11 de Setembro e Victor Jara


11 de setembro é a data do golpe auxiliado pelos EUA que derrubou Allende no Chile e assassinou milhares de lutadores. Victor Jara, um dos maiores músicos da Nueva Canción foi provavelmente assassinado nesse dia. Este post é uma singela homenagem a Victor e ao povo chileno que viveu outro 11 de setembro.

No dia 11 de setembro, sabendo do golpe que derrubava Allende, Jara correu para a universidade onde trabalhava para se juntar aos 600 estudantes que ocupavam o prédio. Dali, mesmo sem muito armamento, resistiriam aos militares. Os tanques cercaram a universidade. Um companheiro vendo Jara com seu violão lhe disse: “Chegou a hora de trocar o violão pelo fuzil!”. Victor Jara respondeu, de maneira simples, que não sabia atirar e continuaria a usar sua melhor arma… cantou sem parar, animando a resistência. Depois de uma luta desigual, foram obrigados a se render. A multidão foi levada para o estádio Chile. Victor foi rapidamente reconhecido por um oficial: “Você é aquele maldito cantor, não é?”. Separado dos demais, foi duramente espancado. Quando o soltaram ensanguentado, junto aos companheiros na arquibancada, Victor presenciou cenas terríveis… estudantes torturados, outros executados ao tentarem escapar… outros, ainda, suicidando-se, perdidos em desespero. Percebeu logo seu destino. Pediu pedaços de papel e lápis aos companheiros. Mal acabara de escrever este que seria seu último poema, militares o puxavam para conduzi-lo ao Estádio Nacional do Chile. Antes de sair, conseguiu clandestinamente passar o papel para um companheiro que, passando a outro e a outro e a outro, salvaram o manuscrito.

Poucos dias depois, a esposa de Victor identificou seu corpo num terreno baldio. Apresentava sinais nítidos de tortura e dezenas de furos de balas pelo corpo. Os militares, indignados com o poder (humano) de sua poesia e música, haviam brutalmente dilacerado suas mãos. Não percebiam assim que semeavam dez mil outras.

Último poema de Victor Jara

Somos cinco mil
nesta pequena parte da cidade.

Somos cinco mil.
Quantos seremos no total,
nas cidades e em todo o país?
Somente aqui, dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.

Quanta humanidade
com fome, frio, pânico, dor,
pressão moral, terror e loucura!

Seis de nós se perderam
no espaço das estrelas.

Um morto, um espancado como jamais imaginei
que se pudesse espancar um ser humano.

Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores
um saltando no vazio,
outro batendo a cabeça contra o muro,
mas todos com o olhar fixo da morte.

Que espanto causa o rosto do fascismo!

Colocam em prática seus planos com precisão arteira,
sem que nada lhes importe.

O sangue, para eles, são medalhas.

A matança é ato de heroísmo.

É este o mundo que criaste, meu Deus?
Para isto os teus sete dias de assombro e trabalho?

Nestas quatro muralhas só existe um número
que não cresce,
que lentamente quererá mais morte.

Mas prontamente me golpeia a consciência
e vejo esta maré sem pulsar,
mas com o pulsar das máquinas
e os militares mostrando seu rosto de parteira,
cheio de doçura.

E o México, Cuba e o mundo?

Que gritem esta ignomínia!
Somos dez mil mãos a menos
que não produzem.

Quantos somos em toda a pátria?

O sangue do companheiro Presidente
golpeia mais forte que bombas e metralhas.

Assim golpeará nosso punho novamente.

Como me sai mal o canto
quando tenho que cantar o espanto!

Espanto como o que vivo
como o que morro, espanto.

De ver-me entre tantos e tantos
momentos do infinito
em que o silêncio e o grito
são as metas deste canto.

O que vejo nunca vi,
o que tenho sentido e o que sinto
fará brotar o momento…”

(Victor Jara, Estádio de Chile, Setembro 1973).

IDENTIFICADO O ASSASSINO DE VICTOR JARA

Edwin Dimter Bianchi não esperava nada daquilo,passados todos estes 30 anos de esquecimento. Pode ser, também, que sempre estivesse à espera deste dia. Como todas as manhãs Edwin seguiu a sua rotina em direcção ao seu local de trabalho, como chefe de um departamento de controle de superintendência da AFP em Santiago do Chile. Quando lá chegou deu os bons dias, tomou um café, falou com os colegas, e seguindo as hierarquias ocupou,com um certo desdém, a sua secretária.

Foi então que o som dos batuques se começou a ouvir. De princípio, o ruído era imperceptível, longínquo, como se viessem de um passado remoto, ainda que insistente e resistente. Mas a verdade é que o murmúrio ia crescendo. Tambores e mais tambores acompanham os cantos que se escutavam desde o passeio da avenida. O estrondo parou à porta do edifício do ministério do trabalho. Edwin começou então a suar rios de recordações. Ouvia gritos e choros. As vozes tornaram-se muito nítidas. Eles estavam ali.Edwin Dimter Bianchi ouviu claramente como gritavam o seu nome, alto e bom som, entre refrões e contratempos. Um autêntico clamor.

Quem trabalhava por perto começou a olhá-lo como nunca o havia feito. Os gritos e os cantos daquele numeroso grupo, armado de tambores e cartazes, alertava também os transeuntes e todos os funcionários do ministério. E todos eles ficaram a saber que alí estava «O Príncipe». Anos a fio gozando do maior anonimato como um incógnito e cinzento funcionário não impediram a sua identificação e localização. Haviam-no descoberto.

Edwin Dimter Bianchi, «o príncipe», é recordado por muitos pela sua crueldade quando, por ocasião do golpe de estado militar de 1973, esteve no Estádio do Chile durante aqueles dias. Foi Edwin Dimter Bianchi, «o princípe», que assassinou Victor Jara depois de o ter torturado ao longo de várias horas. Victor Jara recebeu então quarenta e quatro tiros. Desde então, os tribunais nada fizeram. Mas as gentes não esquecem. E Edwin Dimter sabe agora que a sua tranquilidade, tal como a sua impunidade, acabaram. Desmascararam-no.
As mãos de Victor Jara perseguem-no e lançam-no ao inferno. Que se foda.

Abel Ortiz

Tradução para português do texto de Abel Ortiz.
Ver o original em:
http://abelortiz.blogspot.com/

Lara de Lemos (Brasil, 1925-2010)


Lara de Lemos e Mario Quintana

Estimulado pelo querido Alípio Freire (militante, artista plástico e autor do livro de poesias “Estação Paraíso”), que conheci melhor numa mesa sobre arte engajada nos períodos de ditadura, na usp, faço este post sobre Lara de Lemos, poeta do sul, engajada nas causas políticas de sua época (escreveu junto com Paulo Cesar Pereio o Hino da Legalidade, canção entoada em todo país pedindo a posse do vice-presidente João Goulart que se encontrava suspensa pelos militares). Estabelecido o golpe militar de 64, ela e seus filhos foram presos e ela submetida a tortura. Já fora da prisão escreveu livros de poesia sobre a experiência do calabouço e da luta política, sendo o mais famoso o “Inventário do Medo”. Já encomendei uma antologia via estante virtual. Por enquanto, segue abaixo um pouco do material que o Alípio me passou.

