Zé Castanha e Maria do Espírito Santo

Abaixo um poema do querido Gera, de quem preciso selecionar uns poemas urgentemente pra divulgar aqui no Passarin! O poema trata do assassinato recente do casal de ambientalistas no Pará. Esse casal vinha denunciando a ação ilegal das madeireiras na região.

Zé Castanha e Maria do Espírito Santo

Foi assim
eles estavam no caminho de casa
na moto velha de guerra
talvez conversando sobre banalidades
dessas que a gente fala todo dia
o que fazer pra comer
o preço do leite
o filho doente
o futuro.

Então quase ninguém ouviu
vindos do escuro, escondidos,
os ruídos repetidos sem cessar
desde o descobrimento
da Nossa América.

A vida deve sempre
dar lugar ao progresso.
Não é o bagre bigodudo
presente só no afluente do afluente do grande rio,
não é só a castanheira, o açaizeiro,
é o homem, a mulher,
o casal que hoje não volta pra casa.

Vai ver prendem uns pistoleiros
depois de dois anos regime semi-aberto,
de mil dos poderosos prendem um,
aguarda os mil recursos em liberdade.

Antes fosse a lei da selva!

Agora quem vai tirar
da cabeça das pessoas
esse progresso-trator infinito,
vai arrastando tudo
mata-mata-mata
preto, branco, índio, mestiço
mata floresta
mata cerrado
mata água
mata terra
mata ar?

Zé Castanha não colhe mais,
o boi do desenvolvimento
quer pastar no seu quintal.
A Maria foi mesmo pro Espírito Santo,
deixou o caminho aberto
pra moto-serra zunir
e fazer do Brasil potência.

O futuro deles não veio,
o nosso está aí por fazer.

Poema de Geraldo Witeze (http://www.sobreaspalavras.blogspot.com/)

 

apesar

apesar
de tantos
sinais em contrário,
minha fé continua forte…
sigo crendo
na existência de vida
antes
da morte.

Pedido

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PEDIDO

carrega comigo
– amiga amigo –
esse sorriso rindo
de Emanuely Vitória
é tão imenso!
não cabe
no meu peito…
não passa
em minhas portas…
carrega comigo
– amiga amigo –
esse sorriso rindo
por entre as derrotas…
E só o soltemos
– com outros, imensos –
no dia em que a vitória
for nossa.
(foto de Emanuely Vitória morta pela Samarco/Vale/BHP no rompimento da barragem de Mariana)

Nada extraordinário


NADA EXTRAORDINÁRIO
(Hugo Fernández Oviol, Venezuela, 1927-2006)

Eu não peço nada extraordinário:
a ninguém disse, por exemplo,
corte sua mão direita
e me entregue entre fatias
de pão branco.

Por acaso disse a alguém:
esqueça o nome de tua mãe
e cave uma imensa sepultura
no ventre de teu irmão?

Não. Eu não pedi nada extraordinário
nem um só pode me desmentir
quando digo:
eu não pedi a ninguém
que arranque os olhos
para que o sol lamba
a cicatriz do pranto.

E mais,
a ninguém pedi ainda:
amamenta a metade de tua sede
para que me presenteie
a metade de tua água.

Eu simplesmente disse:
Não quero que meu irmão
sofra fome,
não quero que roubem
seu trabalho,
não quero que seja morto
em terra estranha…

E, no entanto,
há gente enfurecida
disposta a me quebrar
o violão,
empenhada em dissecar
minha voz
sobre o lenho escuro
de uma encruzilhada,
decidida a converter
meus ossos
em farinha amarga
e carcerária…

Eu não os compreendo, amigo,
eu não peço nada extraordinário.

(Tradução de Jeff Vasques

A Hora da Semeadura

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(foto do enterro de Cláudia Silva Ferreira assassinada covardemente por PMs no Rio de Janeiro)

A HORA DA SEMEADURA
(Manuel José Arce Leal, Guatemala, 1935-1985)

E não nos deixaram outro caminho.
E está bem que assim seja.
Recebemos o golpe na rosto,
o chute na cara.
E demos a outra face,
silenciosos e mansos,
resignados.

Então começaram os açoites,
começou a tortura.
Chegou a morte.
Chegou noventa mil vezes a morte.
A lavravam devagar,
rindo-se,
com alegria de nosso sofrimento.

Já não se trata somente de nós os homens.
O saque constante de nossas energias,
o roubo permanente do suor
em quadrilha, à mão armada, com a lei a seu lado.
Já não se trata somente da morte por fome.
Já não se trata somente de nós os homens.
Também às mulheres,
aos filhos,
a nossos pais e a nossas mães.
Os violam, os torturam, os matam.
Também a nossas casas,
as queimam.
E destroem as plantações.
E matam as galinhas, os porcos, os cães.
E envenenam os rios.
E não nos deixam outro caminho.
E está bem que assim seja.

Trabalhávamos.
Trabalhávamos além das forças.
Começávamos a trabalhar quando aprendíamos a caminhar
e não nos detíamos senão no momento de nossa morte.
Morríamos de velhos aos trinta anos.
Trabalhávamos.
O suor era um rio que se bifurcava:
de um lado se tornava miséria, fadiga e morte para nós:
do outro lado, riqueza, vício e poder para eles.
No entanto,
seguimos trabalhando e morrendo século após século.
Mas nem assim se abrandavam suas caras para nós.
Vieram com suas armas
e suas armas vieram para nos matar.
E não nos deixaram outro caminho.

E tivemos que empunhar as armas
também.
A princípio eram as pedras,
os galhos das árvores.
Logo, os instrumentos da lavoura,
as enxadas, os facões, as foices,
nossas armas.
Nosso conhecimento da terra,
o passo incansável,
nossa capacidade de sofrimento,
o olho que conhece e reconhece cada folha,
o animal que avisa,
o silêncio que aperta as mandíbulas.
Essas foram primero nossas armas.
Não tínhamos armas.
Eles sim tinham:
as compravam com nosso trabalho
e logo as usavam contra nós.

