Baldomero Fernández Moreno (Argentina, 1886-1950)

A minha querida amiga e companheira de lutas Tina acabou de chegar de Cuba e trouxe pra mim vários livros de poesia cubana: antologia de Nicolás Guillén (maior poeta cubano), poesias de José Martí para crianças, uma antologia de poesia cubana organizada por José Lezama Lima e vários poetas contemporâneos cubanos!!! Imaginem minha felicidade! =) Material que estou sedento por ler e traduzir aqui pra vcs! Um dos livros é uma deliciosa antologia de ˜poesia amorosa da américa latina˜. Abri essa antologia rapidinho e dei de cara com um curioso soneto de Baldomero Fernandez, poeta argentino que era muito admirado por Jorge Luis Borges. Segue:

SONETO DE TUAS VÍSCERAS

Farto já de louvar tua pele dourada,
tuas externas e muitas perfeições,
canto o jardim azul de teus pulmões
e a tua traquéia elegante e anelada.

Canto a tua massa intestinal rosada,
ao baço, ao pâncreas, aos omentos**
ao duplo filtro cinza de teus rins
e a tua matriz profunda e renovada.

Canto o tutano doce de teus ossos,
à linfa que embebe teus tecidos,
ao acre odor orgânico que exalas.

Quero gastar tuas vísceras a beijos,
viver dentro de ti com meus sentidos…
Eu sou um sapo negro com duas asas.

** omentos: são reflexões peritoniais largas e amplas, que se dispõe entre duas vísceras.

Duas moscas

Duas moscas (Charles Bukowski)

As moscas são furiosos tecos de vida;
por que são tão furiosas?
parecem querer algo mais,
parece até que elas
estão furiosas
por serem moscas;
não é minha culpa;
eu sento no quarto
com elas
e elas me provocam
com sua agonia;
é como se elas fossem
nacos de alma perdidos
esquecidos em alguma parte;
eu tento ler um jornal
mas elas não vão me
deixar;
uma parece subir em semicírculos
por toda a parede,
despejando um som miserável
sobre minha cabeça;
a outra, a menor,
fica perto zoando com a minha mão,
sem dizer nada,
subindo, caindo,
chegando pertinho;
que deus põe essas
coisas perdidas sobre mim?
outros homens sofrem imposições do império,
amor trágico…
eu sofro
insetos…
eu espanto a menorzinha
que parece apenas renovar
seu impulso de me desafiar:
ela circula mais rápido,
mais perto, e chega a fazer
um som de mosca,
e a outra, abaixo,
sacando o tumulto no ar,
também, excitada,
acelera seu vôo,
mergulha de repente
num golpe ruidoso
e elas se juntam
circulando minha mão,
arranhando a base
do abajur
até que alguma coisa-homem
em mim
não aguenta mais
o sacrilégio
e eu bato
com o jornal enrolado –
errei! –
batendo,
batendo,
elas explodem em discórdia,
alguma mensagem se perdeu entre elas,
e eu pego a grandona
primeiro, e ela cai de costas
estrebuchando suas patinhas
como uma puta raivosa,
e eu mando ver de novo
com meu taco de papel
que vira uma lambuzeira
da feiúra da mosca;
a pequena circula mais alto
agora, quieta e rápida,
quase invisível;
já não se aproxima
da minha mão novamente;
ela está mansa e
inacessível; Eu deixo
ela ser, ela me deixar
ser;
o jornal, claro,
está arruinado;
alguma coisa aconteceu,
alguma coisa cagou meu
dia,
algumas vezes não é necessário
um homem
ou uma mulher,
apenas alguma coisa viva;
Me sento e olho
a menorzinha;
nós estamos juntos
trançados
– dando voltas e voltas –
no ar
e na vida;
é tarde
pra nós dois.

Entrevistas com Bukowski – 1

 

Quando alguém nos morre (Orozco)

Ler Orozco é difícil, mas adoro. Agora, necessário. Segue a tra(b)dução.