CELAS – 1

Viajo entre túneis de sono
como un cão vadio à procura
do dono.

Viajo em barcos fastasma
onde o tempo retrocede em busca
da alma.

Viajo consultando arquivos
e a memória ilumina rostos
redivivos.

Viajo procurando portos
e me encontro no país
dos mortos.

CELA – 6

A hora dos
capuzes negros
é a hora mais negra
dos prisioneiros.

Descer às cegas
pelas cascatas
apalpando paredes
adivinhando fissuras

Pisando superfícies
escorregadias
de sangue
e urina.

Às cegas.

Eis que me retornam
vestes, sapatos,
óculos, relógios.

Bolsa povoada
de lenços, moedas,
inúteis estojos.

Despojada até aos ossos
não sei o que fazer
de meus despojos.

CONTA CORRENTE

Para Wanda Maria

CRÉDITO DÉBITO

O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco

Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:

além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina

além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.

além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.

SALDO

só o domado viver.
Mais nada.

LEGADO

Para Laury Maciel

Recuso-me a herança
deste poço vazio
deste lodo legado
em negligências.

Engulo a seco e calo.
Aposto em cada poema
— único engenho
ainda não vencido.

Proponho rubros jogos
olhos atentos
para o imaginário.

Ases de puro ouro
— naipes que guardo
para meu incêndio.

O IRMÃO

No rosto a ruga
na fala o susto
na boca a baba
no corpo o luto.

No sangue o saque
na carne o fogo
no riso a claque
na palma o nome.

No olho o cisco
nos pés a corda
na dor o quisto
na mão a vela.

Na cara o risco
no dente a falha
na casa o lixo
na morte a vala

Camarim de Prisioneiro



Algumas poesias do segundo e último livro do poeta-guerrilheiro Alex Polari. O livro, escrito no período de transição do presídio para a liberdade condicional, é uma retomada de toda sua história, desde a infância, passando pelo envolvimento com a militância, com as atividades clandestinas durante a ditadura, os tempos de presídio e a liberdade. Obra fundamental da literatura brasileira moderna… vi na internet que talvez ele dê depoimento sobre seu tempo de calabouço e tortura para a novela “Amor e Revolução”…

A CÉLULA DO SETOR SECUNDARISTA

À noite sonhávamos
e durante o dia
comíamos os sonhos
da padaria
em frente.

PROFISSÃO DE FEL

Enquanto vocês se vendiam
barato
com ares de grande dignidade
fiquei por aí
zanzando feito uma besta
fazendo a revolução dos imberbes
praticando a pureza dos tolos.

Minhas concepções mudaram
mas tenho muito orgulho
de não ter sido um burocrata.

Dizem que os desvios de direita
são mais fáceis de consertar.
Mas sempre gostei de errar pela esquerda
mesmo correndo o risco de não ficar vivo
prá fazer auto-crítica.

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS

Dancem os que tenham motivos
divirtam-se os imbecis convictos
eu por mim só canto
o que me desespera
o resto, adio.

COLÔNIA PENAL BRASILIENSIS

Desligaram as máquinas
o que restou, jogaram no fosso
dos ossos fizeram pentes
dos corpos piruetas
dos cabelos perucas
dos pentelhos palitos
da pele roupas
e da voz agoniada e rouca
eles foram costurando cada grito e cada boca
um por um deles foram juntando
eco por eco de desespero
caco por caco de amargura
e assim eles inventaram esse silêncio.

REFLEXÃO SOBRE NOSSO FUTURO E DOS TEMPOS

Já amei várias mulheres
e com elas corri da polícia
me entoquei em sobrelojas decadentes
mictórios de bares, velhos sobrados
onde bradei meus slogans
debaixo de marquises cinzentas
próximo a notórios líderes procurados
durante cargas de cavalaria
e chuva de papel picado.
Porém quando começamos a namorar
eu estava numa masmorra
e ainda não havia manifestação de massa.
Antes de qualquer ativismo
e vínculo ideológico
nos prendia o velho tesão
de homem e mulher.

Hoje, porém, nessa passeata
eu percebi como é bonito e inquietante
pensar a mãe que você é
do meu próprio filho
lá, toda agitada, nervosa
no meio daquele barato todo
enquanto eu fico aqui
preocupado feito o diabo
com a sua pneumonia.
Algo me diz:
o pulsar das novas eras
vai ter esse sacolejo
ritmo esquisito
e sopinha do filhote
deixado em casa
e a palavra de ordem
gritada na desordem
das ruas
e o sorriso dele
e a pauleira do comício
a tarja preta pelos mortos
e a pulseira colorida pela vida.

E quem começou pelo fim
terminará achando seu início.

CONFISSÕES DE ÚLTIMA HORA

Hoje, nesta visita íntima
senti-me sem qualquer intimidade
com esse mês de setembro
que prenuncia minha saída.
Já mais próximo do meu livramento condicional
me vejo incondicionalmente vítima de tudo,
vitrine de minha própria loucura.

E vivo a merda de um vazio despropositdo
uma total indiferença ante a liberdade
e até uma certa náusea por ela.

Tenho medo de sair, preguiça de viver
e horror de ser tomado por tal letargia
no dia que puser os pés fora dessa prisão.

Tudo perdeu o sentido
e eu escolhi me decretar atingido
por fatos que normalmente tiro de letra.
Fiz toda força que pude prá me fragilizar
antes que fosse tarde
e mais uma vez eu subisse ao pódium
para uma vitória à custa de minha emoção.
Eu que durante tanto tempo
resisti na esperança desse momento
na sensação de superioridade que ele me daria
caso eu conseguisse retê-lo
tenho apenas algumas semanas
para recuperar minha fantasia
sem a qual sairei daqui derrotado
e todos esses anos não terão tido qualquer sentido.
Confesso,
é uma sensação tão doida, doída
contraditória com tudo
que por um momento quase não publico esse livro.

POEMA DE SAÍDA BREVE

Viver, Porra!!!