Agora temos armas:
as deles.
Quando vieram noturnos para nos matar
os enfrentamos,
caímos como raios
e tomamos as armas,
agarramos as armas.
Cada fuzil custa muitas vidas.
Mas são maiores as mortes que nos custa
se seguem nas mãos deles.
E não nos deixaram outro caminho.
E está bem que assim seja.

Porque desta vez
as coisas
vão mudar definitivamente.
Estão mudando.
Já mudaram.

Cada bala que disparamos leva
a verdade do amor por nossos filhos,
por nossas mulheres e nossos mais velhos
e pela terra mesma e por suas árvores.
E por isso há mulheres e crianças combatendo junto a nós.
Quando semeamos o milho,
sabemos que deverão se passar luas e sóis
até que a espiga sorria com seus grãos e se torne alimento.
E quando disparamos nossas armas
é como se semeássemos
e sabemos
que virá uma colheita.
Talvez não a vejamos.
Talvez não comeremos de nossa semeadura.
Mas ficam plantadas as sementes.
As balas que eles atiram só levam morte.
Nossas balas germinam,
se tornam vida e liberdade,
são metal de esperança.

As coisas se tranformaram.
E está bem que assim seja.
Temos limpado e azeitado as armas.
Colocamos as sementes no alforje e empreendemos a marcha
sérios e silenciosos por entre a montanha.
É a hora da semeadura.

(tradução de Jeff Vasques)

Notificação

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(foto de protesto dos professores no Rio de Janeiro, jan/2014)

NOTIFICAÇÃO
(Charles Bukowski, EUA, 1920-1994)

Cidadãos do mundo
eu renuncio a vocês.

Eu renunciei
há muito tempo.
mas isto é uma notificação
formal
eu contra
vocês
uma ordem de
restrição.

Fodam-se
ressequem
desapareçam.

Não venham até
minha porta
com pizza
bucetas
ou ofertas de
paz.

É tarde demais.

A música
congelou no
ar
castrada pela
ausência de sua
presença.

Não te rendas

nao se renda

NÃO TE RENDAS
(Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009)

Não te rendas, ainda é tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar tuas sombras,
enterrar teus medos,
liberar o lastro,
retomar o vôo.
Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viajem,
perseguir teus sonhos,
destravar o tempo,
correr os escombros,
e destapar o céu.
Não te rendas, por favor não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento,
ainda há fogo em tua alma
ainda há vida em teus sonhos.
Porque a vida é tua e teu também o desejo
porque o tens desejado e porque te quero
porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não há feridas que não cure o tempo.
Abrir as portas,
tirar as trancas,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos
despregar as asas
e tentar de novo,
celebrar a vida e retomar os céus.
Não te rendas, por favor não cedas,
Ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo em tua alma,
ainda há vida em teus sonhos
Porque cada dia é um começo novo,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás sozinho, porque eu te amo.

(tradução de Jeff Vasques)

Jacinta Passos

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Menina, minha menina,
carocinho de araçá,
cante
estude
reze
case
faça esporte
e até discurso,
faça tudo o que quiser
Menina!
não esqueça que é mulher.
Jacinta Passos

Certamente, há pouquíssimas vidas tão inspiradoras como a de Jacinta Passos (1914-1973) no Brasil (e na América!), no período em que viveu. Nascida numa cidadezinha do interior da Bahia, Cruz das Almas, numa família abastada e profundamente católica, Jacinta vai aos poucos renegar todos os valores tradicionais, assumindo uma busca incessante por sua liberdade e a de todos. Dedicada à poesia e à escritura, torna-se uma importante jornalista e ativista social na década de 40 em Salvador, abandona o catolicismo e se aproxima de intelectuais comunistas como Jorge Amado. Jonalista, intelectual e poeta, Jacinta sabia que precisava se esforçar em dobro para enfrentar os valores conservadores, machistas e patriarcais tão vivos na década de 40. Casa-se em 1944 com James Amado (irmão mais novo de Jorge Amado) e filia-se ao PCB, carregando, desde então, mais um estigma, a de militante comunista. Chegou mesmo a ser candidata em 1945 a deputada, única mulher candidata no período, mas não foi eleita.

jacintapassos03bb_1944Produziu uma pequena, mas fantástica obra literária que foi elogiada por Mário de Andrade e Antônio Candido. Com a ilegalidade do PCB, Jacinta passa para a militância clandestina, sempre usando de suas poesias para os trabalhos de propaganda políticas. Em 1951, encontrava-se no Rio de Janeiro quando sofre sua primeira crise nervosa com delírios, eram os sinais da esquizofrenia. Desse período em diante, já separada do marido, até o fim da sua vida viverá o preconceito múltiplo, por ser mulher, artista, comunista e, agora, “louca”. Em diversos momentos, sua família justificou seus posicionamentos políticos radicais como “loucura” e foi mesmo presa em um sanatório por um prefeito que, incomodado com sua militância, alegava sua demência pela extremada virulência de suas palavras e posturas.

Seu tipo de esquizofrenia permitiria uma vida dita “comum”, em sociedade, caso fosse tratada adequadamente. Mas foi internada e submetida à choques elétricos, injeções de insulina e tranquilizantes. Jacinta Passos sempre afirmava que era uma presa política e por isso não aceitava nenhum tipo de regalia nos manicômios. Durante os 7 anos que ficou internada, continuou escreveu regularmente, compondo à mão poemas, peças para teatro, radioteatro, aforismos, textos sobre teoria da arte, poesias e reflexões políticas (preencheu cerca de 3.348 páginas de caderno manuscritas no período, quase 560 páginas por ano, quase 16 páginas por dia). A lucidez de sua escrita, como atesta o poema abaixo, evidencia como não portava nenhum distúrbio grave que impedisse sua vida cotidiana. A sua “loucura” era ser “mulher, artista e comunista”:

Estudos de lógica:jacintapassos05a_1948
O sanatório é Bahia ou Bahia é um sanatório?
A mulher está presa porque é comunista ou é comunista porque está
presa?
O homem tem família porque tem propriedade privada ou
tem propriedade privada porque tem família?
Este homem faz
continência porque trabalha ou
trabalha para fazer continência?
Os trabalhadores da arte trabalham para fazer figuração ou
fazem figuração porque trabalham?
Eu faço arte porque sou artista ou sou artista porque faço arte?
(caderno 14, escrito em setembro ou outubro de 1967)

imagesO esquecimento (apagamento) da vida e obra de Jacinta corroboram o tratamento que como mulher e militante recebeu por toda sua vida. Mas, felizmente, sua luta e poesia aos poucos vão sendo resgatadas: em 2010, sua filha Janaína Amado, organizou uma bela antologia “Jacinta Passos, coração militante: obra completa: poesia e prosa, biografia, fortuna crítica” e também um site: http://jacintapassos.com.br/. Alguns estudos também começam a aparecer. Para quem se interessar há um artigo de Rosângela Santos “Jacinta Passos, loucura ou marginalização?” e o livro “A história esquecida de Jacinta Passos” de Dalila Machado. Abaixo selecionei quatro poemas e um vídeo em que sua filha, Janaína, fala da vida de sua mãe.

