia
Assim o levam pra morte
(sujo de terra e de sangue)
subjugado no bojo
de um helicóptero ianque
É seu último vôo
sobre a América Latina
sob o fulgir das estrelas
que nada sabem dos homens
que nada sabem do sonho,
da esperança, da alegria,
da luta surda do homem
pela flor da cada dia
É seu último vôo
sobre a choupana de homens
que não sabem o que se passa
naquela noite de outubro
quem passa sobre seu teto
dentro daquele barulho
quem é levado pra morte
naquela noite noturna

VI
A noite é mais veloz nos trópicos
(com seus na vertigem das folhas na explosão
monturos) das águas sujas
surdas
nos pantanais
é mais veloz sob a pele da treva, na
conspiração de azuis
e vermelhos pulsando
como vaginas frutas bocas
vegetais (confundidos com sonhos)
ou um ramo florido feito um relâmpago
parado sobre uma cisterna d´água
no escuro
É mais funda
a noite no sono
do homem na sua carne
de coca e de fome
e dentro do pote uma caneca
de lata velha de ervilha
da Armour Company
A noite é mais veloz nos trópicos
com seus monturos
e cassinos de jogos
entre as pernas das putas
o assalto a mão armada
aberta em sangue a vida.
É mais veloz (e mais demorada)
nos cárceres
a noite latino-americana
entre interrogatórios
e torturas (lá fora as violetas)
e mais violenta (a noite)
na cona da ditadura
Sob a pele da treva, os frutos
crescem
conspira o açúcar
(de boca para baixo) debaixo
das pedras, debaixo
da palavra escrita no muro
ABAIX
e inacabada Ó Tlalhuicole
as vozes soterradas da platina
Das plumas que ondularam já não resta
mais que a lembrança
no vento
Mas é o dia (com seus monturos)
pulsando dentro do chão
como um pulso
apesar da South American Gold and Platinum
é a língua do dia
no azinhavre
Golpeábamos en tanto los muros de adobe
y era nuestra herencia una red de agujeros
é a língua do homem
sob a noite
no leprosário de San Pablo
nas ruínas de Tiahuanaco
nas galerias de chumbo e silicose
da Cerro de Pasço Corporation
Hemos comido grama salitrosa
piedras de adobe lagartijas ratones
tierra en polvo y gusanos
até que
(de dentro dos monturos) irrumpa
com seu bastão turquesa

VII
Súbito viemos ao mundo
E nos chamamos Ernesto
Súbito viemos ao mundo
e estamos
na América Latina
Mas a vida onde está
nos perguntamos
Nas tavernas?
nas eternas tardes tardas?
nas favelas
onde a história fede a merda?
no cinema?
na fêmea caverna de sonhos
e de urina?
ou na ingrata
faina do poema?
(a vida
que se esvai
no estuário do Prata)
Serei cantor
serei poeta?
Responde o cobre (da Anaconda Copper):
Serás assaltante
E proxeneta
Policial jagunço alcagueta
Serei pederasta e homicida?
serei o viciado?
Responde o ferro (da Bethlehem Steel):
Serás ministro de Estado
e suicida
Serei dentista
talvez quem sabe oftalmologista?
Otorrinolaringologista?
Responde a bauxita (da Kaiser Aluminium):
serás médico aborteiro
que dá mais dinheiro
Serei um merda
quero ser um merda
Quero de fato viver.
Mas onde está essa imunda
vida – mesmo que imunda?
No hospício?
num santo
ofício?
no orifício da bunda?
Devo mudar o mundo,
a República? A vida
terei de plantá-la
como um estandarte
em praça pública?

VIII
A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo o tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão

Guillén

Tudo muito corrido. tanta coisa. tanto… sigo só traduzindo e aproveitando algum material antigo. Tra(b)duções do poeta aclamado pelos cubanos como seu artista maior, ficando atrás, em popularidade, apenas de José Martí. Ao final, um vídeo com o grupo Quilapayún – que espero ainda este ano assistir no Chile! – cantando o poema “Muralla” de Guillén.

PROBLEMAS DO SUBDESENVOLVIMENTO

Monsieur Dupont te chama de burro,
porque ingoras qual era o neto
preferido de Victor Hugo.

Herr Müller começou a gritar,
porque não sabes o dia
(exato) em que morreu Bismark.