Inventário de Cicatrizes


Cela do DOPS com dízeres da época da ditadura nas paredes (foto de Mariana Schmitz)

Por um desses acasos felizes do ócio, enquanto perambulava por um sebo perto de casa, cruzei com o livro de poesias “Inventário de Cicatrizes” de Alex Polari de Alverga, poeta-lutador que sobreviveu a 9 anos nos porões da ditadura brasileira (1971-1980). Comprei imediatamente e ansioso já vim lendo no caminho pra casa. É um livro muito forte e belíssimo… acredito que um marco na “poesia de luta” brasileira. Inacreditável como Polari consegue manter, apesar da situação em que se encontrava, o humor, a auto-ironia, e uma linguagem tão despojada e simples capaz de nos dar uma visão clara e interessante da sua luta, de suas contradições, da tortura e da vida cotidiana que ia se tornando extraordinária.

Alex Escobar, na apresentação do livro (que foi vendido para reverter fundos para o Comitê Brasileiro pela Anistia) nos diz: “Alex político e Alex poeta, como alguns dos seus muitos companheiros em diferentes prisões do país, alguns já libertados, outros exilados, poderão significar toda uma postura e uma produção artística (na poesia, na pintura e no romance) que rompe com os padrões estéreis e reacionários de até então.”

Selecionei 5 das melhores e mais representativas poesias do livro… a 1a poesia abaixo, que dá nome ao livro, traz essa imagem terrível de um Congresso mundial dos mutilados, de todos aqueles que foram marcados pelos porões do ultra-conservadorismo manifesto nas ditaduras espalhadas pelo planeta. Não há, nesse poema, passar de mão na cabeça ou falso otimismo… as marcas não serão apagadas. Pelo contrário, as chagas devem ser inventariadas, estudadas, debatidas, divulgadas amplamente pra que se saiba quem são esses “seres” capazes de tudo para manter a vida miserável, para defender o funcionamento do sistema capitalista.

Bom, pensei em falar um pouco sobre cada um dos poemas, mas agora resisti… deixo que o contato seja direto… só queria apontar que “ESCUSAS POÉTICAS”, o último poema desta seleção, é uma das poesias mais importantes, ao meu ver, da poesia de luta brasileira… é um marco, é um manifesto das potencialidades e limites da poesia dentro da luta revolucionária, é uma defesa da poesia e da vida dentre os próprios companheiros de trincheira, é fazer a arte expressão do concreto e não apenas do que sonhamos ou desejamos que seja a vida… logo, se sou esse ser contraditório, que apesar de mergulhado no modo de vida burguês luta pra superá-lo, minha poesia também deve ser essa tensão entre minhas contradições e a luta por sua superação. Não há porque fingir o panfleto, forçar a palavra de ordem… é preciso que se “cante e anuncie de todas as formas possíveis”… fantástico!

INVENTÁRIO DE CICATRIZES

Estamos todos perplexos
à espera de um congresso
dos mutilados de corpo e alma.

Existe espalhado por aí
de Bonsucesso à Amsterdam
do Jardim Botânico à Paris
de Estocolmo à Frei Caneca
uma multidão de seres
que portam pálidas cicatrizes
esmanecidas pelo tempo
bem vivas na memória envoltas
em cinzas, fios cruzes
oratórios,
elas compõem uma catedral
de vítimas e vitrais
uma Internacional de Feridas.

Quem passou por esse país subterrâneo e não oficial
sabe a amperagem em que opera seus carrascos
as estações que tocam em seus rádios
para encobrir os gritos de suas vítimas
o destino das milhares de viagens sem volta.

Cidadãos do mundo
habitantes da dor
em escala planetária

todos que dormiram no assoalho frio
das câmaras de tortura
todos os que assoaram
os orvalhos de sangue de uma nova era
todos os que ouviram os gritos, vestiram o capuz
todos os que gozaram coitos interrompidos pela morte
todos os que tiveram os testículos triturados
todas as que engravidaram dos próprios algozes
estão marcados,
se demitiram do direito da própria felicidade futura.

POEMA DE 22 DE MARÇO

(Para Gerson e Maurício)

Ele caiu no asfalto
não pode reagir
faltou o pente sobressalente
faltou a cobertura
faltou a sorte
faltou o ar.

Ele foi levado ainda com vida
dentro de um porta-malas
a camisa rasgada
a calça Lee suja de sangue.

Era preciso avisar Teresa
era preciso fingir serenidade no espelho
era preciso comer rápido o sanduíche de queijo
era preciso cobrir os pontos
era preciso esvaziar o aparelho
era necessário escravizar o medo
e domesticar o ódio

Quando cheguei em casa era noite
vi as portas abertas
as lâmpadas acesas
as mariposas alertas
as certezas cobertas de poeira
a chave na janela
os cartazes que nos punham a cabeça à prêmio
e a chuva que caía no telhado
como os passos de pássaros
esparsos

E saí por aí, sozinho,
com as mãos nos bolsos
pensando no impasse da luta nas cidades
pensando no isolamento político
pensando na nossa situação
e no nosso despreparo,
me dividindo entre o esforço
de analisar as coisas com frieza
e a ânsia de encher de tiros
o primeiro camburão que passasse.

Adiei as reflexões maiores
adiei as conclusões mais penosas
visto que o cerco se fechava em meu redor
e um bom guerrilheiro
respeita sua própria paranóia
por uma questão de sobrevivência,
por uma questão de instinto.

MORAL E CÍVICA II

Eu me lembro
usava calças curtas e ia ver as paradas
radiante de alegria.
Depois o tempo passou
eu caí em maio
mas em setembro tava pelaí
por esses quartéis
onde sempre havia solenidades cívicas
e o cara que me tinha torturado
horas antes,
o cara que me tinha dependurado
no pau-de-arara
injetado éter no meu saco
me enchido de porrada
e rodado prazeirosamente
a manivela do choque
tava lá – o filho da puta
segurando uma bandeira
e um monte de crianças,
emocionado feito o diabo
com o hino nacional.

OS PRIMEIROS TEMPOS DA TORTURA

Não era mole aqueles dias
de percorrer de capuz
a distância da cela
à câmara de tortura
e nela ser capaz de dar urros
tão feios como nunca ouvi.

Havia dias que as piruetas no pau-de-arara
pareciam rídiculas e humilhantes
e nus, ainda éramos capazes de corar
ante as piadas sádicas dos carrascos.

Havia dias em que todas as perspectivas
eram prá lá de negras
e todas as expectativas
se resumiam à esperança algo céticas
de não tomar porradas nem choques elétricos.

Havia outros momentos
em que as horas se consumiam
à espera do ferrolho da porta que conduzia
às mãos dos especialistas
em nossa agonia.
Houve ainda períodos
em que a única preocupação possível
era ter papel higiênico
comer alguma coisa com algum talher
saber o nome do carcereiro de dia
ficar na expectativa da primeira visita
o que valia como uma aval da vida
um carimbo de sobrevivente
e um status de prisioneiro político.

Depois a situação foi melhorando
e foi possível até sofrer
ter angústia, ler
amar, ter ciúmes
e todas essas outras bobagens amenas
que aí fora reputamos
como experiências cruciais.