Que a memóriva viva da vida e luta de Jacinta Passos, enfrentando preconceitos familiares, sociais, políticos, possam inspirar tantas outras mulheres, e homens! (por Jeff Vasques)

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

Canção da liberdade

Eu só tenho a vida minha.
Eu sou pobre pobrezinha,
tão pobre como nasci,
não tenho nada no mundo,
tudo que tive, perdi.
Que vontade de cantar:
a vida vale por si.

Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver:

Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

Sem amor e sem saúde,
sem casa, nenhum limite,
sem tradição, sem dinheiro,
sou livre como a andorinha,
tem por pátria o mundo inteiro,
pelos céus cantando voa,
cantando que a vida é boa.

Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

Canção da partida

Bernadete é preta
é preta que nem tição.
Bernadete é pobre,
é pobre sem um tostão.

(…)

– Pelo sinal da pobreza!
– Pelo sinal de mulher!
– Pelo sinal!
da nossa cor!
Nós somos gente marcada
– ferro em brasa em boi zebu –
ninguém precisa dizer:
Bernadete, quem és tu?

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.
Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.
Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Outras poesias de Juan Gelman


Poemas que traduzi de Juan Gelman (Argentina).

LIMITES

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Só a esperança tem os joelhos nítidos.
Sangram.

O JOGO EM QUE ANDAMOS

Se me permitissem escolher, eu escolheria
esta saúde de saber que estamos muito doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me permitissem escolher, eu escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que ando impuro.
Se me permitissem escolher, eu escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pãos desesperados.
Aqui se passa, senhores,
que me juegoaposto a morte.

Confianças

senta-se à mesa e escreve
“com este poema não tomarás o poder” diz
“com estes versos não farás a revolução” diz
“nem com milhares de versos farás a revolução” diz

e mais: esses versos não vão servir para que
peões professores lenhadores vivam melhor
comam melhor ou ele mesmo coma viva melhor
nem para apaixoná-la servirá

não ganhará dinheiro com eles
não entrará no cinema grátis com eles
não lhe darão roupa por eles
não conseguirá tabaco ou vinho por eles

nem papagaios nem cachecóis nem barcos
nem touros nem guarda-chuvas conseguirá por eles
se contar com eles a chuva o molhará
não alcançará perdão ou graça por eles

“com este poema não tomarás o poder” diz
“com estes versos não farás a revolução” diz
“nem com milhares de versos farás a revolução” diz
Senta-se à mesa e escreve

 

 

 

XCI

toda poesia é hostil ao capitalismo
pode tornar-se seca e dura mas não
porque seja pobre mas
para não contribuir com a riqueza oficial

pode ser sua maneira de protestar de
tornar-se magra já que há fome
amarela de sede e sofrida
de pura dor que há pode ser que

ao contrário abra os becos do delírio e as bestas
cantem atropelando-se vivas de
fúria de calor sem destino pode
ser que se negue a si mesma como outra

maneira de vencer a morte
assim como se chora nos velórios
poetas de hoje
poetas deste tempo

nos separaram do rebanho não sei que será de nós
conservadores comunistas apolíticos quando
aconteça o que vai acontecer mas
toda poesia é hostil ao capitalismo.

 

A lua com gatilho – Raúl González Tuñón


Abaixo a tradução que fiz do poema-manifesto do poeta-lutador argentino Raúl González Tuñón. Mais uma reflexão sobre o papel da poesia nos dias de bárbarie em que vivemos.

A LUA COM GATILHO

É preciso que nos entendamos.
Eu falo de algo certo e de algo possível.
Certo é que todos comam
e vivam dignamente
e é possível saber algum dia
muitas coisas que hoje ignoramos.
Então, é necessário que isto mude.

O carpinteiro fez esta mesa
verdadeiramente perfeita
onde se inclina a menina dourada
e o pai celeste resmunga.
Um ebanista, um pedreiro,
um ferreiro, um sapateiro,
também sabem o seu.

O mineiro desce à mina,
ao fundo da estrela morta.
O campesino semeia e ceifa
a estrela já ressuscitada.
Tudo seria maravilhoso
se cada qual vivesse dignamente.

Um poema não é uma mesa,
nem um pão,
nem um muro,
nem uma cadeira,
nem uma bota.

Com uma mesa,
com um pão,
com um muro,
com uma cadeira,
com uma bota,
não se pode mudar o mundo.

Com uma carabina,
com um livro,
isso é possível.

Compreendes por que
o poeta e o soldado
podem ser uma mesma coisa?

Marchei atrás dos operários lúcidos
e não me arrependo.
Eles sabem o que querem
e eu quero o que eles querem:
a liberdade, bem entendida.

O poeta é sempre poeta
mas é bom que ao fim compreenda
de uma maneira alegre e terrível
quão melhor seria para todos
que isto mudasse.

Eu os segui
e eles me seguiram.
Aí está a coisa!

Quando se tiver que lançar a pólvora
o homem lançará a pólvora.
Quando se tiver que lançar o livro
o homem lançará o livro.
Da união da pólvora e do livro
pode brotar a rosa mais pura.

Digo ao pequeno padre
e ao ateu de botequim
e ao ensaísta,
ao neutro,
ao solene,
e ao frívolo,
ao tabelião e à corista,
ao bom coveiro,
ao silencioso vizinho de um terceiro,
a minha amiga que toca o acordeon:
-Olhai a mosca sufocada
embaixo da redoma de vidro.