Quando alguém nos morre (Olga Orozco)

Poema a Eduardo Bosco

Foi necessário o grave, solitário lamento do vento entre as árvores,
para que tu soubesses mais que ninguém esse desesperado ressonar,
esse rumor sombrio com que podem se dizer as palavras
quando de nada vale sua fugaz melodia,
quando na solidão – a única aparência verdadeira -,
contemplamos, calando, os seres e os tempos que foram em nós
irrevogáveis mortes cujos nomes não saberemos jamais.

Foi necessário o ócio daquelas largas noites
que minuciosamente ordenastes em recordações, memorioso,
para que tu passasse sustentando a sombra com tua sombra,
apenas pressentida pelos dias,
com tua mesma pausada palidez demorando-se ainda depois de haver ido,
porque era teu adeus a despedida última,
o último sinal que acercava os sonhos desde o incontido amanhecer.

Foi necessário o lento trabalho dos anos,
seu rápido fulgor, seu murcho decair entre pesados muros
que só levantaram respostas de cinza a teu chamado
para que tu mirasses largamente tuas despojadas mãos
como uma planície donde os ventos deixam poeiras mortais,
enquanto dispõem, distante,
a tempestade que arrasa desmedida seu sedento destino.

Foi necessário todo o que fomos contigo,
o que somos contigo do lado dos prantos,
para saber, vivendo, quanta surda treva te assediava
e encontrar-nos, depois,
Com o assustado resplendor do ar que deixastes morrendo.

Porque todo este tempo
é o inumerável testemunho que nos traz as mesmas evidências,
aquele que fostes quanto eras, de uma vez para sempre:
acostumados gestos,
certos ritos que cumprira teu sangue submissa à memoria,
esses noturnos passos acercando os campos
onde a luz é só um repetido começo de penumbras,
as remotas paredes, as efêmeras coisas a que retornavas
com a triste paciência de quem guarda, laborioso, no olhar,
paisagens habituais que mais tarde
aliviarão o peso das horas em sabido desterro.

Tu pedias tão pouco.
Apenas se anseia um tranquilo viver que prolongasse a duracão de tua alma
em idéntico amor,
em radiante amizade, em devoção sagrada
por gentes que existiram com a simples nobreza da terra,
sem glórias nem ambições.
Tu amavas o imortal, o grandioso terrestre.

Mas não pode o débil chamado de tua vida contra pesadas portas
aposentos malditos, épocas miseraveis
onde o destino dorme surdamente seu legendário esquecimento-,
nadas tu na distância contra os invenciveis mares do inútil,
nadas tu juventude contra esse rosto
que entre desalentadas rebeldias, nostalgias e furiosos pesares,
infatigavelmente se assomou a teus desvelos;
e umas noites sentimos dentro do coração um rouco ondear,
amargamente vivo,
no preciso lugar onde ardia em nós,
como nós mesmos, duradoura,
tua calada grandeza.

Agora estamos mais sós por império da morte,
por um corpo ganhado como um palmo de terra pela terra baldia,
recobrando ao conjuro do mais distante sopro
realidades perdidas no mais esquecido dos antigos dias,
imagens que juntos transpassamos, que juntos nos esperam;
porque nao é a recordação do passado dispersos alhures
-folhas e ramas que acendemos
para chorar ao humos de uma lânguida fogueira-,
senão fiéis sinais de uma região dormente que aguarda nosso passo
com as pegadas de outrora suspendidas como eternas roupagens.

Não é só por dizer, Eduardo, quando alguém nos morre,
não há um lugar vazio, não há um tempo vazio,
há lufadas imensas que se buscam a sós, sem consolo,
pois aqui, e mais além,
tanto do que ele foi respira conosco a fadiga do pó passageiro,
tanto do que somos repousa irrecobrável entre sua morte
que assim sobrevivemos
levando cada um uma sombra do outro pelos distantes céus.
Alguma vez se acercarão,
Então, quando estivermos contigo para sempre,
Últimos como tu, como tu verdadeiros.