REQUERIMENTO CELESTE COM DIGRESSÕES JURÍDICAS
(POR OCASIÃO DO POUSO DA VIKING 1 EM MARTE)

Resolvi denunciar às amebas de Marte
(caso elas existam)
a minha sui generis situação jurídica
de condenado duplamente
à prisão perpétua,
olvidado em várias esferas
absolvido em uma das vidas
e esperando recurso da outra
e tendo ainda por cima
além de certas transcendências sustadas
mais quarenta e quatro anos de reclusão
a descontar não sei de qual existência.

Resolvi portanto,
romper meu silêncio de quase 6 anos
e denunciar em outros astros
a situação atroz que aqui prevalece
tendo o Ministério Público
pedido duas vezes minha condenação à morte.
Assim sendo, continuo sem grilhetas
cumprindo minha condenação
à danação perpétua
neste pedregulho
cheio de poluição
ditaduras e injustiças
que convencionaram chamar planeta
em eterna órbita
sem ternura ao redor
de uma estrela de 5a grandeza.
Nestes termos,
em lugar sobremaneira ermo,
pede deferimento
com o corpo cheio de feridas
o suplicante
irrecuperável militante
desta província celeste
encravada entre nebulosas
e sentimentos mais nebulosos ainda.

ESCUSAS POÉTICAS II

Alguns companheiros reclamam
que entre tantas imagens bonitas
eu diga em meus poemas que gosto de chupar bucetas
e não vejo como isso atrapalhe a marcha para o socialismo
que é também o meu rumo. Mais ainda,
eu gostaria que nessa nova sociedade por qual luto
todos passassem a chupar bucetas a contento
todos redescobrissem seus corpos massacrados
todos descobrissem que o medo e a aversão ao prazer
a que foram submetidos foi e será sempre
apenas a estratégia dos tiranos.

Outros companheiros reclamam
quanto ao uso da 1a pessoa
em meus poemas, a falta de desfechos
corretos do ponto de vista político
e os resquícios da classe que pertenço.

A isso tudo procuro responder
que a poesia reflete uma vivência particular,
se universaliza apenas nessa medida
e que não adianta você inventar um caminho
para um povo que você não conhece nem soube achar.
Eu bem que gostaria de ter essa solução, é minha senda,
eu estou sinceramente do lado dos oprimidos
só que de uma maneira abstrata
o que errei, errei por eles,
num processo não despido de angústia
e minha poesia teria que se ressentir disso.

Quanto as outras críticas,
o que posso dizer é que a falta de lógica de meus sentimentos
não acompanha a lógica dos manuais de dialética
e que minhas intenções e objetivos
nem sempre correspondem à minha vida real.

O que muitos não entendem
é que eu quero muito falar do meu povo
da sabedoria dele,
das coisas simples
que lhe são mais imediatas
mas que esse canto hoje soaria falso
e que só posso falar disso
quando não precisar inventar nada,
quando minha práxis for essa
o caminho escolhido o certo,
quando não precisar de metáforas.

O dia da redenção tanto pode ser uma aurora quanto um poente,
isso pouco importa
desde que se cante e anuncie
de todas as formas possíveis.

Paulo Fonteles (Brasil, 1949-1987)


Paulo Fonteles foi militante da AP (Ação Popular) durante a ditadura. Ele e sua esposa (que estava grávida) foram presos e barbaramente torturados. Encontrar a poesia de Paulo me abalou muito… tenho pesquisado a poesia dos lutadores e dentre eles os que foram presos e assassinados pelas ditaduras da América Latina. Mas nunca havia encontrado uma poesia que descrevesse de forma tão crua e direta o processo da tortura. A maioria dos lutadores torturados não revisita esse momento, escrevendo sobre o antes, sobre a resistência durante e sobre o porvir de liberdade. Paulo Fonteles volta com determinação a sala de torturas para relatar isso que não pode ser esquecido… é como se tentasse “desesteticizar” a sua poesia, deixando o puro desconforto para o leitor, desconforto de quem vê a tortura de forma clara, sem rodeios, sem metáforas. E se usa a repetição não é estritamente como efeito literário, mas porque a tortura é toda baseada em repetição desumanizadora…

Coloco de cara as poesias, que não foram publicadas no Brasil… e depois trechos de um longo relato que o próprio Paulo concedeu à revista Resistência, em 1978, ilegal à época. Sugiro fortemente a leitura integral do relato aqui: http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/num09/art_01.php Só com essa leitura, pesada e necessária, se pode dimensionar a poesia de Paulo e entender as diversas situações que deram origem aos poemas. Paulo e sua esposa, Hecilda Veiga sobreviveram as torturas. O filho Paulo Fonteles Júnior nasceu nos porões da ditadura subvertendo a praga que os torturadores rogavama de que “não devia nascer filho dessa raça”. Ficaram oito meses na prisão antes de serem acusados a 16 de junho de 1972. Paulo Fonteles foi condenado a um ano e oito meses, Hecilda a um ano de prisão. Os juizes ignoraram as denúncias de tortura. Paulo Fonteles, solto, se engajou na luta dos posseiros na região do Araguaia tendo sido assassinado pelo grandes grileiros latifundiários da região.

Depois de ler as poesias e o relato de Paulo, as palavras de de Pedro Tierra (outro poeta torturado pela ditadura no Brasil) fazem mais e mais sentido: “(…) E a palavra não se renda / à tortura. // E quando eu disser: pedra, / não se entenda pão. // Quando eu disser: noite, / se encontre nela todo poder de treva. // Quando eu disser: eis o inimigo, / mate-o antes do amanhecer.”

Obs.: Mantenho as letras maiúsculas porque acredito que assim foram escritas. Infelizmente não consigo reproduzir o rico uso espacial que Paulo faz com os versos… (o wordpress dificulta isso). Em geral, os trechos repetidos são dispostos de forma diferente no espaço.

A VIAGEM

O AVIÃO
LEVANTA VÔO.

ALGEMAS NÃO PRENDEM O PULSO DA MULHER
QUE DESCANSA O BRAÇO LIVRE NO VENTRE CRESCIDO.

O RÁDIO
TRANSMITE A MENSAGEM:
ALÔ ALÔ BOTAFOGO
ALÔ ALÔ BOTAFOGO
A MERCADORIA
A MERCADORIA
A MERCADORIA
JÁ CHEGOU
A MERCADORIA
JÁ CHEGOU.

AFOGAMENTO

CORPO ESTIRADO
CABEÇA REPUXADA PARA TRÁS.

TUBOS DE BORRACHA
INFILTRAM-LHE NA BOCA
NAS NARINAS.

ÁGUA.
O PEITO SUFOCA
O CORPO ESTERTORA
O PRESO ESPERNEIA.

AGONIA.

