V.I. em seu escritório, a sós


Lênin chega à estação Finlândia-Rússia, voltando de seu exílio suiço. Em seu discurso na própria estação defende, contra a opinião de todos do partido, a necessidade de levar a revolução adiante.


Abaixo um pequeno poema do “Livro Vermelho para Lênin” do poeta Roque Dalton. Pra mim, esse poema descreve o momento em que Lênin, exilado em Berna, na Suíça, diante dos dilemas teóricos e concretos do processo revolucionário russo, decide estudar a obra mais difícil de Hegel: A Lógica. Por que exatamente estudar Hegel em um momento tão turbulento? “Ora, Lênin sentiu a necessidade de buscar pressupostos científicos e filosóficos para fundamentar em um novo patamar teórico suas posições políticas. Tudo indica que, ao procurar Hegel, o dirigente russo não queria politizar a filosofia mecanicamente, mas teorizar a política dialeticamente. Em certo sentido seguia os passos de Marx, que sentira a necessidade de voltar à Ciência da Lógica antes de redigir O Capital.” (trecho do texto de Cristiano Capovilla)

Depois da absorção da dialética em nível mais profundo, Lênin volta para a Rússia certo de que a tomada do poder deveria ser levada a cabo… convence seus companheiros de partido ao longo de debates e mais debates (todos eram contrários a tomada do poder naquele momento) e a revolução russa tem início. Pra mim, esse poema descreve esse momento único na história da humanidade, em que Lênin, lendo a Lógica de Hegel compreende num mais profundo nível a dialética viva da história e percebe a necessidade de fazer a revolução mesmo que as condições históricas aparentes não indicassem essa possibilidade.

V.I. EM SEU ESCRITÓRIO, A SÓS

A Jesús Diaz

Pensar em plena meianoite histórica:
oh fogo cordial na casa que cresce
em meio à tempestade,
oh vibração que salva a vigília,
oh rio que saúda o deserto invadindo-lhe.

Dois olhos vivos,
microscopiantes e telescópicos
no lago de luz da pequena lamparina.

E o livro.

O livro,
um amigo-inimigo,
um irmão exigente,
um desafio ou uma armadilha,
uma arma, um trampolim,
uma semente crítica.

E a página branca,
como toda a história da terra
serva dos próximos minutos.

“Lênin foi um poeta, irmão, um poeta”


“Quatro pequenas histórias” abre “Um livro vermelho para Lênin” do poeta guerrilheiro Roque Dalton. Esse “poema” em quatro partes aparece antes mesmo do prólogo onde vai explicar o que se propõem a fazer com o livro. Logo, “Quatro pequenas histórias” funciona quase como uma epígrafe no livro, onde ele vai lançar um pequeno panorama, já polêmico, sobre Lênin. Com a história 1, Dalton nos diz querer fugir do lugar-comum-Lênin usando palavras sólidas, concretas (a questão da concretude volta na última história); na história 2, ironiza sua inocente aproximação das idéias e dos feitos do líder bolchevique; na história 3, Roque nos oferece um mosaico de apresentações sobre quem foi Lênin, frases e trechos que vão da direita à ultra-esquerda (apenas uma das frases não aparece com aspas, o que nos indica que é sua própria voz) Seria legal tentar descobrir quem proferiu cada umas dessas frases… algo pro futuro; e, por fim, na história 4, fala da contribuição de Lênin, um lutador que deu coração à verdade, deu carne e vida à luta. Dalton faz questão de mostrar como Lênin, ao contrário do que se diz dele, é um pensador de extremo dinamismo, pois entende a verdade como concreta: não concreta como um pedra, mas concreta como a própria luta de classes. Uma bonita abertura para o livro, já apontando o que nos espera.

1
Quatro pequenas histórias

“Um homem passou pela terra
e deixou seu coração ardendo entre os homens…
Tua morte criou um aniversário
maior que o aniversário de uma montanha…

Contigo a morte se faz maior que a vida…
Desde hoje nosso dever é defender-te de ser Deus.”
Vicente Huidobro

I
As palavras

É fácil dizer
o maior homem deste século
expor as palavras como flâmulas
porque outra festa vai começar
o mais humano o mais simples
coração do pensamento e
pensamento do coração
(incitados simplesmente a nos alegrar
o coração feito um jovem acordeón
para hinos e loas)
o que mais construiu
o que melhor ensinou a destruição construtiva
e a simples construção baseada no trabalho.

Porque a um homem como ele
se pode acudir tranquilamente com um lugar comum
com uma sentença tirada dos livros sagrados
ou com o que diz uma criança ao despertar.