Teu amigo, Mr. Smith,
inglês ou yanqui, eu não sei,
se revolta quando escreves shell.
(Parece que poupas um éle,
e, pior, que pronuncias chel.)

Olha só,
quando sacar qualé,
mande dizerem cacarajícara
e onde está o Aconcágua,
e quem era Sucre,
e em que lugar deste planeta
morreu Martí.

E, por favor:
que te falem sempre em espanhol.

UM POEMA DE AMOR

Não sei. O ignoro.
Desconheço todo o tempo que andei
sem encontrá-la novamente.
Talvez um século? Acaso.
Acaso um pouco menos: noventa e nove anos.
Ou um mês? Poderia ser. De qualquer forma
um tempo enorme, enorme, enorme.

Ao fim, como uma rosa súbita,
repentina campânula tremendo,
a notícia.
Saber de repente
que iria a ver outra vez, que a teria
próxima, tangível, real, como nos sonhos.
Que explosão contida!
Que trovão surdo
circulando por minhas veias,
fervilhando de cima
à baixo meu sangue, em
uma noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
de nos cumprimentarmos, de maneira
que ninguém compreendera
que esta é nossa própria maneira?
Um roçar apenas, um contato elétrico,
mão ques se apertam conspirando, um olhar,
um palpitar do coração
gritando, uivando com silenciosa voz.

Depois
(Já sabia desde os quinze anos)
esse esvoaçar das palavras presas,
palavras de olhos baixos,
penintenciais,
entre testemunhas inimigas,
todavia
um amor de “te amo”
de “tu”, de “bem queria,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, pense melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo em primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
no turbilhão de amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
seguí-la com os olhos,
e já sem olhos seguir vendo distante,
além das distâncias, e ainda seguí-la
mais longe ainda,
feita de noite,
de mordedura, beijo, insônia,
veneno, êxtase, convulsão,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa substância conhecida
com que amassamos uma estrela.

A FOME

Esta é a fome. Um animal
todo canino e olho.
Ninguém o engana ou distrai.
Não se farta em uma mesa.
Não se contenta
com um almoço ou uma ceia.
Anuncia sempre sangue.
Ruge como leão, aperta como jibóia,
pensa como pessoa.

O exemplar que aqui se oferece
foi caçado na Índia (subúrbios de Bombaim),
mas existe em estado mais ou menos selvagem
em outras muitas partes.

Não se aproxime.

BURGUESES

Não me dão pena os burgueses vencidos.
E quando penso que vão me dar pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.

Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem chapéus nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias.

Não passe, por favor. Isto é um clube.
A relação está cheia.
Não há vaga no hotel.
O senhor saiu.

Precisa-se de meninas.
Fraude nas eleições.
Grande baile para cegos.

Saiu o Prêmio Maior em Santa Clara.
Bingo para órfãos.
O cavalheiro está em Paris.
A senhora marquesa não recebe.
Enfim, e

que tudo recordo e como tudo recordo,
que porra me pede você pra fazer?
E, além do mais, pergunte-lhes.
Estou seguro que também
recordarão.

Quilapayun interpreta “La muralla” de Guillén

LA MURALLA – NICOLÁS GUILLÉN

Para hacer esta muralla,
tráiganme todas las manos:
los negros sus manos negras,
los blancos sus manos [blancas.
Ay,
una muralla que vaya
desde la playa hasta el monte,
desde el monte hasta la playa,
allá sobre el horizonte.
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– Una rosa y un clavel …
– ¡Abre la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– El sable del coronel …
– ¡Cierra la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
– La paloma y el laurel …
– ¡Abre la muralla!
– ¡Tun, tun!
– ¿Quién es?
El alacrán y el ciempiés …
– ¡Cierra la muralla!
Al corazón del amigo,
abre la muralla;
al veneno y al puñal,
cierra la muralla;
al mirto y la yerbabuena,
abre la muralla;
al diente de la serpiente,
cierra la muralla;
al ruiseñor en la flor,
abre la muralla …
Alcemos una muralla
juntando todas las manos;
los negros, sus manos negras,
los blancos, sus blancas manos.
Una muralla que vaya
desde la playa hasta el monte,
desde el monte hasta la playa,
allá sobre el horizonte …