QUANDO A MORTE SE APROXIMA
APENAS UM FÔLEGO.

APENAS UM FÔLEGO
QUE O PRESO NÃO PODE MORRER ANTES DE
FALAR.

ATAQUE DE PEÕES

GANHO UMA CARTEIRA DE CIGARROS,
VAZIA.
UM BELO PRESENTE.

COM UM FÓSFORO RISCADO
DESENHO UM TABULEIRO DE XADRÊS
E CUIDADOSAMENTE RECORTO 32 FIGURAS.

DESENVOLVO BOAS TRAMAS
E SONHO COM ATAQUES DE PEÕES.

CHOQUE

UM MAGNETO
UM DÍNAMO
DOIS FIOS.

ELETRICIDADE
NA LÍNGUA
NO PÊNIS
NO ÂNUS
NA CABEÇA.

ALUCINADO
O CORPO TREPIDA
NO PAU DE ARARA
ESCARRANDO SANGUE.

O SARGENTO,
AQUELE QUE GIRA O DÍNAMO
RI.

DISCURSO DO MÉTODO

OS MÉTODOS DA GESTAPO

GESTAPO
GESTAPO
GESTAPO

ESTÃO ULTRAPASSADOS,
ULTRAPASSADOS.

– ESTAMOS PESQUISANDO
PESQUISANDO
PESQUISANDO

A SANTA INQUISIÇÃO
A SANTA INQUISIÇÃO

– ESTAMOS PESQUISANDO A SANTA
INQUISIÇÃO.

LUZ

LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

AZUL
FORTE LUZ.

LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

A CABEÇA NÃO PODE BAIXAR
AS PÁLPEBRAS NÃO PODEM CERRAR.

LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

AZUL
FORTE LUZ.

LUZ
DE AZUL, FORTE LUZ.

DO NADA,
SURGINDO DO NADA
UM SOCO

ME CALA.

SURGINDO DO NADA
UM SOCO

ME CALA.

SEGUNDA ANUNCIAÇÃO

TEU FILHO
TEU FILHO
TEU FILHO
NÃO NASCERÁ.

TEU FILHO
FILHO DESSA RAÇA
FILHO DESSA RAÇA
NÃO DEVE NASCER.

NÃO DEVE NASCER
NÃO DEVE NASCER.

FILHO DESSA RAÇA
NÃO DEVE NASCER.

TEU FILHO
FILHO DESSA RAÇA
FILHO DESSA RAÇA
NÃO DEVE NASCER
NÃO DEVE NASCER.

DE UM TEMPO QUE ESTÁ POR VIR

Precisão de uma noticia
Ou de um gole de cachaça.
Mas a noticia não vem
E a cachaça queima a garganta.
Hibernar não posso
Que a ciência não chegou a tanto.

Preciso de uma boa noticia,
Que fale dos cabelos da mulher
Vindo para se enroscar na minha cama
E apagar a solidão.

Chega de prisões!
Cantos de tortura e alimento de abutres!
Não precisamos de heróis chorando
E morrendo nos calabouços!

Preciso de uma boa noticia
De um tempo que esta por vir,
De uma noite de luta, estrelada,
Derramando-se sobre um mundo de paz.

A matinta-pereira já se foi.
A curupira nunca mais atacou ninguém.
Todas as assombrações foram enterradas.
Homens, mulheres e crianças já podem entrar no mato
Sem medo.

PEQUENO POEMA PARA MINHA MÃE

A noite cai no Araguaia e penso em ti, minha mãe.
Minhas botas estão sujas pelos dias com meus companheiros,
mas meu coração está limpo
e sereno
e minhas lembranças estão em combate.
Escrevo-te como filho parido no cárcere e em Xambioá,
pequena mãe,
ainda escutamos os sussurros da vida futura.
Bem quisera beijar-te o rosto luminoso,
e dizer-te, como quem entoa rouxinóis,
que vencemos os matadores de crianças,
os pusilânimes da tortura e da morte anunciada,
os algozes das masmorras do Planalto,
os pústulas do obscurantismo e da infelicidade geral de nosso povo.
E vencemos, querida mãe,
o ministro do Garrastazu, que como lobo rodeava-me,
com sangue nas mãos e as presas afiadas
e este dizia: “Filho desta raça não deve nascer”.
Mas nascemos, filhos do povo, às centenas
aos milhares
aos milhões.
E como vão meus irmãos?
E Ronaldo periquito, gerado na prisão
e o roqueiro guerrilheiro João?
A noite cai e penso em ti, minha mãe.
Minhas botas estão sujas pelos dias com meus companheiros,
mas meu coração está limpo e sereno
e nutro grandes esperanças.
Sou todo combate.

TRECHOS DO RELATO DE PAULO FONTELES

Relato na íntegra aqui.

(…)

Fui levado diretamente para o Pelotão de Investigações Criminais, PIC, da Polícia do Exército de Brasília. No caminho já fui levando socos, tapas, telefones56, coronhadas, sendo ainda informado que a minha mulher Hecilda, grávida de cinco meses, também já estava presa.
O PIC é o inferno. Nele, conheci logo a “salinha” sala de estar dos sargentos, onde eram promovidas as torturas a todos que eram presos no PIC. Sem que me fizessem uma só pergunta, “só para arrepiar”, na gíria dos torturadores, experimentei na carne toda a selvageria do aparelho de repressão montado desde 1964. Inicialmente um brutal espancamento, murros, telefones, tapas, chutes no estômago, cacetadas nos joelhos e nos cotovelos, pisões nos rins. Depois, apesar de meu esforço para resistir, tiraram-me as roupas, deixando-me completamente nu, amarraram-me no pau-de-arara, e passaram a me aplicar choques elétricos, com descargas de 140 volts, na cabeça, nos órgãos genitais, na língua.
Depois de muito tempo é que começaram as perguntas. Como eu não lhes respondia, a “sessão” durou até alta madrugada, quando, já bastante machucado, fui arrastado e atirado dentro de uma cela. Entre outros, participaram dessa primeira sessão o delegado Deusdeth, da PF, o sargento Ribeiro, o sargento Vasconcelos, o sargento Arthur, cabo Torrezan, cabo Jamiro, soldado Ismael, soldado Almir, todos esses do Exército.

(…)

Cedo, um destacado elemento da tortura do PIC, o cabo Martins, foi me buscar na cela, Colocou-me um negro capuz e levou-me para a “salinha”. Durante quase três dias seguidos, quase sem interrupções, fui submetido às mais diversas formas de violências físicas que se possa conceber. Nu, pendurado pelos pulsos e tornozelos no pau-de-arara (uma barra de ferro, sobre dois cavaletes, onde o preso fica dependurado, assim como se fosse um porco que vai ao mercado), recebendo espancamentos generalizados, choques elétricos, afogamentos.