No entanto
queremos para nomeá-lo palavras sólidas
que resistam em meio à noite
aos novos ventos do mundo
palavras filhas de suas palavras
fundadoras
pétreas
incomovíveis
preparadas para a luta e para a fraternidade
para a luta da fraternidade

As palavras não para a dança
ou declamação em nosso mundo urgente
senão para desentranhar a sede
o grito
o proclamado “Basta já!” dos famintos
mestiços pela obscuridade da exploração
e para a luz da fúria

As palavras para o canto das consciências

II
Em 1975 eu vi a Lênin em Moscou (I)

E escrevi então um poema com pedidos muito íntimos, de acordo completamente com os vintedois anos de idade de uma pessoa que desejaria ter toda a vida vintedois anos de idade:

“Para os campesinos de minha pátria
quero a voz de Lênin.

Para os proletários de minha pátria
quero a luz de Lênin.

Para os perseguidos de minha pátria
quero a paz de Lênin.

Para a juventude de minha pátria
quero a esperança de Lênin.

Para os assassinos de minha pátria,
para os carcereiros de minha pátria,
para os que que desdenham minha pátria,
quero o ódio de Lênin,
quero o punho de Lênin,
quero a pólvora de Lênin.”

Eu era ainda católico militante e, no entanto, antes de regressar a El Salvador, depois de uma longa travessia soviético-européia, fui interrogado ao sair de Lisboa, impedido de descer a terra em Barcelona e nas Ilhas Canárias, perseguido em Caracas (onde desembarquei por erro das autoridades pérez-jimenistas do porto de La Guaira), detido pelo FBI no Panamá, etcétera. Comecei a saber que Lênin, e tudo que se relacionava com ele era algo muito sério. Muito sério.

III
Concurso no Terceiro Mundo

“Me perguntam quem foi Vladimiro Ilich Uliánov, chamado Lênin, ou mais bem dito Ene Lênin, que era o pseudônimo que usara na clandestinidade e para assinar muitos artigos. Como todo o mundo sabe, Lênin foi quem aplicou o marxismo ao problema da tomada do poder na Rússia e à construção do primeiro Estado proletário do mundo. Mas não é isso o mais importante. Em seu livro fundamental, Materialismo e empirocriticismo, página 52 da edição Rússia, Lênin disse…”

“Lênin? O anticristo, sem dúvida. Tenho um pequeno opúsculo, com base rigorosamente bíblica, que o prova terminantemente.”

“Lênin, como Jesuscristo, era uma visão evoluída, no sentido de Teilhard de Chardin, do amor.”

“O camarada Lênin foi o genial discípulo e continuador de Marx, mestre do camarado Stalin, fundador da pátria do proletariado mundial, pai de todos os trabalhadores do mundo.”

“Lênin foi simplesmente um homem sério e disciplinado. Um homem de sentido comum. Ou seja: todo o contrário de um aventureiro. O que passa é que essas virtudes tão necessárias em um dirigente se encontram já juntas nestes tempos.”

“O companheiro Lênin foi, como todo estudioso sabe, antes de tudo, o autor do par de livros mais importantes da história do pensamento econômico moderno: O desenvolvimento do capitalismo na Rússia e O imperialismo, fase superior do capitalismo.

“Lênin foi o fundador da teoria da revolução permanente.”

“Lênin é a liberdade do homem na história. Um símbolo.”

“Lênin foi o homem novo que, como todo o mundo sabe, existiu sempre…”

“O camarada Lênin foi quem ordenou aos destacamentos revolucionários para se armarem “por si mesmos e com o que podiam (fuzil, revólver, bombas, facas, luvas, garrotes, cordas ou escadas de corda, pás para construir barricadas, minas de piroxilina, arames de puas, pregos contra a cavalaria, etcétera, etcétera)”. E foi quem agregou: “Em nenhum caso se deverá esperar a ajuda indireta, de cima, de fora: tudo deverá obter-se por meios próprios” (1905)”.

Lênin foi a primeira vítima importante de Stálin.

“Lênin? (Tosse). Bom, depois da paz de Brest…”

“Lenine foi o grande amigo e camarada (em sentido dialético) de León Trotsky”.

“Lênin foi quem formulou, em essência, a teoria do foco insurrecional.”

“Lênin salvou o bolchevismo do trotskismo.”

“Lênin? Uma formidável força moral. Não existirá outro Lênin e a autêntica revolução não poderá fazer-se em um país incapaz de produzir um Lênin. Não digo eu em nosso, em que um mínimo sentido de decência nos obriga aos revolucionários a renunciar aos êxitos de uma larga vida política, irreprovável e clara, e preferir o duro retiro e a meditação nas aras do dever moral de hoje, expulso das ruas e refugiado nos corações individuais dos fortes de espírito… (Tosse grave)”.