Não quero ser a mosca sufocada.
Tampouco tenho nada a ver com o macaco.
Não quero ser abelha.
Não quero ser unicamente cigarra.
Tampouco tenho nada a ver com o macaco.
Eu sou um homem ou quero ser um verdadeiro homem
e não quero ser, jamais,
uma mosca sufocada debaixo da redoma de vidro.

Nem colméia, nem formigueiro,
não compares os homens
a nada mais que não seja homem.

Dá ao homem tudo o que necessite.
Os pesos para pesar,
as medidas para medir,
o pão ganhado altivamente,
a flor do ar,
a dor autêntica,
a alegria sem uma mancha.

Tenho direito ao vinho,
ao azeite, ao museu,
à Enciclopédia Britânica,
a um lugar no ônibus,
a um parque abandonado,
a um cais,
a uma açucena,
a sair,
a ficar,
a dançar sobre a pele
do Último Homem Antigo,
com meu esqueleto novo,
coberto com pele nova
de homem reluzente.

Não posso cruzar os braços
e interrogar agora o vazio.
Me rodeiam a indignidade
e o desprezo;
me ameaçam o cárcere e a fome.
Não me deixarei subornar!

Não. Não se pode ser livre interamente
nem estritamente digno agora
quando o chacal está à porta
esperando
que nossa carne caia, apodrecida.

Subirei ao céu,
lhe colocarei gatilho à lua
e desde cima fuzilarei o mundo,
suavemente,
para que este mude de uma vez.

Coletivo Miséria e Angye Gaona


O Batata, do Coletivo Miséria, desenhou o poema “A fuga” da poeta colombiana Angye Gaona, que está sendo perseguida e será julgada dia 23 de janeiro por crimes que não cometeu (www.angyegaonalivre.wordpress.com). A luta contra as ditaduras, que mais rápido ou mais lentamente, vão retornando à América Latina é uma luta de todos nós! Não mais presos políticos na Colômbia, no Brasil e em qualquer canto! Angye Gaona Livre!












Novo poema de Angye Gaona


Novo poema de Angye Gaona “à memória dos assassinados sem devido processo”, enviado ontem pra mim… para lê-lo é bom ter em mente que a tortura é prática comum na Colômbia, onde há mais de 50 mil desaparecidos/assassinados… A campanha por sua liberdade segue: angyegaonalivre.wordpress.com

“À memória dos assassinados sem devido processo”

profunda estrela,
alta
ruge na ampla dor
finita
da noite universal humanidade.

estrela em sangue negro flutuando no ardor.
oh esperança.
Como raízes no sudário,
estrela irmã
jorrando
beijando paciente
os cumes e as covas.
Alude a deslizamentos avalanches em todo o país;
enquantos as jóias sobrevivem incansáveis,
inalcançáveis.

estrela esta
conhecendo o alto:
coros transparentes debaixo das almofadas de musgo para sua acolhida.
água de estrela nas copas anfitriã
da fértil morte.

estrela de choque e geléia,
de pólen qualitativo abundante derramado na ampla dor
e a esperança peneirada sobre o manto.
estrela de guia passo invocação
de vitória contida;
no dorso do nada fulgurando
encandescendo encharcada.

“Não tive tempo para ter medo”


No dia 05 de dezembro completou 100 anos do nascimento do lutador revolucionário e poeta Carlos Marighella. Aqui segue uma pequena homenagem com uma seleção de seus poemas. Cada vez mais são divulgadas suas poesias o que nos ajuda a compreender melhor quem foi esse grande homem. Ao final, segue uma canção feita recentemente por Mano Brown em homenagem à Marighella. Para saber mais sobre quem foi Marighella, sugiro este link.

LIBERDADE

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”

(Presídio Especial, 1939)

O PAÍS DE UMA NOTA SÓ

Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.

Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a idéia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó…

E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só…
de uma nota só…

RONDÓ DA LIBERDADE

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre…
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

PÃO DE ACÚCAR

Manhã clara de sol toda ouro e azul
e no fundo do céu,
a corcova apontando,
a silhueta do Pão de Açúcar.
Bem no alto o bondinho
– Lá embaixo a floresta,
o verde tropical,
e mais embaixo, profundo,
o mar rolando em espumas na praia.
Pão de Açúcar
– uma doce mentira!
Nunca foste pão,
és somente granito, rocha viva,
ornamento selvagem da natureza dos trópicos.
Bom seria que foras mesmo um pão enormíssimo,
um pão de verdade,
que daria talvez para alimentar muito tempo
os famintos que rolam pela aí na cidade.
E que te olham, Pão de Açúcar,
e não podem te ver,
que a miséria os cegou,
secando-lhes para sempre os olhos da poesia.

CAPOEIRA

Capoeira quem te mandou,
capoeira, foi teu padrinho.

O berimbau retinindo
na corda retesa,
cadência marcada
da ginga do jogo.

Zum, zum, zum,
capoeira mata um.

A perna direita
lançada pra frente,
o peso do corpo equilibrado na esquerda,
os braços jogando
de um lado pro outro…

Capoeira quem te ensinou?

De repente uma queda,
o capoeira na terra,
o aú,
de cabeça pra baixo,
as pernas no ar,
a rasteira varrendo
como foice no chão,
o corta-capim, o rabo-de-arraia,
e o inimigo caindo
de supetão,
ao puxavante
da baianada.

Luta africana
que o mestiço encampou,
que os guerreiros da mata,
quilombos, palmares,
souberam jogar.
Que o angolano nos trouxe,
que o mestre Pastinha nos soube ensinar.

Coreografia. Jongo do povo.

Zum, zum, zum
capoeira mata um.

CANÇÃO DOS LÍRIOS

Eu canto à vida,
eu canto a liberdade,
como os lírios crescem em nossos campos,
livres, selvagens.

Se já não crescem como antes,
existe algo sombrio,
é preciso abrir uma clareira no bosque.

Não me limitarei ao campo da arte…
e não escolherei momento, tempo e modo,
de exaltar-te,
lírio, flor, canção, fruto,
amor – a liberdade.
Não calarei jamais
e sempre te direi a mais bela, a mais pura.