No pau-de-arara, o preso ainda tem força na primeira hora para sustentar o peso do corpo, Com o tempo, todavia, o corpo vai sendo puxado para baixo e começa uma doloríssima distensão dos braços e das pernas. Parece que os ossos vão se partir, todos.

O choque elétrico é particularmente terrível na cabeça. Na bolsa escrotal, é como se ela estivesse sendo esmagada dentro de uma prensa. O choque elétrico, além de ser, em si, terrível, provoca uma contração alucinada dos dentes, que me cortava toda a língua. A cada descarga uma golfada de sangue tingia o capuz. Para aumentar os efeitos das descargas, obrigavam-me a comer sal. Minha boca ficou toda queimada. O afogamento era feito com a infiltração de água na minha boca e nas narinas através de mangueiras de borracha. Eu sufocava e estertorava. Tudo isso no pau-de-arara. Nesses dias revelou-se particularmente perverso o sargento Ribeiro. Ele ria e cantava. No sábado de manhã eu já estava completamente exangue. Quase não mais sentia dor. Apenas uma vontade de descansar.
Então, na primeira oportunidade que tive, ao me descerem do pau-de-arara, girei o corpo e dei com a testa no chão. Desmaiado e sangrando fui então levado para a cela, onde pude finalmente descansar. Devido a esses três dias eu ficaria com o braço direito e a perna esquerda paralisados durante quase três meses.

(…)

Durante cinco dias fui novamente submetido a um infernal processo de tortura. Dentro do próprio Ministério do Exército. Desta vez não mais para o pau-de-arara, o afogamento, o choque elétrico, que estes não haviam dado resultado. O que eles pretendiam era minar nossa coragem, nossa disposição de resistir, nossa dignidade. Tudo fizeram: insultavam-nos de pai e mãe desnaturados, que estávamos matando a criança que Hecilda trazia no ventre. Que eu devia pensar na minha mulher, no que ela estava passando. Mostravam-nos telegramas de Belém (falsos, é claro), segundo os quais o pai de Hecilda estava morto e o meu enfartado, à morte por saberem de nossas prisões. E durante cinco dias não houve um único momento de descanso. Não deixavam que nós dormíssemos, através de interrogatórios contínuos. Um atrás do outro, em revezamento de hora em hora, mais de uma centena de torturadores nos inquiriam. Obrigavam-me a ficar horas e horas me arrastando em círculos numa pequena sala, quando não obrigado a fazer movimentos com a cabeça de um lado para o outro. Qualquer momento de paralização era respondido com socos e espancamentos. Através de um vidro, mostravam-me a Hecilda apanhando no rosto e nas pernas, grávida de cinco meses61. Nos últimos dois dias os interrogatórios eram feitos com um grande holofote de luz azul, muito intensa, que me cegava. Desmaiei várias vezes, mas sempre que isso acontecia eles me levantavam com amoníaco. Finalmente, na sexta-feira, caí e não me levantei mais. Disseram-me depois que fui levado para uma enfermaria e medicado. Voltei a mim no domingo de tarde dentro de uma cela do PIC.

O impasse estava criado. Eles já tinham esgotado os meios de tortura que era possível nos inflingir em Brasília. E continuávamos afirmando que éramos estudantes que repudiávamos qualquer acusação de terroristas, que não iríamos comprometer ninguém.

Durante uma semana a situação ficou inalterada. Faziam-nos as mais terríveis ameaças, desde a volta pura e simples para a tortura até o puro e simples fuzilamento. Numa ocasião nos foi mostrada uma notícia de nossas mortes, que seria levada aos jornais. Pela sua redação éramos dois terroristas atropelados ao tentarmos fugir de um ponto de encontro. Todavia, uma ameaça era mais constante, a de que seríamos levados para o Rio de Janeiro, onde um verdadeiro Centro Científico de Torturas havia sido montado.

(…)

Na Barão de Mesquita, o DOI-CODI dispensou-me as duas primeiras fases. Tiraram-me as roupas, vestiram-me um pequeno macacão-bermuda e atiraram-me na chamada Câmara do Vietnan. Era um cubículo de mais ou menos 2,00 x 1,0 metros, formado por paredes de um material semelhante ao eucatex, totalmente escuro, dentro do qual não se vê nem a palma da mão. Este cubículo está dentro de um outro maior, de cimento. Lá dentro intercalam-se silêncio total com sons eletrônicos altíssimos, como os de uma sirene fracionada, utilizadas pelas rádios-patrulhas. De instante a instante silêncio e sons, sons e silêncio. Conversando com psicólogos mais tarde, soube que era a utilização de dois estímulos contrários para desordenar mentalmente o indivíduo.

Dentro dessa câmara perde-se completamente a noção do tempo. Em poucas horas não se sabe mais há quanto tempo se está ali dentro.

Não há ponto de referência. Ao mesmo tempo não se pode dormir. Para evitar a escuta dos sons tentei vedar meus ouvidos com um pedaço do macacão. Mas eles estavam fora me vigiando e me tiraram o macacão. Assim nu, sem comer, sem beber, sem poder dormir, ou mesmo fazer qualquer necessidade fisiológica, sob o risco de ser obrigado a engolir qualquer coisa que expelisse, sentindo-me dentro do meu próprio esquife, após três dias (conferi as datas depois), comecei a ter acessos de delírio. Foi a pior experiência que tive. Saber-me ficando louco. Ouvia minha mulher me chamando, meu pai, minha mãe, meus irmãos, na longínqua Belém. De repente caía em mim e percebia que estava tendo delírios. Que ninguém poderia me chamar, porque eu estava enterrado vivo.

Quando entrara na câmara tive um pensamento, que registro textualmente, passados quase sete anos: se me trouxeram de Brasília para o Rio para me colocar aqui dentro, isso eu vou tirar de letra. Na verdade, três dias depois perdi completamente o controle.

(…)

Então mais uma vez a tortura desabou, e desta vez tão furiosamente que terminaria pela tentativa dele me assassinar. Ameaça de estupro da Hecilda, que havia em fevereiro dado a luz ao nosso filho. Choque elétrico, pau-de-arara, afogamento etc… No auge da sua histeria, esse torturador, que se gabava de não ter escrúpulos, avançou para mim, dizendo que ia me matar. Eu estava de joelhos no chão, com as mão amarradas ao calcanhar. Ele pegou um cassetete, desses de choque de rua, com mais de um metro, e deu-me com ele, com toda a sua força, com as duas mãos, na cabeça, endereçando a pancada à base do crânio. Minha sorte foi que no exato momento da pancada levantei a cabeça, sendo atingido logo acima da testa, o que “apenas” ocasionou a fratura do osso, sem as conseqüências da morte. Depois esse mesmo torturador foi me acusar de tê-lo feito perder a paciência.