A ÚNICA COISA A FAZER É TOCAR UM TANGO ARGENTINO

A ÚNICA COISA A FAZER É TOCAR UM TANGO ARGENTINO

I.
Entre
o que fora
e sonha

– como areia
entre os
dedos –

escorre
tua vida.

II.
E
se tenta
guardar

– como algo
que fora
ou sonha –

cada
grãozin
dessa coisa
viva…

escorre
– entre seus dedos tensos –
ainda mais
a vida.

III.
Entre
o que fora
e sonha

– como areia
entre os
dedos –

escorra
a vida.

eterno refluxo

ETERNO REFLUXO

nos domingos

a morte chega
sem susto
sem drama
sem sedução

não desafia
não cospe à cara
não promete aquele
abraço
abrigo
não ameaça nem oferece
a autopiedade de
morto antes de morto
maldito

só diz à porta
“tá pronto…
o almoço”

e só lá
pro segundo prato
você estranha

pensa “caramba”
e que deveria
chorar…
um pouco…

(alguém voltando
à boca, o macarrão
à bolonhesa,uma
lembrança)

mas ela
adianta a
sobremesa

e você
– já criança –
vai mergulhando a colher
de pé no iogurte

de pé!
na esperança

do domingo
nunca acabar.

AYLAN KURDI


AYLAN KURDI

Fossem absurdas,
as mortes, nesta vida…

todas
completamente
sem-sentido…

estaríamos
– como meninos –
diante do mar
do universo
ou de um deus fictício
a questionar:

por que existimos?
e, por que, então,
não mais existimos?

Poderíamos
gemer, chorar, gritar
e, enfim, aceitar
o terrível destino.

Mas,
não.

As mortes
nesta vida
estão encharcadas
– até a alma –
de sentido

não são
absurdas

nem
dizem
“está tudo perdido!”.

Isso,
dizemos nós
– surdos –
diante do mar
de meninos.

Oração por Marilyn Monroe

Queria tra(b)duzir esse poema de Ernesto Cardenal, mas vi que já existe tradução… não vou deixar de divulgá-lo por causa disso… mas como não resisti, dei umas retocadas na tradução (que o o Cleto me perdoe… ). Esse poema tem essa coisa toda de deus e tal (O Cardenal era padre da teologia da libertacao), mas, apesar disso, ainda gosto do poema.

Oração por Marilyn Monroe (Ernesto Cardenal)

Tradução Cleto de Assis

Senhor,

recebe esta moça conhecida em toda a Terra com o nome de
Marilyn Monroe
ainda que esse não fosse seu verdadeiro nome
(mas Tu conheces seu verdadeiro nome, o da pequena órfã
violada aos nove anos
da empregadinha de loja que aos 16 quis se matar)
e agora se apresenta diante de Ti sem nenhuma maquiagem
sem seu assessor de imprensa
sem fotógrafos e sem dar autógrafos
sozinha como um astronauta frente à noite espacial.

Ela sonhou, quando criança, que estava desnuda em uma igreja
(segundo conta o Time)
diante de uma multidão prostrada, com as cabeças no solo
e tinha que caminhar na ponta dos pés para não pisar as cabeças.
Tu conheces nossos sonhos melhor que os psiquiatras.
Igreja, casa, gruta, são a segurança do seio materno,
mas também mais que isso…
As cabeças são os admiradores, é claro
(a massa de cabeças na obscuridade sob o jorro de luz).
Mas o templo não são os estúdios da 20th Century-Fox.
O templo – de mármore e ouro – é o templo de seu corpo
em que está o Filho do Homem com um látego na mão
expulsando os mercadores da 20th Century-Fox
que fizeram de Tua casa de oração um covil de ladrões.

Senhor,
neste mundo contaminado de pecados e radioatividade
Tu não culparás tão somente uma empregadinha de loja.
Que como toda empregadinha de loja sonhou ser estrela de cinema.
E seu sonho foi realidade (mas como a realidade do tecnicolor).
Ela não fez senão atuar segundo o roteiro que lhe demos
– o de nossas próprias vidas – e era um script absurdo.