Se já não crescem como antes os lírios
em nossos campos,
existe algo sombrio,
é preciso abrir uma clareira no bosque.

MÚSICA DE MANO BROWN EM HOMENAGEM À MARIGHELLA

Elementos (Roque Dalton)


A organização de vanguarda
nível de experiência e organização das massas
a análise de conjunto e dos detalhes
a conjuntura de auge
a audácia as armas a serenidade a tenacidade
a intransigência na estratégia
a flexibilidade na tática
a clareza nos princípios
a clandestinidade operativa
a localização do momento preciso
os motores do amor e do ódio
métodos meios e preparação adequados
técnica ciência e arte
o conhecimento de toda a experiência anterior
mais e mais audácia
ofensiva constante
a concentração na direção principal
queimar as pontes e ao mesmo tempo
não jogar todo o jogo em uma só carta
máxima segurança só depois de aceitar
as últimas conseqüências
alianças uniões apoios neutralizações
planejamento global da confrontação
marco mundial
nível moral de nossas forças
mais audácia
autocrítica constante
e mais audácia

Um poema de Lênin


Através do livro de poesias “Um livro vermelho para Lênin” do poeta guerrilheiro Roque Dalton descobri que Lênin teria escrito um poema longo e épico e que não constava em suas Obras Completas. No livro de Dalton, aparece um trecho desse poema. Pesquisando na internet, consegui achar a versão integral traduzida para o espanhol por Waldo Rojas (que partiu da versão em francês de Gregoire Alexinsky).

O poema foi escrito durante a primavera de 1907, ano em que Lênin passou em Selvista, aldeia da Finlãndia. Ali pode descansar um ano e meio da intensa atividade política quase sempre na clandestinidade. Durante sua estadia na aldeia manteve grandes discussões sobre literatura revolucionáría e criação poética com Piotr Al. Para ilustrar essas discussões Lênin escreveu em três dias este poema. Esse poema seria publicado na revista de Ginebra Raduga (Arcoiris) dirigida por Piotr Al, mas a publicação se desfez antes de incluir em suas páginas este poema que seria assinada por “Um russo”.

Literariamente não é muito valioso, mas é uma peça importante pra compreender esse grande pensador russo e como ele enxergava a revolução de 1905. Até onde vi, esta é a primeira tradução para o português.

O único poema de Lênin conhecido

Tempestuoso ano aquele. Os Furacões sobrevoavam
o país inteiro. Se desatavam as nuvens carregadas,
sobre nós se precipitava a tempestade, e o granizo e o trovão.
Feridas
Se abriam nos campos e nas aldeias debaixo dos golpes do chicote terrestre.
Estalavam os raios, os relâmpagos retumbavam violência.
O calor queimava sem piedade, os peitos estavam oprimidos
E o reflexo dos incêndios iluminava
as trevas mudas das noites sem estrelas

Transtornados os elementos e os homens,
os corações oprimidos por uma inquietude obscura,
ofegavam os peitos de angústia,
ressecadas as bocas se cerravam.
Mártires aos milhares morreram nas tempestades sangrentas,
mas não em vão sofreram eles o que sofreram, sua coroa de espinhos,
Pelo reino da mentira e das trevas, por entre escravos hipócritas,
eles passaram como as tochas do porvir.
Com traço de fogo, com um traço indelével,
eles gravaram diante de nós a via do martírio,
e na carta da vida, estamparam o selo do opróbio
sobre o jugo da escravidão e da vergonha das correntes…
O frio se intensificava. As folhas murchavam e caíam
E colhidas pelo vento se amontoavam em uma dança macabra.
Vem o Outono cinza e pútrido,
lacrimejante de chuva, sepultado de barro negro.

E para os homens a vida se fez detestável e opaca.
Vida e morte lhes foram igualmente insuportáveis,
Os rondavam sem trégua a cólera e angústia.
Frios e vazios e escuros seus corações como seus lares.
E de repente, a Primavera! Primavera em pleno Outono putrefeito,
A Primavera Vermelha descendo sobre nós, bela e luminosa,
Como um presente dos céus ao país triste e miserável,
Como uma mensageira da vida.

Uma aurora escarlate como uma manhã de maio
Se levantou no céu abafado e triste;
O sol vermelho, cintilante, com a espada de seus raios
Perfurou as nuvens e se dissipou a mortalha da bruma.

Como o fogo de um farol no abismo do mundo,
Como a chama do sacrifício no altar da natureza,
Aceso para a eternidade por uma mão desconhecida,
Conduziu até a luz os povos adormecidos.

Rosas vermelhas nasceram de sangue ardente,
flores de púrpura se abriram,
e sobre as tumbas esquecidas
trançaram coroas de glória.

Atrás do carro da liberdade,
e brandando a bandeira vermelha
fluiam multidões semelhantes a rios,
como o despertar das águas com a primavera.

Os estandartes vermelhos palpitavam sobre o cortejo,
se elevou o hino sagrado da liberdade
e o povo cantou com lágrimas de amor
uma marcha fúnebre para seus mártires.

Era um povo jubiloso,
seu coração transbordava de esperanças e de sonhos,
todos criam na liberdade que viria,
desde o sábio ancião até o adolescente.

Mas o despertar segue sempre ao sonho.
A realidade não tem piedade.
E à beatitude das fantasias e da embriaguez
segue a amarga decepção.

As forças das trevas se agarravam nas sombras,
arrastando e vaiando o povo. Esperavam.
E repentinamente fundiram seus dentes e suas navalhas,
nas costas e nos calcanhares dos valentes.
Os inimigos do povo, com suas bocas sujas,

Bebiam o sangue quente e puro
quando os inocentes amigos da liberdade
esgotados por penosas caminhadas,
foram pegos de surpresa, sonolentos e desarmados.

Se esfumaram os dias de luz,
os substitui uma série interminável e maldita de dias negros.
A luz da liberdade e os sol se extinguiram.
Um olhar de serpente espreita nas trevas.

Os assassinos sem escrúpulos, os progroms, o lodo das denúncias,
(progrom: assassinato e saqueio de judeus)
são proclamados atos de patriotismo,
e o rebanho negro se regozija
com um cinismo sem freio,

Salpicada com o sangue das vítimas da vingança,
mortas com um pérfido golpe
sem razão nem piedade,
vítimas conhecidas e desconhecidas.