Fui julgado e condenado, numa verdadeira farsa, a um ano e oito meses de prisão. A Hecilda foi condenada a um ano. Por mais que eles pretendessem, não conseguiram acusar-nos de terroristas. As ações que teriam configurado meus delitos foram meia dúzia de reuniões vinculadas à Ação Popular Marxista Leninista do Brasil, uma panfletagem dentro da UnB contra o governo, uma pichação em Brasília contra a pena de morte e a tentativa de reorganizar a União Nacional dos Estudantes na Universidade de Brasília.

Vimos cumprir o resto da pena em Belém, onde ficamos inicialmente na Cadeia Pública de São José. Posteriormente, com a Hecilda já em liberdade, fui transferido para o Batalhão de Guardas da Polícia militar da Gaspar Viana, onde cumpri minha pena até o último dia. Durante três a quatro anos fui perseguido por pesadelos noturnos. Mas, como diz o verso de Paulo César Pinheiro: Eles me prendem vivo, eu escapo morto.


Alex Polari de Alverga (Brasil, 1951)

Alex Polari de Alverga nasceu em João Pessoa, em 1951 e participou da luta armada contra a ditadura militar na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) que realizava ações armadas contra o regime militar e lutava pela liberação de presos políticos. Foi um dos principais responsáveis pelo sequestro do embaixador alemão, nos anos 1970. Foi preso no DOI-CODI em 1971 e barbaramente torturado. Polari sobreviveu para denunciar ao próprio Tribunal Militar o assassinato de Stuart Angel (filho da estilista Zuzu Angel) retratado no poema “Canção para Paulo” e as torturas que sofreu e presenciou.

Em 1978, ainda preso, lançou seu primeiro livro de poesia: “Inventário de Cicatrizes”. Em 1980 foi finalmente libertado e se envolveu com o Santo Daime, não escrevendo mais poemas.

A poesia de Polari é coloquial, direta, despojada e bem humorada, apesar de profundamente marcada pela experiência da clandestinidade, do cárcere, da tortura. Abaixo uma pequena seleção que fiz… incluindo o poema “Amar em aparelhos” que, pra mim, é de seus melhores. (“Aparelho” é como os militantes chamavam as casas em que atuavam clandestinamente).

DIA DA PARTIDA

Aí eu virei para mamãe
naquele fatídico outubro de 1969
e com dezenove anos na cara
uma mala e um 38 no sovaco,
disse: Velha,
a barra pesou, saiba que te gosto
mas que estás por fora
da situação. Não estou mais nessa
de passeata, grupo de estudo e panfletinho
tou assaltando banco, sacumé?
Esses trecos da pesada
que sai nos jornais todos os dias.
Caiu um cara e a polícia pode bater aí
qualquer hora, até qualquer dia,
dê um beijo no velho
diz pra ele que pode ficar tranqüilo
eu me cuido
e cuide bem da Rosa.
Depois houve os desmaios
as lamentações de praxe
a fiz cheirar amoníaco
com o olho grudado no relógio
dei a última mijada
e saí pelo calçadão do Leme afora
com uma zoeira desgraçada na cabeça
e a alma cheia de predisposições heróicas.
Tava entardecendo.

AMAR EM APARELHOS

Era uma coisa louca
trepar naquele quarto
com a cama suspensa
por quatro latas
com o fino lençol
todo ele impresso
pelo valor de teu corpo
e a tinta do mimeógrafo.

Era uma loucura
se despedir da coberta
ainda escuro
fazer o café
e a descoberta
de te amar
apesar dos pernilongos
e a consciência
de que a mentira
tem pernas curtas.

Não era fácil
fazer o amor
entre tantas metralhadoras
panfletos, bombas
apreensões fatais
e os cinzeiros abarrotados
eternamente com o teu Continental,
preferência nacional.

Era tão irracional
gemer de prazer
nas vésperas de nossos crimes
contra a segurança nacional
era duro rimar orgasmo
com guerrilha
e esperar um tiro
na próxima esquina.

Era difícil
jurar amor eterno
estando com a cabeça
à prêmio
pois a vida podia terminar
antes do amor.

CANÇÃO PARA “PAULO” (À STUART ANGEL)

Eles costuraram tua boca
com o silêncio
e trespassaram teu corpo
com uma corrente.
Eles te arrastaram em um carro
e te encheram de gases,
eles cobriram teus gritos
com chacotas.

Um vento gelado soprava lá fora
e os gemidos tinham a cadência
dos passos dos sentinelas no pátio.
Nele, os sentimentos não tinham eco
nele, as baionetas eram de aço
nele, os sentimentos e as baionetas
se calaram.

Um sentido totalmente diferente de existir
se descobre ali,
naquela sala.
Um sentido totalmente diferente de morrer
se morre ali,
naquela vala.

Eles queimaram nossa carne com os fios
e ligaram nosso destino à mesma eletricidade.
Igualmente vimos nossos rostos invertidos
e eu testemunhei quando levaram teu corpo
envolto em um tapete.

Então houve o percurso sem volta
houve a chuva que não molhou
a noite que não era escura
o tempo que não era tempo
o amor que não era mais amor
a coisa que não era mais coisa nenhuma.

Entregue a perplexidades como estas,
meus cabelos foram se embranquecendo
e os dias foram se passando.

INDAGAÇÕES I

Quando me interessei pelo mundo
e procurei o sentido da vida
a ética dependia da pontaria
a certeza era fácil
estava mais nas entranhas
e no coração
do que nos livros.
Hoje a coerência dos sistemas
me parece ridícula
e se nos livramos
de uma certa pressa
entendendo melhor
a vida e a teoria,
isso não significa que o problema da opção mudou.

IDÍLICA ESTUDANTIL

Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
agente se corta.

SEMÂNTICA EXISTENCIAL

Debaixo da janela de minha cela
desfilam a 1ª Companhia, a 2ª Companhia,
a 3ª Companhia e as demais companhias
que não solucionam minha solidão

ZOOLÓGICO HUMANO

o que somos
é algo distante
do que fomos

ou pensamos ser.
Veja o mundo:
ele se move
sem nossa interferência
veja a vida:
ela prossegue
sem nossa licença
veja sua amiga:
ela se comove
por outros corpos
que não o seu.

Somos simplesmente
o que é mais fácil ser:
lembrança
sentimento fóssil
referência ética
apenas um belo ornamento
para a consciência dos outros.

A quem interessar possa:
Estamos abertos à visitação pública
sábados e domingos
das 8 às 17 horas.

Favor não jogar amendoim.

TRILOGIA MACABRA (I – O TORTURADOR)

O torturador
Difere dos outros
Por uma patologia singular
ser imprevisível
vai da infantilidade total
à frieza absoluta.