Perdoa-a, Senhor, e perdoe-nos a nós
por nossa 20th Century
por esta Colossal Super-Produção em que todos trabalhamos.
Ela tinha fome de amor e lhe oferecemos tranqüilizantes
para a tristeza de não ser santos
foi-lhe recomendada a Psicanálise.

Recorda, Senhor, seu crescente pavor à câmera
e o ódio à maquiagem – insistindo em maquiar-se em cada cena –
e como se foi fazendo maior o horror
e maior a impontualidade aos estúdios.

Como toda empregadinha de loja
sonhou ser estrela de cinema.
E sua vida foi irreal como um sonho que um psiquiatra interpreta e arquiva.

Seus romances foram um beijo com os olhos fechados.
Quando se abrem os olhos,
se descobre que foi sob refletores
e apagam os refletores!
e desmontam as duas paredes do aposento (era um set cinematográfico)
enquanto o Diretor se distancia com sua caderneta de anotações
porque a cena já foi tomada.
Ou como uma viagem em iate, um beijo em Singapura, um baile no Rio
a recepção na mansão do Duque e da Duquesa de Windsor
vistos na salinha do apartamento miserável.

O filme terminou sem o beijo final.
Encontraram-na morta em sua cama com a mão no telefone.
E os detetives não souberam a quem ia chamar.
Foi como alguém que discou o número da única voz amiga
e ouve somente a voz de uma gravação que lhe diz: WRONG NUMBER.
Ou como alguém que, ferido por gangsters,
estica a mão a um telefone desconectado.

Senhor,
quem quer que tenha sido a quem ela ia chamar
e não chamou (e talvez era ninguém
ou era Alguém cujo número não está no guia telefônico de Los Angeles),
atende Tu o telefone!

Olga Orozco (Argentina)

Faz algum tempo que não tra(b)duzo Olga Orozco. Adoro seu jeito de escrever, apesar de não compartilhar de sua visão metafísica do mundo. Contradições que por enquanto não me espremem contra a parede. Sei que ela me agasalha, em diversos momentos, como uma luva. Abaixo um poema seu em homenagem a três grandes “gênios” artísticos, reféns de outro mundo, mas que pisavam as contradições deste mundo e, em alguma medida, transmitiram isso em sua arte (de Van Gogh, pelo menos, tenho essa certeza). Na arte, há sempre essa tensão entre ser refém “espiritual” de algo que não existe, algo além, “de outros mundos” e ter suas pernas fincadas num mundo concreto, real, contraditório.

REFÉNS DE OUTRO MUNDO

para Vicent Van Gogh,
para Antoni Artaud,
para Jacobo Fijman

Era um pacto firmado com o sangue de cada pesadelo,
uma simulação de dormentes que roem o perigo em um osso de insônia.
Proibido ir adiante.
Somente o santo tinha a senha para o túnel e o vôo.
Os outros mordaça, as vendas e o castigo.
Então devia-se acatar aos guardiões desde o fundo do fosso.
Devia-se aceitar as plantações que se perdem de vista a beira dos pés.
Devia-se apalpar às cegas as muralhas que separam o hóspede do perseguidor.
Era a lei do jogo no salão fechado:
as apostas medíocres até se perder a chave
e umas portas que se abrem quando rodam os últimos dados da morte.

E eles se adiantaram de um salto até o final,
com suas altas coroas.
Queimaram as cortinas,
arrancaram pela raiz as árvores do bosque,
romperam até o fundo as membranas para poder passar.
Foi uma labareda sagrada no inferno,
uma lufada de céu sepultado na areia,
a cabeça de um deus que cai dando tombos entre um raio e o trono.
E depois não existiu mais.
Nada mais que as chamas, o pó e o estrondo,
iguais para sempre, cada vez.
Mas essa mesma mão mordida pela armadilha roçou a eternidade,
essa mesma pupila esmagada pela luz foi um fragmento do sol,
essas sílabas destroçadas na boca foram por um instante a palavra.
Eles eram reféns de outro mundo, como o carro de Elias.
Mas estavam aqui,
caindo,
desprendidos.