Pedro Tierra (Hamilton Pereira)




[…]
Porque sou o poeta
dos mortos assassinados,
dos eletrocutados, dos “suicidas”,
dos “enforcados” e “atropelados”,
dos que “tentaram fugir”,
dos enlouquecidos.

[…]

meu ofício sobre a terra
é ressuscitar os mortos
e apontar a cara dos assassinos. […]”
(Poema-prólogo, Pedro Tierra)

Graças a generosidade de uma amiga-camarada que, diante do meu insistente clamor, me emprestou seu recém comprado “Poemas do povo da noite”, estou podendo conhecer a poesia de Pedro Tierra. 🙂

Pedro Tierra foi preso pela ditadura em 72 acusado de “subversão” por sua ação junto à ALN (Ação Libertadora Nacional). Foi apenas libertado em 77, após passar por diversas prisões e por longos períodos de tortura. Foi através da poesia que Tierra conseguiu manter sua humanidade nos porões da ditadura:

“Era, então, a maneira de poder me olhar no espelho sem enlouquecer.”

Seus poemas descrevem sua resistência, sua luta pela vida nos calabouços, superando a tortura física e a tristeza de acompanhar o assassinato de diversos companheir@s (grande parte dos poemas são dedicados a companheiros e companheiras de cela e prisão assassinados.) Para escrever na cadeia teve que roubar lápis dos torturadores e escrever com letra miúda no papel dos maços de cigarro. De início, mandava seus poemas na cartas, mas estes eram interceptados pela censura. Passou então a utilizar um subterfúgio: escrevia dizendo que adorava muito as poesias de um poeta latino-americano chamado Pedro Tierra do qual transcrevia poemas selecionados (que eram seus próprios… na verdade, seu verdadeiro nome é Hamilton Pereira… mas, desde então, Pedro Tierra passou a ser seu pseudônimo). Mas, a maior parte de suas poesias saíam mesmo escondidas dentro de canetas bic. Uma primeira edição mimeografada, com prefácio do padre e poeta Dom. Pedro Casaldáliga, rodou clandestinamente o Brasil com Hamilton ainda preso e foi se tornando símbolo da luta pela anistia. “Poemas do povo da noite” recebeu, em 78, menção honrosa no prêmio Casa das Américas, de Cuba, e seguiu ganhando fama internacional sendo traduzida para diversas línguas.

Hamilton Pereira, ou Pedro Tierra, continua escrevendo e é militante do PT.

“Será que alguém já publicou nestes dez últimos anos de poesia e de noite, no Brasil, um livro de poemas mais verdadeiros, versos mais comprometidos com a vida, com a morte, com o Povo?” Dom Pedro Casaldáliga

Abaixo alguns poemas que me atraíram numa primeira aproximação:

HÁ UM LUGAR NA BARRICADA

Quando o povo bater à porta,
não te encontre com as mãos
vazias.

Confere as coisas embaladas: não
se permitem dúvidas nas bagagens
de guerra.

Se entre os companheiros ainda
há quem pergunte a razão
dos poetas,

encontra, primeiro, teu lugar na
barricada, depois, entre os combatentes,
aponta

o rosto enérgico de tua poesia.

TECENDO O CANTO

“… Hemos sembrado la tierra con muertos que sin duda florecerán…”
Alberto Szpunberg

Recolho no ar teu verso claro
à maneira dos cantadores
do meu país.

Hoje, silenciosa, a terra trabalha
seus mortos como quem nutre
sementes de luz.

Possa algum perseguido,
encerrado nos calabouços
da América

alcançar meu verso humilde
e comporemos o vasto coro
dos oprimidos.

Não importa que hoje nos tremam os lábios
e a voz caminhe incerta
pela garganta,

se amanhã o canto
romperá na boca
de milhões.

Recolho entre as mãos teu verso
como o fuzil do companheiro
tombado.

Não importa que o corpo
de cada morto plantado
tarde a florescer.

DOMINGO

Um dia silencioso.
Um desses dias frios,
de mortal tristeza,
o gesto de ódio fechado nos armários.

Um dia sem tortura normal
dos dias comuns.
No ar apenas a tensão palpável
dos seres sem defesa.

Um dia rigorosamente inútil.
Mas vem agora essa cantiga.
Uma vozinha miúda,
vinda não sei de onde,

e é como se todos a esperássemos.
Sabe tornar maior ainda o silêncio:
aqui um ato de amor
é sempre um desafio.

Como reconforta ouvir a voz
dessa menina sem nome.
Saber que resiste o brilho de seus olhos
iluminando a noite,

enquanto outras estrelas se reúnem
buscando nova luz.
Saber que a critatura humana resiste.
Saber que vencemos a última batalha.

OS MATERIAIS

Eu quis a palavra reta
feito faca.

Eu fiz do verso o corte branco
do metal.

O lento sal dos anos
não lhe roube o fio.

O inimigo não possa
empunhá-lo durante a luta.

Se o carrasco, algum dia,
levar aos lábios meu poema,

o vidro claro do verso
lhe corte a boca.

E a palavra não se renda
à tortura.

E quando eu disser: pedra,
não se entenda pão.

Quando eu disser: noite,
se encontre nela todo poder de treva.

Quando eu disser: eis o inimigo,
mate-o antes do amanhecer.

E ME INTERROGO…

Chego ao final do poema
e me pergunto
estará aí o material proposto?

Reconheço, o suor do corpo
talvez tenha roído
o fio do material.

Terei garantido o corte do verso?
Ou se perdeu a palavra
numa rede de lamentos?

Teus versos têm a mesma roupagem,
dirão. Certamente, responderei,
como os soldados em marcha.

Possa meu poema acender em cada um
alguma coisa além das fogueiras
que iluminam a frente de batalha…