Como vivem recebendo
Elogios e medalhas
Como vivem subindo de posto,
Pouco importam pelos outros.
Obter confissões é uma arte
O que vale são os altos propósitos
O fim se justifica,
Mesmo pelos meios mais impróprios.

Além de tudo o torturador,
Agente impessoal que cumpre ordens superiores
No cumprimento de suas funções inferiores,
Não está impedido de ser um pai extremoso
De ter certos rasgos
E em alguns momentos ser até generoso.

Além disso acredita que é macho, nacionalista,
Que a tortura e a violência
São recursos necessários
Para a preservação de certos valores
E se no fundo ele é mercenário
Sabe disfarçar bem isso
Quando ladra.

Não se suja de sangue
Não macera nem marca,
(a não ser em casos excepcionais)
o corpo de suas vítimas,
trabalha em ambientes assépticos
com distanciamento crítico
– não é um açougueiro, é um técnico –
sendo fácil racionalizar
que apenas põe a serviço da pátria
da civilização e da família
uma sofisticada tecnologia da dor
que teria de qualquer maneira
de ser utilizada contra alguém
para o bem de todos.

Pedro Tierra (Hamilton Pereira)




[…]
Porque sou o poeta
dos mortos assassinados,
dos eletrocutados, dos “suicidas”,
dos “enforcados” e “atropelados”,
dos que “tentaram fugir”,
dos enlouquecidos.

[…]

meu ofício sobre a terra
é ressuscitar os mortos
e apontar a cara dos assassinos. […]”
(Poema-prólogo, Pedro Tierra)

Graças a generosidade de uma amiga-camarada que, diante do meu insistente clamor, me emprestou seu recém comprado “Poemas do povo da noite”, estou podendo conhecer a poesia de Pedro Tierra. 🙂

Pedro Tierra foi preso pela ditadura em 72 acusado de “subversão” por sua ação junto à ALN (Ação Libertadora Nacional). Foi apenas libertado em 77, após passar por diversas prisões e por longos períodos de tortura. Foi através da poesia que Tierra conseguiu manter sua humanidade nos porões da ditadura:

“Era, então, a maneira de poder me olhar no espelho sem enlouquecer.”

Seus poemas descrevem sua resistência, sua luta pela vida nos calabouços, superando a tortura física e a tristeza de acompanhar o assassinato de diversos companheir@s (grande parte dos poemas são dedicados a companheiros e companheiras de cela e prisão assassinados.) Para escrever na cadeia teve que roubar lápis dos torturadores e escrever com letra miúda no papel dos maços de cigarro. De início, mandava seus poemas na cartas, mas estes eram interceptados pela censura. Passou então a utilizar um subterfúgio: escrevia dizendo que adorava muito as poesias de um poeta latino-americano chamado Pedro Tierra do qual transcrevia poemas selecionados (que eram seus próprios… na verdade, seu verdadeiro nome é Hamilton Pereira… mas, desde então, Pedro Tierra passou a ser seu pseudônimo). Mas, a maior parte de suas poesias saíam mesmo escondidas dentro de canetas bic. Uma primeira edição mimeografada, com prefácio do padre e poeta Dom. Pedro Casaldáliga, rodou clandestinamente o Brasil com Hamilton ainda preso e foi se tornando símbolo da luta pela anistia. “Poemas do povo da noite” recebeu, em 78, menção honrosa no prêmio Casa das Américas, de Cuba, e seguiu ganhando fama internacional sendo traduzida para diversas línguas.

Hamilton Pereira, ou Pedro Tierra, continua escrevendo e é militante do PT.

“Será que alguém já publicou nestes dez últimos anos de poesia e de noite, no Brasil, um livro de poemas mais verdadeiros, versos mais comprometidos com a vida, com a morte, com o Povo?” Dom Pedro Casaldáliga

Abaixo alguns poemas que me atraíram numa primeira aproximação:

HÁ UM LUGAR NA BARRICADA

Quando o povo bater à porta,
não te encontre com as mãos
vazias.

Confere as coisas embaladas: não
se permitem dúvidas nas bagagens
de guerra.

Se entre os companheiros ainda
há quem pergunte a razão
dos poetas,

encontra, primeiro, teu lugar na
barricada, depois, entre os combatentes,
aponta

o rosto enérgico de tua poesia.

TECENDO O CANTO

“… Hemos sembrado la tierra con muertos que sin duda florecerán…”
Alberto Szpunberg

Recolho no ar teu verso claro
à maneira dos cantadores
do meu país.

Hoje, silenciosa, a terra trabalha
seus mortos como quem nutre
sementes de luz.

Possa algum perseguido,
encerrado nos calabouços
da América

alcançar meu verso humilde
e comporemos o vasto coro
dos oprimidos.

Não importa que hoje nos tremam os lábios
e a voz caminhe incerta
pela garganta,

se amanhã o canto
romperá na boca
de milhões.

Recolho entre as mãos teu verso
como o fuzil do companheiro
tombado.

Não importa que o corpo
de cada morto plantado
tarde a florescer.

DOMINGO

Um dia silencioso.
Um desses dias frios,
de mortal tristeza,
o gesto de ódio fechado nos armários.

Um dia sem tortura normal
dos dias comuns.
No ar apenas a tensão palpável
dos seres sem defesa.

Um dia rigorosamente inútil.
Mas vem agora essa cantiga.
Uma vozinha miúda,
vinda não sei de onde,

e é como se todos a esperássemos.
Sabe tornar maior ainda o silêncio:
aqui um ato de amor
é sempre um desafio.

Como reconforta ouvir a voz
dessa menina sem nome.
Saber que resiste o brilho de seus olhos
iluminando a noite,

enquanto outras estrelas se reúnem
buscando nova luz.
Saber que a critatura humana resiste.
Saber que vencemos a última batalha.

OS MATERIAIS

Eu quis a palavra reta
feito faca.

Eu fiz do verso o corte branco
do metal.

O lento sal dos anos
não lhe roube o fio.

O inimigo não possa
empunhá-lo durante a luta.

Se o carrasco, algum dia,
levar aos lábios meu poema,

o vidro claro do verso
lhe corte a boca.

E a palavra não se renda
à tortura.

E quando eu disser: pedra,
não se entenda pão.

Quando eu disser: noite,
se encontre nela todo poder de treva.

Quando eu disser: eis o inimigo,
mate-o antes do amanhecer.

E ME INTERROGO…

Chego ao final do poema
e me pergunto
estará aí o material proposto?

Reconheço, o suor do corpo
talvez tenha roído
o fio do material.

Terei garantido o corte do verso?
Ou se perdeu a palavra
numa rede de lamentos?

Teus versos têm a mesma roupagem,
dirão. Certamente, responderei,
como os soldados em marcha.

Possa meu poema acender em cada um
alguma coisa além das fogueiras
que iluminam a frente de batalha…