“Lênin: uma psicologia interessantíssima, com muito de oriental…”

“Lênin foi um poeta, irmão, um poeta”.

IV
A verdade é concreta

(a)

Tu destes um coração de carne e sangue à verdade
mas nos advertiu que funcionava
como uma bomba de tempo
ou como uma maçã.

Que poderia servir para voar a maquinaria do ódio
mas que também poderia apodrecer.

(b)
Ai dos que crêem que porque a verdade é concreta
ela é somente como uma pedra, como um bloco de concreto ou um ladrilho!

Uma bicicleta,
um jato,
uma astronave,
são coisas concretas como a verdade.

O mesmo que um quebra-cabeça.
E um combate corpo a corpo.

Dalton e Lênin!


Caderno que Roque usava pelo mundo afora (e na guerrilha) para escrever suas poesias. Clique para ampliar.

Abaixo a tra(b)dução de um poema do poeta guerrilheiro Roque Dalton que li num momento muito forte, daqueles momentos que te fazem sentir a beleza brilhante dos caminhos que se cruzam, que tudo é tanto (e ainda tão pouco). Esse poema está no livro “Un libro rojo para Lenin” do qual estou profundamente incubido de traduzir… esse livro é um dos livros mais ousados de Dalton, um ‘poema-collage’, como ele mesmo intitula, onde, através de fragmentos em prosa, em poesia, citação de documentos oficiais de Lênin, diálogos imaginários entre grandes personagens históricos, Roque faz uma homenagem desafiante a Lênin, quebrando toda a respeitosa-ortodoxia para tratar o leninismo (Dalton estudou longamente Lênin para fazer esse livro, construído ao longo de anos em vários países). Dalton queria, ao mesmo tempo, proteger o pensamento leninista do uso vulgar que ganhava espaço na União Soviética (Stalin) e levar adiante a reflexão de Lênin, colocando-a em contato com a realidade latinoamericana.

Roque Dalton e Lênin: maior tesão poético-revolucionário que isso?

Teria dito Otto René Castillo* pensando em Lênin

Ninguém vai à montanha buscar a glória. Ninguém
que não seja um imbecil, quero dizer. No fundo
ninguém elabora sua poesia pela glória. Ninguém
que seja um poeta, quero dizer. Admito
que os que vão à montanha, em ocasiões
se colocam o problema da morte eventual
em forma quase sensualista. Mas os poetas
costumam ser sensualistas e até obscenos, pode-se dizer.
Ir à montanha hoje na América Central
é aceitar o problema pessoal da vida e da morte
em uma proporção de sessenta por cento para a morte
e de quarenta por cento para a vida.
Assumir estas cifras
não é um desvio católico do marxismo. O inimigo
é mais forte que nunca porque nós
somos mais débeis e estamos mais divididos que nunca. Ir
à montanha é um ato político-militar
e não uma atitude poética tradicional. Se trata de por
uma pedra em nosso prato da balança
e não de uma efusão espiritual. Assim
cada um é livre para ir-se à montanha com
sua poesia, suas efusões espirituais, seus amuletos**.
Na verdade, as unidades guerrilheiras transbordam de poesia,
efusões espirituais e amuletos, mas se servem mais
e melhor da boa pontaria, da resistência física e das facas de caça.
Estas são algumas verdades que honram sobremaneira ao poeta guerrilheiro.
Em geral, é certo que o sacrifício
que não tenha uma eficácia real na história é idiota.
Creio que esta é uma conclusão de espírito leninista.
Porém, quem pode saber antecipadamente o que terá
eficácia real na história? Tratar de obter essa eficácia
arriscando a vida é a maior grandeza do homem.
O camarada Lênin estaria de acordo. Ele, que sempre
nos buscou a mística chaga da dignidade e da honra.
Ele, que vive em suas palavras unicamente para aqueles
que vão mais além das palavras.

* Otto René Castillo foi um poeta guerrilheiro da Guatemala amigo de Roque Dalton. Otto foi assassinado nas montanhas, na guerrilha para libertar seu país.

** A palavra original é ‘guardapelos’, daqueles pingentes que se pode abrir e ver uma foto dentro… geralmente trocados entre amantes… não achei um termo equivalente em português. Pensei em ‘relicário’, ou ‘pingente’ mesmo… mas senti que ‘amuleto’ transmitiria um pouco melhor a idéia que inferi do texto.