No meio de vapores de álcool, madizendo, mostrando o punho,
com garrafas de vodka nas mãos, multidões de pilantras,

Correm, como um tropel de bestas,
Fazendo soar as moedas da traição,
E bailam uma dança de apaches.

Mas Emilinho, o pobre idiota,
(Yemelia:diminutivo de Yemelian (Emiliano), entre os russos é sinônimo de idiota)
a quem as bombas tornaram mais tonto e assustadiço, treme como um rato,
E em sua festança ajeita com aprumo a insígnia dos Cem Negros.
(Cem Negros:partido czarista, policial, anti-semita e reacionário, precursor russo do nazismo)

A risada lúgubre das corujas e das rapinas noturnas
Ressoam na escuridão das noites, anunciando a morte da liberdade e da alegría,
E um Inverno cruel, com a neve tempestuosa,
Vem do reino dos gelos eternos.

Com suas neves espessas, semelhantes a uma mortalha branca,
O inverno voltou ao grande país.
Atando a Primavera com correntes de gelo,
O frio-verdugo lhe deu morte antes do tempo.
Como manchas de barro, por aqui e por ali, aparecem
As pequenas ilhas negras das aldeias miseráveis sepultadas abaixo das neves.

A fome junto à miséria e ao frio pálido
Por toda parte se protegem nas moradas pestilentas.
Através da planura da neve sem fim,
Através das estepas, sem medida nem limite,
Onde o verão o vento ardente traz consigo um calor tórrido,
Nefastos temporais de neve vão e vêm como brancos pássaros de rapina.
A tempestade uiva como uma besta selvagem e de pele emaranhada,
Precipitando-se sobre tudo que conserve uma gota de vida,
E voa, com estrépito, como uma terrível serpente alada,
Para apagar da face da terra todo rastro de vida.

A tempestade dobra as árvores, quebra os bosques,
Amontoa a neve nas montanhas geladas.
Os animais se protegem em suas tocas.
Desapareceram as veredas e o viajante é engolido sem deixar rastros.

Magros lobos aparecem, famintos,
Erram sobre os passos da tempestade,
Ferozes, à presa se conduzem un aos outros,
Uivam à lua, e todo o vivo treme de espanto.

A coruja ri, o lechy selvagem golpeia as mãos.
(Lechy: espirito do bosque segundo os contos populares russos)
Ébrios, os demônios negros giram en torvelinho
E fazem estalar os ávidos lábios: sentem o cheiro de uma grande matança
E esperam o sinal sanguinolento.
O gelo cobre tudo, morte em todas partes, tudo jaz rígido.
Toda vida parecia esfumada,
Uma fossa comum o mundo inteiro, uma fossa única.
Nem sequer as sombras da vida livre e luminosa.

Mas é ainda cedo para que a noite triunfe sobre o día,
Para que a sepultura celebre sua festa de vitória sobre a vida
Ainda debaixo das cinzas se incuba a faísca.
A faísca que a vida reanimará com seu sopro.

A flor da liberdade quebrada e desonrada
foi pisoteada e morta está para sempre.
Os negros se regozijan ao ver aterrado o mundo da luz,
Mas na terra natal o fruto desta flor já espera no subsolo.

Nas entranhas da mãe o grão milagroso
Misterioso se conserva e invisível;
Há de ser alimentado pela terra, se reanimará na terra,
Para renascer para uma vida nova.

Levará o germe ardente da nova liberdade,
Fundirá a crosta do gelo, a fenderá,
Crescerá e -árvore gigante- iluminará o mundo com sua folhagem vermelha,
O mundo inteiro surgirá a sua luz, e debaixo de sua sombra
congregará a todos os povos.
As armas, irmãos! A felicidade está próxima! Coragem! Ao combate!
Adiante!
Desperta vossos espiritos! Expulsa de vossos corações o medo covarde e servil!
Estreita vossas filas! Todos unidos contra os tiranos e os amos!
A sorte da vitoria está em vossas poderosas mãos de trabalhadores!
Coragem! Este tempo de desgraças passará rápido!
Os levanta como um só contra os opressores da liberdade!
A Primavera chegará … se aproxima … já vem.
A vermelha liberdade, tão bela, tão desejada, caminha até nós!

Autocracia
Nacionalismo
Ortodoxia
Já demonstraram irrefutavelmente suas altas virtudes:
Em seu nome se nos golpeava, se nos golpeava, se nos golpeava,
Até o sangue mesmo se castigava aos mujiks,
(mujiks: campesinos russos)
Se os quebravam os dentes,
Se sepultava aos homens nos presidios, encarcerados,
Se saqueava, se assassinava,
Para nosso bem, segundo a lei,
Para a glória do Czar e para a saúde do Império,
Os servidores do Czar davam de beber aos verdugos,
Com a vodka do Estado e o sangue do povo
Seus soldados regalavam a seus corvos de rapina.

Se dava de beber aos executores das altas ordens,
Se alimentava a seus corvos de rapina
Com os cadáveres ainda tibios dos escravos rebeldes
E com os cadáveres dóceis dos escravos mais fiéis.

Com uma oração ardente, os servidores de Cristo
Regavam de agua benta um bosque de horcas.

Hurra! Viva nosso Czar!
Com seu nó de marinheiro bem ensaboado e bem benzido!
Viva o escudeiro do Czar,
Com seu chicote, seu sabre e seu fusil!

Soldados, afogai vossos remorsos
Em um pequeno copo de vodka!
Disparai, valentes, sobre as crianças e sobre as mulheres!
Matai o maior número possível de vossos irmãos para divertir ao papaizinho.

E se teu própio pai cai sobre tuas balas,
Que se afogue em seu sangue, vertido pela mão de Caim!
Embrutecido pela vodka do Czar,
Mata a tua própia mãe, sem piedade!
O que temes tu?
Não é aos japoneses, a quem tens a sua frente.
Não temes senão a teus próximos, a teus própios familiares,
E eles estão de todo desarmados.

