Roque Dalton II

Algumas novas tra(b)duções do poeta guerrilheiro Dalton e um trechinho de Cortázar falando sobre ele.
“Falar com Roque era como viver mais intensamente, como viver por dois. Nenhum de seus amigos esquecerá as histórias acaso míticas de seus antepassados, a visão prodigiosa do pirata Dalton, as aventuras dos membros de sua família; e outras vezes, sem maior desejo mas obrigado pela necessidde de defender um ponto de vista, a lembrança das prisões, a morte o cercando, a fuga à alvorada, os exílios, as voltas, a saga pelo continente, a larga marcha do militante.” Julio Cortázar

Conselho que não é mais necessário em nenhuma parte do mundo, mas que em El Salvador…

Não esqueça nunca
que os menos fascistas
dentre os fascistas
também são
fascistas.

Encontro com um velho poeta

Ontem acabei topando cara a cara
com o homem que antes que ninguém aplaudiu minha poesia.
Ele foi o responsável por meus versos
encontrarem o leito dos periódicos e dos editoriais
e por começarem a falar deles
de forma que parecia necessitar uma iniciação.
Ontem vim a topar cara a cara com ele
bem perto dos mercados pestilentos
(suponho que ele deixava sua oficina e ia pra casa).
Eu vinha sorrindo pra mim mesmo
porque uns minutos antes tudo havia saído bem
e não houve necessidade pra nós
de usar as armas.
Ele empalideceu debaixo da luz roxa do néon (uma proeza)
e buscou a outra calçada como quem repentinamente tem sede.

Descobrimento de Guernica

O toro impávido ante à língua dos mortos
a morte derramada debaixo dos cascos implacáveis
a impiedade do cavalo entre a dor e as lâmpadas
e o amor meu por um sonho
deslumbrado de pronto
pelo remorso.

As novas escolas

Na Grécia antiga
Aristóteles ensinava filosofia a seus discípulos
enquanto caminhava por um grande pátio.
Por isso sua escola se chamava “de os peripatéticos”.
Os poetas combatentes
somos mais peripatéticos que aqueles peripatéticos de Aristóteles
porque aprendemos a filosofia e a poesia do povo,
enquanto caminhamos
pelas cidades e pelas montanhas de nosso país.

América Latina

O poeta cara a cara com a lua
fuma sua margarida emocionante
bebe sua dose de palavras alheias
voa com seus pinceis de orvalho
arranha seu violãozinho pederesta

até que destroce o focinho
no áspero muro de um quartel.

Não, nem sempre fui tão feio

O que se passa é que tenho uma fratura no nariz
que me causou o porto-riquenho Lizano com um tijolo
porque eu dizia que evidentemente era pênalti
e ele que não e que não e que não
nunca em minha vida voltarei a dar as costas a um jogador porto-riquenho
o padre Acherandio por pouco não morreu de susto
já que ao final havia mais sangue do que num altar asteca
e logo foi Quique Soler que me deu no olho direito
a pedrada mais certeira que cabe imaginar
claro que se tratava de reproduzir a tomada de Okinawa
mas me causou ruptura da retina
um mês de imobilização absoluta (aos onze anos!)
visita ao doutor Quevedo na Guatemala e ao doutor
Bidford que usava uma peruca vermelha
por isso é que em ocasiões vesgueio
e que ao sair do cinema pareço um drogado
a outra razão foi uma garrafada de rum
que me lançou o marido de Maria Elena
na realidade eu não tinha nenhuma má intenção
mas cada marido é um mundo
e se pensamos que ele acreditava que eu era um diplomata argentino
tem-se que dar graças a deus
a outra vez foi em Praga nunca se soube
me pisotearam quatro delinqüentes em um beco escuro
à duas quadras do Ministério da Defesa
à quatro quadras das oficinas da Seguridade
era véspera da abertura do Congresso do Partido
pelo que alguém disse que era uma demonstração contra o Congresso
(no hospital encontrei outros dois delegados
que haviam saído de seus respectivos assaltos
com mais ossos quebrados que nunca)
outra opinião que foi um assunto da CIA para cobrar minha escapada do cárcere
outros ainda que foi uma amostra do racismo anti-latinoamericano
e alguns que eram simplesmente as universais ganas de roubar
o camarada Sóbolev veio me perguntar
se não era que eu tinha tocado o cu de alguma senhora acompanhada
antes de protestar no Ministério do Interior
em nome do Partido Soviético
finalmente não apareceu nenhuma pista
e há que dar graças a deus novamente
por haver continuado como vítima até o final
numa investigação na terra de Kafka
em todo caso (e para o que me interessa sustentar aqui)
os resultados foram
dupla fratura no maxilar inferior
comoção cerebral grave
um mês e meio de hospital e
dois meses mais engulindo até os bifes liquefeitos
e a última vez foi em Cuba
foi quando descia uma ladeira embaixo da chuva
com uma M-52 entre as mãos
e numa dessas saiu não sei de onde um touro
eu enrosquei minhas canelas no mato e comecei a cair
o touro passou sem me notar mas como era um grande reprodutor
não quis voltar para me furar
mas de toda forma não foi necessário porque
como lhes havia contado eu caí em cima da arma
que não soube fazer outra coisa senão ricochetear como uma revolução na África
e me partiu em três pedaços o arco zigomático
(muito importante para a resolução estética do rosto).

Isso explica pelo menos em parte meu problema.