Nicolás Guillén

O Paulo me emprestou uma coletânea da Poesia Social Cubana, o que vem a calhar com o meu projeto de montar um livro de poesias sociais dos poetas revolucionários latinos. Já, de cara, abri no Nicolás Guillén, poeta revolucionário cubano que já conhecia (inclusive traduzi no blog antigo algumas coisas, veja aqui). Mas, pela qualidade do que li, agora, fiquei animado de me aprofundar. Ele mistura uma linguagem moderna com a luta social e a luta dos negros (sem deixar de lado, também, questões existenciais). Depois posto (existe esse verbo? bem, agora existe!) algo mais sobre o Guillén (quem foi, influências, por que olhos morria…), por agora vão só as tra(b)duções de 2 poemas que, pelo que pesquisei na net, não existem para o português. Ah, a poesia “Tengo”, abaixo, refere-se às mudanças trazidas pela revolução cubana e, descobri, foi musicada por Pablo Milanês, ouça aqui.

Está bem

Tudo bem que cantes quando choras, negro irmão,
negro do Sul crucificado;
vai bem teus cantos espirituais*
teus estandartes,
tuas marchas e as alegações
de teus advogados.
Está muito bem.

Tudo bem que patine atrás da justiça,
– oh, aquele ingênuo patinador
tragando o ar até Washington desde Chicago! -;
bem teus protestos nos diários,
bem teus punhos cerrados
e Lincoln em seu retrato.
Está muito bem.

Bem teus sermões nos templos dinamitados,
bem tua insistência heróica
em estar junto dos brancos,
porque a lei – a lei? – proclama
a igualdade de todos os americanos.
Bem.
Está muito bem.
Extremamente bem
Irmão negro do Sul crucificado.
mas lembre-se de John Brown**.
Que não era negro e te defendeu com um fuzil nas mãos.

Fuzil: arma de fogo portátil
(é o que diz o dicionário)
com que disparam os soldados.
Há que se acrescentar: Fuzil (em inglês “gun”):
Arma também com que respondem
os escravos.

Mas se acontecer (isso acontece),
mas se acontecer, irmão,
que não tenhas fuzil, pois então,
nesse caso
digo, não sei,
busca algo
– uma marreta, um pau,
uma pedra – algo
que doa,
algo duro que fira,
que golpeie,
que tire sangue,
algo.

* (“spirituals” no original)
** abolicionista branco que praticou a insurreição armada para libertar os escravos negros


Tenho

Quando me vejo e me toco
eu, João sem Nada ontem mesmo,
e hoje João com Tudo,
e hoje com tudo,
volto meus olhos, observo,
me vejo e me toco
e me pergunto como pode ser.

Tenho, vamos ver,
tenho o gosto de andar por meu país,
dono de quanto há nele,
olhando bem de perto o que antes
não tive nem podia ter.

Safra posso dizer,
monte posso dizer,
cidade posso dizer,
exército dizer,
já meus para sempre e teus, nossos,
e um amplo resplendor
de raio, estrela, flor.

Tenho, vamos ver,
tenho o gosto de ir
eu, camponês, operário, gente simples,
tenho o gosto de ir
(é um exemplo)
a um banco e falar com o administrador,
não em inglês,
não em senhor,
senão dizer-lhe compañero como se diz em espanhol.

Tenho, vamos ver,
que sendo um negro
ninguém me pode deter
à porta de um dancing ou de um bar.
Ou melhor, na recepção de um hotel
gritar-me que não há lugar
um mínimo lugar e não um lugar colossal,
um pequeno lugar onde eu possa descansar.

Tenho, vamos ver,
que não há guarda rural
que me agarre e me prenda em um quartel,
nem me arranque e me expulse da minha terra
no meio do caminho real*.

Tenho que como tenho a terra tenho o mar,
não “country”,
não “jailáif”**,
não “tennis” e não “yatch”,
senão de praia e onda em onda,
gigante azul aberto democrático:
enfim, o mar.

Tenho, vamos ver,
que já aprendí a ler,
a contar,
tenho que já aprendí a escrever
e a pensar
e a rír.
Tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
Tenho, vamos ver,
tenho o que tería que ter.

* “camiño real” era o nome dado às ruas da Cuba monárquica ou ainda das grandes ruas.
** não descobri o que seja… provavelmente algo chique e de uso dos norte-americanos em Cuba.