Uma ordem se te dá, valete do Czar.
Sê como antes uma besta de carga, escravo eterno,
Enxuga tuas lágrimas com tua manga
E golpeia o solo com tua testa!

Oh, povo, fiel, feliz
Amado pelo Czar até a morte,
Suporta tudo e obedece até a morte …
E fogo! Chicote! … Golpiai … !
Deus: protege o povo,
Poderoso, majestoso!

Que nosso povo reine, fazendo suar de medo aos czares!

Com sua tropa sem glória Nosso Czar está desencadeado (desprotegido?),
Com sua matilha de servidores desprezados
Os lacaios sujos se festejam
Sem lavar o sangue de suas mãos.
Deus: protege o povo
Durante os dias sombrios!
E tu, povo, protege a Bandeira Vermelha!

Opressão sem limite!
Chicote da polícia!
Tribunais de sentenças súbitas
Como as salvas das metralhadoras!
Castigos e fusilamentos,
Horrível bosque de forcas
Para castigar vossas rebeldias!

Lotadas estão as prisões,
Os deportados sofrem infinitudes,
As selvas desgarram a noite,
os abutres se saciam.
A dor e o duelo
Se estendem sobre o país natal.
Nem uma família alheia ao sofrimento!

Festeja com teus verdugos,
Déspota, teu banquete sangrento,
Roe, Vampiro, a carne do povo,
Com teus cães insaciáveis!

Semeia, Déspota, o fogo!
Monstro, bebe nosso sangue!
Levanta-te, Libertai!
Flameja, Bandeira Vermelha!

Vinga-os, castigai,
Torturai-nos uma última vez!
A hora do castigo está próxima!
Ja chega o tribunal. Saiba disso!

Pela liberdade
Iremos à morte, à morte,
Tomaremos o poder e a liberdade,
E a terra será do povo!

No combate desigual
Cairão vítimas sem nome!
Pelo trabalho livre,
Seus olhares flamejam ameaças.

Se lançam até o céu,
Eterno carrilhão do trabalho!
Golpeia, martelo, golpeia para sempre.
Pão! Pão! Pão!

No combate desigual
caíram vítimas sem nome pela libertação do trabalho.
Seus olhares flamejam ameaças…

Marchai, marchai, campesinos!
Vós não podeis viver sem a terra.
Os expulsaram os senhores,
os oprimirão ainda por muito tempo?

Marchai, marchai, estudantes!
Muitos de vós serão ceifados na luta.
Fitas vermelhas envolverão os ataúdes dos que caírem!

Marchai, marchai, famintos!
Marchai oprimidos!
Marchai humilhados!
Até a vida livre!

O jugo das bestas reinantes é nossa vergonha!
Expulsemos aos ratos de suas tocas!
Ao combate, proletário!
Abaixo todos os males!
Abaixo o czar e seu trono!

Já brilha a aurora da liberdade estrelada
e expande sua chama.
Os raios da felicidade e da verdade
aparecem ante os olhos do povo.
O sol da liberdade
nos iluminará através das nuvens.

O canalha do Czar,
“Debaixo das patas dos cavalos com eles!”,
Dirá a poderosa voz de toque ao rebanho
Glorificando a liberdade.
Destruiremos as abóbadas das prisões.
A justa cólera está rugindo,
A bandeira da libertação
Conduz a nossos combatentes.

Tortura, Okhrana,
(Okhrana:polícia secreta czarista)
Chicote, cadafalso, abaixo!
Desacorrenta-te, combate de homens livres!
Morte aos tiranos!

Extirpemos pela raiz
o poder da autocracia.
Morrer pela liberdade é uma honra,
viver em correntes uma vergonha!
Deitemos por terra a escravidão,
a vergonha do servilismo.
Oh, liberdade, nos dê
a terra e a independência!

Che Guevara poeta?


Depois de parado por um mês (fim do mestrado + férias), retomo com puta ânimo as atividades do Passarin. E voltamos em grande estilo, com Che Guevara.

Poucos sabem que Che Guevara escreveu algumas poesias. Claramente, ele era um lutador que escrevia e não um poeta lutador, mas, apesar disso, seus poemas não são ruins. Na verdade, me surpeenderam sua qualidade o que evidencia um escritor com traquejo apreendido da leitura regular que fazia de grandes poetas. Che lia poesia desde sua adolescência. Era notória sua fama dentre os guerrilheiros de grande leitor. Todos temiam quando Che ia para a linha de frente, porque alguém teria que carregar sua mochila que era muito pesada de tantos livros! Quando foi capturado na Bolívia, acharam em sua mochila, além do diário da guerrilha, um caderno verde em que Che vinha, há 10 anos, transcrevendo suas poesias prediletas. Era uma antologia pessoal de poesias que contava com o poeta cubano Nicolás Guillén, Neruda, César Vallejo e Felipe León. Essa energia dispendida com a poesia em meio à guerrilha é mais um elemento pra quebrar qualquer caricatura de Che, seja as construídas pela direita ou por certa esquerda messiânica. Esse caderno verde de poesias de Guevara foi publicado recentemente em espanhol (e eu espero em breve comprar!).

Abaixo seguem algumas poesias que tra(b)duzi. Ainda encontrei mais 2 ou 3 poesias de Che em antologias que tenho, mas por serem muito grandes deixei para traduzir em outro momento.

CRISTO TE AMO


OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Este poema, creditado a Guevara, segundo informações de Francisco Orban, caro leitor do blog, não é de sua autoria, apenas encontrava-se entre os papéis de Guevara… provavelmente um de seus poema preferidos… assim que descobrir o autor do poema, incluo aqui!

Cristo te amo não porque
desceste de uma estrela
senão porque ensinaste
que o homem é um deus
e aquele que está a tua esquerda no Gólgota
o mau ladrão
também é um deus.

O MAR ME CHAMA COM SUA AMISTOSA MÃO

O mar me chama com sua amistosa mão.
Meu prado – um continente –
se desenrosca suave e indelével
como uma badalada no crepúsculo.

DE PÉ A LEMBRANÇA CAÍDA NO CAMINHO

De pé a lembrança caída no caminho
cansada de me seguir sem história
esquecida numa árvore do caminho.