Mais poesia de Roque

Seguem algumas tra(b)duções do poeta-guerrilheiro de El Salvador, Roque Dalton. Quanto mais leio Roque mais admiro sua poesia… dentre os poetas revolucionários latinos, pra mim, é o mais interessante e inovador, é o que viveu de forma mais aberta o dilema entre ser revolucionário e ser poeta: seus poemas são sempre carregados de ironia e sarcasmo contras os valores burgueses e contra a própria idéia de poesia, de poeta, de artista etc. Ah, descobri que Júlio Cortázar era profundo admirador de Dalton! No final deste post, segue de brinde o poema “Alta hora da noite” do Dalton na declamação de Cortázar. 🙂 (Você pode encontrar tra(b)duções que fiz de outros poemas de Roque no blog antigo, aqui.)

EPIGRAMA

Somos o casal menos infinito e menos adâmico
que poderia se encontrar nestes último 30 anos de História.

Do ponto de vista muscular
temos feito pouco mais que dois cachorros.
Desde o ângulo cultural
temos despertado bem pouca inveja.

Mas este amor nos devolveu melhorados ao mundo
e, entre nós, inesquecíveis.

Agora vamos fazer que alguém sorria
ou saboreie um pedacinho da doce tristeza
falando de nosso amor neste poema.

LA JOIE DE AIMER

Não me ames
para esgotar teu destino.
Não me ames
com a fé de construir uma tragédia contemporânea.
Ria-te à todas luzes, carinho.
Ria em toda esta etapa de bela vizinhança.
Ria-te, ria-te,
ainda que seja de mim.

TERCEIRO POEMA DE AMOR

A quem diga que nosso amor é extraordinário
porque nasceu de circunstâncias extraordinárias
lhe responda que precisamente lutamos
para que um amor como o nosso
(amor entre companheiros de combate) chegue a ser em El Salvador
o amor mais comum e corrente quase o único.

DE UM REVOLUCIONÁRIO A J. L. BORGES *

É que para nosso Código de Honra,
você também, senhor,
foi dos tantos lúcidos que esgotaram a infâmia.
E em nosso Código de Honra
o dizer: “que escritor!”
é bem pouco atenuante;
é, quiçá,
outra infâmia…

* Jorge Luis Borges é um escritor argentino considerado – ao lado de Kafka – como um dos maiores inovadores da literatura do século XX. Um de seus livros mais famosos é o “História Universal da Infâmia”. Suas tendências conservadoras, de apoio à ditadura argentina, por exemplo, foram amplamente conhecidas à época.

NO FUTURO

Quando nossa sociedade for
basicamente justa,
ou seja,
socialista,
nas conversas de buteco
à hora das confissões íntimas
mais de um dirá, olhando pra baixo,
“eu tive propriedade privada sobre os meios de produção”
como quando hoje dizemos
“eu tive sífilis”
“eu tive tendências sexuais aberrantes”.

SÓ O INÍCIO

Uma amiga minha meio poetisa
definia assim o lamento
dos intelectuais da classe média:
“Sou prisioneiro da burguesia:
não posso sair de mim mesmo.”
E o mestre Bertold Brecht,
comunista, dramaturgo e poeta alemão
(nessa ordem) escreveu:
“Que é o assalto a um Banco
comparado ao crime
da fundação de um Banco?”
Por onde concluo
que se para sair de si mesmo
um intelectual da classe média
assalta um Banco,
não terá feito até então
senão ganhar cem anos de perdão.

PARA UM MELHOR AMOR

“O sexo é uma categoria política”
Kate Mills

Ninguém discute que o sexo
é uma categoria no universo dos casais:
daí sua ternura e suas ramas selvagens.
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria familiar:
daí os filhos,
as noites em comum
e os dias divididos
(ele, buscando o pão nas ruas,
nas oficinas e nas fábricas;
ela, na retaguarda dos ofícios domésticos,
na estratégia e tática da cozinha
que permitam sobreviver à batalha comum
talvez até o fim do mês.)
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria econômica:
basta mencionar a prostituição,
as modas,
as seções das revistas que são para ela
ou são para ele.
Onde começa a confusão
é quando uma mulher diz
que o sexo é uma categoria política.
Porque quando uma mulher diz
que o sexo é uma categoria política
pode começar a deixar de ser mulher em si
para converter-se em mulher para si,
constituir a mulher em mulher
a partir de sua humanidade
e não de seu sexo,
saber que o desodorante mágico com sabor de limão
e o sabão que acaricia voluptuosamente sua pele
são fabricados pela mesma empresa que fabrica o napalm
saber que os labores próprios do lar
são os labores próprios da classe social a que pertence esse lar,
que a diferença de sexos
brilha muito melhor na profunda noite amorosa
quando se conhece todos esses segredos
que nos manteriam mascarados e alheios.

Alta hora da noite

Quando souberes que morri não pronuncies meu nome
porque se deteria a morte e o repouso.

Tua voz, que é o sino dos cinco sentidos,
seria o tênue farol buscado por minha névoa.

Quando souberes que morri diga sílabas extravagantes,
pronuncia flor, abelha, lágrima, pão, tormenta.

Não deixes que teus lábios achem minhas onze letras.
Tenho sonho, amei, ganhei o silêncio.

Não pronuncies meu nome quando souberes que morri:
Desde a escura terra viria por tua voz.

Não pronuncies meu nome, não pronuncies meu nome.
Quando souberes que morri não pronuncies meu nome.