Irei tão longe que a lembrança morra
destroçada nas pedras do caminho,
seguirei sendo o mesmo peregrino
de penhascos dentro e sorriso a fora.

Essa vista circular e forte
em um mágico passe de muleta
esquivou em minha ânsia toda meta
convertendo-me em vetor da tangente.

E não quis olhar para não te ver,
rosado toureiro de meu destino,
me convidar com gesto displicente.

AUTO-RETRATO OBSCURO

De uma jovem nação de raízes de erva
(raízes que negam a raiva da América)
venho até vocês, irmãos nortenhos

Carregados de gritos de desalento e de fé
venho até vocês, irmãos nortenhos,
venho de onde viemos os “homo sapiens”
devorei quilometros em ritos transumantes
com minha matéria asmática que carrego como uma cruz
e na entranha estranha de metáfora desconexa.

A rota foi ampla e muito grande a carga
persiste em mim o aroma de passos vagabundos
e ainda que o naufrágio de meu ser subterraneo
– apesar de que se anunciam margens salvadoras –
nado displicente contra a ressaca,
conservando intacta a condição de náufrago.

Estou só frente à noite inexorável
e certamente abandono o demasiado doce dos bilhetes.
Europa me chama com voz de vinho envelhecido
alento de carne loira, objetos de museu.

E nos clarinetes alegres de paises novos
eu recebo de frente o impacto difuso
da canção, de Marx e Engels,
que Lenin executa e entoam os povos.

E AQUI

“Sou mestiço”, grita um pintor de paleta acesa,
“sou mestiço”, me gritam os animais perseguidos,
“sou mestiço”, clamam os poetas peregrinos,
“sou mestiço”, resume o homem que me encontra
na dor diária de cada esquina,
e até o enigma pétreo da raça morta
acariciando uma virgem de madeira dourada:
“é mestiço este grotesco filho de minhas entranhas”.

Eu também sou mestiço em outro aspecto:
na luta em que se unem e repelem
as duas forças que disputam meu intelecto,
as forças que me chamam sentindo das minhas vísceras
o sabor estranho de fruto encaixotado
antes de atingir sua madurez de árvore.

Me volto no limite da América hispânica
a saborear um passado que engloba o continente.
A recordação desliza com suavidade indelével
como o distante tinir de um sino.

VELHA MARIA, VAIS MORRER

Velha Maria, vais morrer:
Quero falar contigo seriamente.

Tua vida foi um rosário completo de agonias,
não houve homem amado ne saúde nem dinheiro,
apenas a fome para ser compartilhada.
Mas quero faler-te da tua esperança,
das três diversas esperanças
que tua filha fabricou sem saber como.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Escuta,avó proletária:
crê no homem que chega,
crê no futuro que nunca verás.

Não rezes ao deus inclemente
que toda uma vida desmentiu tua esperança;
não peças clemência à morte
para ver crescer tuas pardas carícias;
os céus são surdos e o escuro manda em ti.
Mas terás uma vermelha vingança sobre tudo,
juro pela exata dimensão de meus ideais:
todos os teus netos veverão a aurora.
Morre em paz, velha lutadora.

Vais morrer, velha Maria:
trinta projetos de mortalha
dirão adeus com o olhar
num destes dias em que te vais.

Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala
quando a morte conjugar-te com a asma
e copularem seu amor na tua garganta.

Essas três carícias construidas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite),
esses três netos vestidos de fome
chorarão os nós destes dedos velhos
onde sempre encontravam um sorriso.
E isso será tudo, velha Maria.

Tua vida foi um rosário de magras agonias,
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartilhada.
Tua vida foi triste, velha Maria.

Quando o anúncio do descanso eterno
suaviza a dor de tuas pupilas
e quando a tua mão de perpétua borralheira
absorve a última e ingênua carícia,
pensas neles… e choras,
pobre velha Maria!

Não, não o faças!
Não rezes ao deus indolente
que toda uma vida desmentiu a tua esperança,
nem peças clemência à morte,
que tua vida foi horrivelmednte vestida de fome
e acaba vestida de asma.

Mas quero anunciar-te,
na voz baixa e viril da esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças.
Quero jurá-lo pela exata
dimensão de meus ideais.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Descansa em paz, velha Maria,
descansa em paz, velha lutadora:
todos os teus netos viverão a aurora.
EU JURO!

EU SEI! EU SEI!

Eu sei! Eu sei!
Se sair daqui, o rio me engolirá…
É o meu destino: hoje devo morrer!
Mas não, a força de vontade pode superar tudo
Há obstáculos, eu reconheço
Não quero sair.
Se tenho que morrer, será nesta caverna.

As balas, o que podem as balas fazer comigo
se meu destino é morrer afogado? Mas vou
vencer o destino. O destino pode ser
conseguido pela força de vontade.

Morrer, sim, mas crivado de
balas, destroçado pelas baionetas, se não, não. Afogado não…
Uma recordação mais duradoura do que meu nome
É lutar, morrer lutando.

(Ernesto Guevara – 17 de janeiro de 1947)

CONTRA O VENTO E AS MARÉS

Este poema (contra o vento e as marés) levará minha assinatura.
Deixo-lhes seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz (como um passarinho ferido) ternura,

Um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.

A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória indelével (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.

Isso eu dou (convicto e feliz) à revolução
Nada que nos pode unir terá força maior.

CANTO A FIDEL

Vamos, ardoso profeta da alvorada,
por caminhos longínquos e desconhecidos,
liberar o grande caimão verde* que você tanto ama…
Quando soar o primeiro tiro
e na virginal surpresa toda selva despertar,
lá, ao seu lado, seremos combatentes
você nos terá.
Quando sua voz proclamar para os quatro ventos
reforma agrária, justiça, pão e liberdade,
lá, ao seu lado, com sotaque idêntico,
você nos terá.
E quando o final da batalha
para a operação de limpeza contra o tirano chegar,
lá, ao seu lado, prontos para a última batalha,
você nos terá…
E se o nosso caminho for bloqueado pelo ferro,
pedimos uma mortalha de lágrimas cubanas
para cobrir nossos ossos guerrilheiros
no trânsito para a história da América.
Nada mais.

* Caimão verde era o nome alegórico atribuído à ilha de Cuba.